sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O Natal de Dois Mil e Nove.

E foi com uma trança de Dorothy que passei minha manhã de Natal. Após ela me trançar toda os cabelos, foi colocada uma fita verde no fim, como para combinar com o vestido.Achei bonito ficar assim.Foi como se eu fosse uma história.
E foi esperando e falando de Ana que passei meu Natal.
E, após tanta melancolia que a data me trouxe,
foi com votos de pessoas que aparentemente parecem que se perderam de mim, mas que aparecem para parecer que jamais se perderão, que fiquei bem, em paz.
Eu, minha trança e meu laço verde.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Falso Leblon, Big Brother, tô fora do ar.

Eu tô no meio do espaço. Eu tô em lugar nenhum.Eu tô em um ponto no meio.Eu tô em um lugar que não existe, onde nada existe. Nem a minha dor, nem a minha alegria. É tudo beirando o transparente. E eu ali, flutuando no ponto que não existe no meio.Eu não existo?eu existo.Eu sou transparente?eu sou transparente.E eu tô parada, tentando existir. Mas só meus pensamentos parecem existir para me atormentar no meio do não existe.Mas se nem a minha cabeça existe,de onde eles saem, pra onde eles vão?E de onde saem essas minhas tantas perguntas aqui?
Aqui . (No ponto) . Parece que só existem meus pensamentos tortuosos e transviados e o Caetano. O Caetano nunca mais parou de cantar no lugar que não existe.Canta também uma dor que não existe mas que, no meio do nada, enche meu peito de angústia.
Todo mundo foi embora e eu fiquei aqui. Em um lugar que não existe, no meio, em um ponto.flutuando,
mas nada disso existe.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

F o i...




Foi Caetano, foi Rio, foi lago, foi Lapa, foi Rural, foi um amor por Barra Mansa, foi mãe,foi amizade, foi saudade, foi Largo,foi criança, foi paixão, foi Mutantes, foi floresta, foi capitu,foi esfiha com açaí,foi figueira,foi piano, foi fugir de casa, foi retiro espiritual,foi Vassouras,foi Antropologia,foi descoberta,foi pedra, foi dor,foi Morada Universitária, foi biologia, foi ciências sociais,foi linha amarela, foi medo,foi angústia, foi desejo,foi negro,foi sonho, foi filtro dos sonhos,foi mato cachorro e gato, foi falta d’água,foi vinil, foi ônibus, foi ônibus, foi ônibus,foi óculos vermelho, foi rosto vermelho, foi unha vermelha, foi vermelho, foi vermelho,foi pérola, foi banheira,foi Rocinha,foi presente,foi pai,foi louça,foi crise de identidade, foi sem razão, foi excesso de emoção,foi mangueira de gás,foi palavra, foi letra, foi cor, foi cor,foi literatura francesa,foi bolinha de queijo grudada na parede,foi Direito ou foi justiça?, foi Wilson Simonal,foi cerveja, foi cerveja, foi encontro, foi desencontro, foi Cinelândia, foi Santa Teresa, foi bonde,foi você, você, e você, foi ou não. Obrigada.

Foi o meu mil novecentos e sessenta e oito no ano dois mil e nove.
Foi o meu ano que não terminou, e nunca mais vai terminar.
Esse foi o meu ano da revolução. Das loucuras. Dos delírios. Das cores. Dos berros. Dos nervos.Das recompensas.Das manias. Das noites.
Esse foi o ano de me (re)conhecer. De me perder e de me achar. De partir e de ficar.
Esse foi o ano de ficar normal, ou anormal.
Esse foi o ano de
ser
(tudo)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Novos Baianos Velhos




"Mais perto do seu som. No seu mundo sobreterrâneo.
À beira do abismo. Por fora de "ismos". Na porta. Varrendo o terreiro. Lavando os pratos como quem faz música. Sem prantos, na fonte, na boca da criação.
Na terra, moramos num sítio.O cantinho do vovô. Tudo como no sonho do meu avô. O sonho do homem - baiano 100%: a casa cobre da chuva, na rua me faço, me vivo e levo você. Na rua me mato tranqüilo, porque não sou menino. A bola já está comigo e os dois beques colados às minhas costas me obrigando ao drible. Eu vivo disso, sou garrincha por convicção. Sou Tostão pra não me machucar. Não há filosofia além disso, só o novo. O criado em cada minuto. E não tem dois tempos pra quem anda. A dúvida tem só a direção de um lance. Ser junto, ser mais de dois (o sonho dourado da família). Encontro constante e continuado com o fiozinho de nada que é você. E chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar o seu valor.

Viemos de uma geração velha, cansada de guerra. E crescemos sob os fluidos da brincadeira de bandido e artista, tela e palco. Somos de depois da guerra. Nem a soma nem a diferença. Somos depois de todos os papos alguém no meio da rua. "Eu peço a palavra". Alguém no meio da rua, sem autorização nenhuma, cumprindo a sua. Resolvendo ao seu redor e por dentro. Tinindo e Trincando. Alguém tem que segurar a barra. Agora mesmo eu não sei se despejo a casa dos marimbondos da minha casa.
Ontem, uma muriçoca me mordeu no braço e com o outro ia matando-a, mas o consciente me disse: num é nem defesa própria. Mesmo assim matei, sem ódio, por medo. Com os marimbondos, vou experimentar diferente. Vou ser brasileiro. Só vou fechar depois de roubado. Ou baiano passando pelo buraco do ladrão na maior.

Bom é acordar com o som dos passarinhos e depois o violão. Olhe a batida de Moraes Moreira, que não é de limão...

...Nos dizemos as coisas pra nós mesmos e vamos nos dizendo até não nos lembrarmos mais. Só sabermos.”

domingo, 13 de dezembro de 2009

O que eu mais queria na vida era ser dessas moça que se embola no lençol no ar.
Que lindeza que eu acho desde menina, quando o circo dava em aparecer na cidade e já vinha só aquela moça.
Tudo bem que o circo trazia beleza por demais, mas o que me prendia a vista mesmo era a mulher no pano.
Dia de circo, eu ia pra modo de ver a festa toda que tinha.Via palhaço e cuspidor de fogo e, nesse dia, aparecia até retratista!... Mas eu queria mesmo era ver a moça do tecido de cor.
Ela chegava com um sorriso que parecia até modo de ter sido pintado na cara feito aquela pintura todo nos ólho. Sorriso mais lindo, sorriso que gente daqui nunca haverá de ter. A moça chegava mesmo desse jeito do feitio de bailarina,mas sem ser. Umas roupa também de cor e de brilho. Ela vinha de um jeito meio que leve na ponta do pé que não cai.
E depois de tanta forma delicada, era de um jeito violento que eu nem achava que havia de caber naquele corpo, que ela pegava o tecido. Ia se trançando toda e nadando pra cima se embolando se abraçando e quando eu dava por mim a moça já tava lá no topo. E quando eu via, ela ficava no ar feito borboleta mesmo.
Borboleta-gente. Borboleta-moça.
Lá ela se revirava toda em sorriso. Não sei o que dava. Por vezes,ela parava em pose de bailarina no ar, ou era fada que se confundia com flor. Mas a moça fazia tanta cor, mas tanta cor,
que eu nem sei mais se no céu era balão ou moça-borboleta.
Mas então, o momento que eu mais gostava mesmo, e por conta disso que fui querer ser moça de tecido do circo, era quando ela trançava as perna e se punha a girar no ar, presa nos pano, como de modo que parecia que tudo ia soltar e ela ainda sim continuaria girando, feito um prego colorido.Nem dava pra ver a cabeça da moça,
ela desvirava de ser gente ali.
Desvirava pra viver de ser prego.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Para quem sai de casa.

-Maneira a sua pulseira!

-Comprei em Ilha Grande. Essa e uma outra, mas aí, a outra arrebentou e, como moro sozinho, não tenho ninguém para amarrar de novo para mim...

-Esse é o cúmulo da solidão, cara.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Felicidade Clandestina

Descobri que preciso ficar sozinha.Sozinha mesmo, de verdade.
Sem as mulheres do vagão das mulheres.Sem alguém em casa.
Sem pensamentos na cabeça pra colocar no papel.Sem estudos.
Sem os velhinhos do jardim do museu.
Sem os floristas do Largo do Machado.
Só-zinha. Só-eu. Eu e eu. Só.
Sem imagens.Sem conversar com cores.
Quero o branco, o vazio, o nu.

Quero ficar cega, surda e muda para poder ficar sozinha.

Sem cérebro, para poder ficar sozinha.

Não é nada questão de tristeza, muito pelo contrário.
É pra poder dividir com menos gente essa alegria que sinto.
Só dividir comigo. De Isabela para Isabela. E só. Sozinha.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Janela

Às vezes, a única coisa que quero na vida
é um lugar para apoiar os cotovelos
enquanto vejo o mundo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Melinda e Melinda

Eu já não tinha mais quatro anos de idade quando experimentei o que experimentei.
Eu, uma mulher casada,42 anos, mãe de dois filhos.
Estava cansada e o dia havia sido cheio de fumaça demais.Eu estava cheirando a envelope de papel pardo e minha cara era uma repartição pública quando vi o pote bonito na bancada do banheiro de Iolanda.
Meu rosto suado,meu corpo melado de uma umidade relativa do ar e minha pele já amarelada demais de uma maquiagem das seis da manhã derretida.
Sentei no vaso e urinei uma urina quente enquanto meus olhos não se importavam com o calor do meu próprio excremento e se preocupavam em olhar o pote que não parava de me olhar também, desde que entrei no banheiro.
O pote era de vidro com umas formas meio quadradas e as arestas grossas davam um tom esverdeado quando se encontravam.Dentro: a delícia.O sabonete líquido era de um branco perolado que dava umas nuances em lilás,tão leves, como que pinceladas ao redor do líquido cremoso.Era uma forma tão cremosa que dava a idéia de uma profundeza,como quando se abre e fecha a boca sem deixar que se toquem os dentes.A verdade é que aquela cor cremosa havia me envolvido.
A cena talvez não tenha acontecido assim,mas para mim foi em câmera lenta.Levantei-me e ainda mijada pelas pernas, fui com o dedo indicador buscando o pote sem minha cabeça mandar e meu dedo apertou o botão do pote.Eu vi meu dedo apertar quando eu ainda não pensava em fazer isso.Era como se uma Melinda tivesse saído da Melinda que eu sou para me ver ali, apertando o botão.
Foi o creme, o sabonete líquido que eu vi escorrer em meu dedo indicador depois.A outra Melinda, a que eu via fazendo as ações para a Melinda que eu sou, foi levando o dedo a boca e aconteceu.As duas mulheres que eu sou se encontraram no momento em que veio o gosto a boca.O gosto do sabonete líquido.Um gosto amargo envolveu a minha boca, e o gosto era tão amargo que eu não posso mais descrevê-lo de outra forma a não ser amargo,ou porque o amargo gosto pode ter arrancado minhas palavras da superfície da língua ou, apenas, as emudeceu.
Bebi, comi, senti sim o sabonete em minha língua, e meio tonta e transtornada,sentindo-me louca fui já completa por duas Melindas, enfiando água goela abaixo, desesperadamente, como que para apagar aquela loucura.
E bebi uma água toda da torneira,bebendo como se tivesse sede de sanidade.Tanta água que meu estômago doendo me fez escorregar na parede, buscando sentar no chão.
Arrotei. Arrotei ali sentada no chão do banheiro de Iolanda.Arrotei um arroto amargo do sabonete, e da minha boca começaram a sair bolhas de sabonete líquido peroladas como ele, lilás como ele.
E eu ali, sentada no chão, via o pote, via a bolha nadando no ar.
Via a minha vida.A vida de quem vive mesmo em bolha.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

-Esse fumo é levinho,né..?
-Não sei.Eu não tenho como saber se é leve se eu não conheço o pesado.
A gente só conhece algo, se conhecer seu oposto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Romance.

Às vezes, tenho em mim
uma vontade de ter um amor de tarde,cor de laranja.
Quando acordo à tardinha,e meu pé nu encontra a réstia de sol que entra pelo vão da persiana de palha.
Quando vejo um vestido de algodão branco bonito pendurado e me dizendo que quer sair pra passear.tomar sorvete de pistache. de mãos dadas.
E aí, é quando tenho em mim assim, essa vontade de ter um amor de tarde,
da cor de laranja.

domingo, 15 de novembro de 2009

Carta ao leitor

Querido José,

Acabo de chegar em casa e já te escrevo ainda com fome, visto que já passa do meio-dia.Escrevo-te como que pra me desafogar do que passei ainda pouco. Venho de uma ciranda linda de teatro que aconteceu ainda ali, na praça da minha cidade.Fomos em procissão,saindo da Igreja Matriz, passando pela antiga Estação e saindo no Parque Centenário, a Floresta Amazônica da pequenina Barra Mansa.Escrevo pra te escrever o que foi que vi. Lindo.Gente cheia de panos, cheia de cores.Havia tambor e batuque, havia caboclo, havia tipo capoeira, havia Santa Luzia, havia sangue,
havia tanta vida, José, que eu nem sei mais se vivo de verdade.
Chorei naquele começo, quando eles falavam do jagunço, da gente que nasce da poeira, de Canudos.
Canudos não se rendeu,José, não se rendeu.
Chorei porque foi Euclides da Cunha,porque foi uma criança,órfão sobrevivente do sangue,
Chorei porque era voz de um jaguncinho. Foi muita cor, Zé, muita cor.
Chorei porque parece que perdi muito tempo enquanto eu podia estar ali um dia também, não fosse o passado e a pior dor é a do arrependimento.
É chegada a hora, José. Eu preciso partir.Foi por isso que fui pra capital e larguei aquele antigo sonho do qual você ainda faz parte.É chegada a hora. Eu preciso me render a essa coisa que me faz chorar e ficar do jeito que fico, sem conseguir apagar o riso.Não, não penso em largar as leis. Gosto delas, até posso dizer que estou me apaixonando por elas.Elas também já me fizeram chorar de beleza.Elas são meio pálidas, eu sei,ou melhor, elas são cinzas, não, elas são preto e branco. Não têm cor, mas eu gosto delas.Não penso em largá-las, mas preciso viver isso que digo, a cor, o som, e aquele cheiro que sinto desde pequena desse lugar.
Desde pequena...

Obrigada por me ouvir, José.
Um beijo,

Isabela

meu verso de domingo

...E em uma linda manhã de sol
nasceram Bianca, Karolina e Jaisinha
Apesar dos meios tecnológicos,eu,
pouco convencional,
não sabia que tinha no ventre:
três pedrinhas!

sábado, 14 de novembro de 2009

çar



..çar.

A desculpa: porque a minha saudade desse lugar ultrapassa o enquadramento da foto.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pedra que pariu, que dor!
A dor vinha me consumindo de tal modo que, se me perguntassem se ela havia passado, eu não saberia responder.Eu não sei mais se sinto dor,porque acabo achando que sempre fui assim:eu e ela, mas nem mesmo separadas, então, só eu.e ela dentro, fazendo parte de mim, do eu.Ela.É que a dor já tinha tomado conta de mim, ela agora era uma Isabela também, ou um pedaço, uma isabelinha.A dor era como um órgão novo meu.A dor havia se alojado ali de tal forma que eu não conseguia entender como era a vida sem ela.Era como se eu não conseguisse imaginar o que era viver sem dor,fazer coisas se sentindo sem a dor.E, assim, na minha cabeça, ela parecia que nunca mais iria passar, porque eu não conhecia mais uma vida sem aquela dor.A dor estava ali, como se eu não a tivesse mais, porque eu havia me habituado a ela, talvez até tomado afeição a ela, como uma filha no meu ventre.A dor agora era uma coisa minha, como uma coceira momentânea, uma mania de piscar os olhos. A dor fazia parte de mim.

domingo, 1 de novembro de 2009

O presente

Segundos fiquei, parada.anestesiada.prestando toda a minha atenção no forte cheiro de cigarro que parecia sair de cada poro daquele corpo velho.O cheiro parecia ser de cigarro velho e novo,misturado, amanhecido, um em cima do outro como que pra suprir uma necessidade.Com ou sem café,não sei.Não sei,porque o cheiro forte do cigarro me deixava meio sonâmbula ao meio-dia. Mas era forte e parecia ser tão dominador e extravagante que tinha assim,uma necessidade de sair em odor.Como que transbordando,como se cada poro fosse, para o cigarro, sua válvula de escape naquele imenso container chamado de corpo velho do homem.Mas o cheiro não me incomodava, apenas prendia a minha atenção, com ou sem vento.
O vento que veio, veio do nada e derrubou os livros nas nossas caras, mas isso foi antes de eu vê-lo, e ver o cheiro de cigarro forte que já citei.
Houve uma discussão, eu lembro que houve. Entre mim e ele. Mas eu não sei dizer o que eu disse direito, nem o que ele disse. Algo como Claricenãoépiegas.Nuncaliliteraturafrancesa.leiomaisliteraturabrasileira. Como?
Assim mesmo, com o cheiro ainda tentando me impregnar os cabelos, eu vi a cena. Quando falei de literatura brasileira, ele fez um misto de arrepio, uma ojeriza interessante de se ver, um jeito de se arrepolhar os lábios e apertar os olhos quase como meu irmão quando come maionese.
Eu não sei o que se deu. Agora, relembrando pra poder contar, é como se eu tivesse ficado surda e perdido todos os sentidos quando bateu aquele cheiro. O forte.O do cigarro. Eu só sei que o que se deu foi ele me entregando a sacola verde com os três livros de literatura francesa que eu não havia pagado. As minhas mãos se esticando em um gesto reprovativo ao gesto dele e seu caminho ido. Foi.
E eu ali, no meio do Largo, cheia de razão e meio surda, sonâmbula.Impregnada por uma fumaça de cigarro que nunca se levantou. Eu fiquei parada. Eu e três livros de literatura francesa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Oi Madalena,
Hi Madeleine.
I see you and eu vi você e quero que seja minha doninha.
te quiero.
para ser minha mon petit. pequena doninha. doninha do meu cuore.
ser assim, minha de cor.
mas Madô,
Je ne comprends pas francais, nem nenhuma outra língua.
Você terá que falar comigo de outra forma...

domingo, 25 de outubro de 2009

A queda

Foi com os olhos que eles se despiram.
A roupa que se tira com os olhos. os beijos que se dá com os olhos.
Porque eram compromissados e porque eram felizes em seus compromissos de amor, que não deveriam se chamar compromissos, por serem de amor.
Não tinham porquê, porque pra essas coisas não tem que haver porquê. Eram felizes lá, mas eram felizes também aqui enquanto se devoravam com os olhos e só com os olhos pra não consumar. E enquanto traíam com os olhos. Na confusão das palavras tiradas, linhas retas que fincavam, na doce implicância que se alimentava em uns abraços mais apertados que o normal pra tentar matar o desejo que não se supria com o olhar. O olhar que despia, o olhar que beijava loucamente e dizia pra dizer frases que cortassem com a doce e amável implicância que nutriam.

sábado, 24 de outubro de 2009

24 de outubro de 2004.

Cinco anos de Cinema.Transcendental.
Transcendental.
Caetano só viria depois. Ele e a queixa.
Um amor assim delicado.
Não há culpados.
Foi pecado apostar na alegria?
Cinco anos de Cinema mudo.
eu mudo.ele muda.(quase)tudo muda.
é contínuo.
Caetano:
-tempo, vou te fazer um pedido!...

domingo, 18 de outubro de 2009

Romance

" - Esse é o problema com o amor... ou ele vira cobrança e ninguém tem mais paz, ou então ele vira rotina e as pessoas morrem de tédio.

- Se você quer amar alguém por muito tempo tem que aprender a gostar da rotina.

- O casamento é o túmulo do amor. Foi inventado para os seres humanos medianos, que não são aptos nem para o grande amor, nem para a grande amizade, portanto para a maioria. Nietzsche.

- Você não quer casar porque é um ser superior, é isso?

- Não, eu não quero casar porque casamento é chato. Porque casamento é uma coisa, amor é outra. As pessoas se casam por amor e depois terminam se estapeando por causa de uma infiltração na cozinha.

- Eu não posso acreditar que você não vai mais me namorar por causa disso. Por causa de uma frase do Nietzsche e uma infiltração na cozinha.

- Eu prefiro a aventura à rotina.

-Eu prefiro os dois. Criar um filho, por exemplo, é uma aventura e é rotina ao mesmo tempo.

- Eu não quero ter filhos... quero fazer teatro. Ou filhos ou livros.

-Nietzsche de novo.Pois eu quero casar, ter filhos e fazer teatro. Mas não com você! "

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Por um lamento

Hoje é o dia mais triste da minha vida.
Hoje morre um pouco de Isabela nesse mundo.
Hoje, um pedaço de Isabela vai embora pra nunca mais voltar.
E Isabela nunca mais será a mesma, porque há pedaços que não se regeneram, passe mil anos.
Talvez seja como o tempo. E eu nunca mais voltarei a ser o que era nunca.
Devia ter me aproveitado mais de mim.
Hoje é o dia mais triste da minha vida.
Faço o enterro dos meus pedaços.
Não tenho vergonha de dizer que morro.

Elegia à embriaguês

Se alguém agora
Lá fora passa
E de soslaio olha
E vê tanta alegria

Comenta a um amigo
Também fora do palco
Aquilo,companheiro, é fruto do álcool

E diz a um vizinho
cheio de intriga
Aquilo, meu amigo, é fruto da bebida.

Mas, se na peça da nossa embriaguês,
Um ato é de amor e o próximo de alegria
Se, ao cair o pano,caem as desavenças
E, pelos próprios desafetos, somos com amor tratado!

Por que razão, amigos, o mundo não é assim?
Por que todos, sem exceção, não vivem embriagados?

(Roberto Lando)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Eu não quero sorte pra ter amor. E não quero tranquilo.
Mas quero paixão e sabor e fruta mordida
Quero rede, cabelos e sede que se mata na saliva.
Depois vou querer amor sim,
mas todo ele, todo o que houver nessa vida. Sem trocado, sem garantia.
Quero viver a poesia, mas sem rima.
Quero te alcançar em cheio o mel e a ferida e o corpo inteiro feito um furacão
boca. nuca. mão
e a sua mente sim. A sua mente toda
transtornada e bêbada. Embriagada, embriagada de mim.

Créditos: Todo amor que houver nessa vida - Cazuza.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O coração apenas pulsa. O coração apenas bombeia.
O coração apenas bate.
tum tum tum
O coração é racional. O coração tem seu ritmo e o respeita porque tem
a única função
de bombear o sangue. M a i s n a d a !
Tum.
Quem sente é a cabeça. Quem sofre é a cabeça. Quem chora é a cabeça.
Quem ama é a cabeça.
Quem se apaixona é a cabeça.
Quem ri é a cabeça.
A cabeça é emoção. O cérebro é sensível e emocional.
Deitei na sua cama e ainda senti aquele cheiro só seu só seu.
Deitei na sua cama e ainda me lembrei quando eu tinha pézinhos e mãozinhas que cabiam assim, no meio, meiozinho de vocês dois. Quando eu ia escalando entre lençóis, no meio da noite, fugindo dos monstros que me perseguiam no meu quarto...

...Me deu uma saudade do presente, porque parece mesmo que eu já estou sentindo saudade de hoje.
Já estou com saudade dessas histórias loucas que tenho vivido, dos amigos que tenho pra ligar hoje e já estou chorando pela falta do segundo que viverei amanhã.

sábado, 3 de outubro de 2009

Largo das Neves.

Eu quero uma casa verde em Santa Teresa com uma nêga de gesso apoiando a cabeça nos braços gordos e pretos e sorrindo na janela.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa e subir pro Largo das Neves pra odiar os pombos enquanto leio jornal e as bandeirinhas que balançam e as bandeirinhas são de outras Juninas.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa.
Casa antiga e larga, pé direito alto e bem arejada de varanda eu vou ver a vista.
Quando tiver tempo vou descer de bonde. Eu sempre tenho tempo e o bonde é amarelo. O Largo dos Guimarães é uma beleza e aquele povo todo que saiu de outra década vem morar perto de mim.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa e enquanto o bonde passar por de cima dos arcos da Lapa eu vou ver por cada fresta de janela desse Rio de Janeiro a casa de cor do pobre do Centro.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa que é pra enquanto o bonde passar por de cima dos arcos da Lapa, eu vou rezar por cada menino magro de fome e barriga de verme que se torce na camisa e cheira cola pra se alimentar eu vou rezar.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa com árvore de fruta e um cachorro chamado Fubá.

Yo quiero ser una chica almodovar

Yo quiero ser una chica almodovar
Como la maura, como victoria abril
Un poco lista, un poquitín boba,
Ir con madonna en una limousine.

Yo quiero ser una chica almodovar
Como bibí, como miguel bosé
Pasar de todo y no pasar de moda,
Bailar contigo el último cuplé.

Y no parar de viajar del invierno al verano,
De madrid a new york, del abrazo al olvido,
Dejarte entre tinieblas escuchando un ruido
De tacones lejanos.

Encontrar la salida de este gris laberinto,
Sin pasión ni pecado, ni locura ni incesto,
Tener en cada puerto un amante distinto
No gritar ¡que he echo yo, para merecer esto!

Yo quiero ser una chica almodovar
Como pepi, como luci como bom
Venderle al garbo mis secretos de alcoba,
Ponerme luto por un matador.

Yo quiero ser una chica almodovar
Que a su chico le suplique ¡atame!
No dar el alma sino a quien me la roba,
Desayunar en tifanis con él.

Y no permitir que me coman el coco
Esas chungas movidas de croatas y serbios
Ir por la vida al borde de un ataque de nervios,
Con faldas y a lo loco.

Encontrar la salida de este gris laberinto,
Sin pasión ni pecado, ni locura ni incesto,
Tener en cada puerto un amante distinto
No gritar ¡que he echo yo, para merecer esto!

Como patidifusa escribir mis memorias,
Apuntarme a cualquier tipo de bombardeo
No tener otra fe que la piel,
Ni más ley que la ley del deseo.

Encontrar la salida de este gris laberinto,
Sin pasión ni pecado, ni locura ni incesto,
Tener en cada puerto un amante distinto
No gritar ¡que he echo yo, para merecer esto!


(Joaquin Sabina )


" encontrar a saída deste labirinto cinzento
sem paixão, nem pecado, nem loucura nem incesto
ter em cada porto um amante diferente
não gritar:
- o que que eu fiz, para merecer isto "

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Muitas questões povoam a minha mente.
A do ovo e da galinha é a mais conflituosa delas.
O ovo é o disfarce da galinha ou a galinha é, simplesmente, a mãe do ovo?
...Enquanto isso eu não sei o que vou ser,

porque ser é algo que dá muito trabalho,
precisa de um esforço braçal no mental

...mas essa é só mais uma pequena questão das muitas que povoam a minha mente,
onde a do ovo e da galinha é a mais conflituosa delas.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eu tinha 19 anos e uma cabeleira aloirada de chá de Marcela quando vi uma realidade se tornar sonho.É extremamente estranho quando a realidade vira sonho e, mais estranho ainda é quando, após virar sonho, não se poder mais vivê-lo. É estranho isso, ou não. Mas é que sonho não nasceu pra ser vivido e, quando isso acontece, alguma coisa se sucede no tempo para mudar, porque a vida, companheiro, não é sonho não.Eu tinha 19 anos e uma cabeleira aloirada de chá de Marcela quando deixei o lugar. Eu, que nasci com a tendência à incompletude, via-me a mais completa das criaturas.Mesmo assim, deixei o lugar, com os olhos empapuçados do choro da noite anterior e uma cabeleira aloirada de chá de Marcela que eu tinha aos 19.E nesse dia, eu que sempre quis ser e tão incomum, entrei pro clã dos comuns que vêem sonhos se tornarem realidade, e não realidades se tornarem sonhos.

domingo, 27 de setembro de 2009

Porque eu tenho essa necessidade de ser assim meio contra a corrente. Mas não um contra polêmico, que bate na mesa e fala alto, porque assim também seria muito óbvio e previsível. Um contra que fala baixinho, virando a cabeça pro lado e rindo no final. Porque eu tenho essa necessidade de ser imprevisível e diferente de tudo que possam esperar de mim. Cara de que faz algo muito diferente, mas, no final, se entrega ao banal e ao mais comum. Um rótulo, uns títulos e essa delícia em surpreender,em deixar boquiaberto, em fazer o nada a ver, ou melhor, o que parece ser nada a ver.
O fugir assim, à francesa, pela tangente, de mansinho, de andar lentinho e com charme daquilo tudo que esperam de nós é fantástico.
Ser surfista com cara de surfista não tem graça. O interessante está em descasar as palavras e atos com a imagem e, se não for assim, não há porque rir.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Desde aquela hora com vontade de comer bis branco que não passa. Eu vejo poesia onde não tem, mas se vejo é porque há e ela me puxa pelos cabelos e me gira e me gira e me gira no ar. A menina caminha solta o corpo fecha os olhos no túnel de metal e se liberta em sonhos porque fecha os olhos que levam segundos de vida que passam e que passam pelo túnel de metal e ela sobe. Sobe, tá chovendo. Vê um abraço e deseja encontrar. Na chuva.Na certa daria um beijo longo na boca quando as línguas dançam e dançam, e depois olharia a cara dele de sono que tem na chuva, no largo.E anda e o guarda-chuva dobra e o vento e o vento e o sinal que pisca e já passa das onze e o casal que namora na porta, no prédio, no escuro. Casal que se beija e faz quem não beija ter vontade de beijar também. Sumi sim e gosto de sumir quando ainda não sumi de mim mas, ao final do dia, tudo o que eu queria mesmo era matar essa vontade de comer bis branco que não passa.
Chovia uma chuva de dar dó.
Cinza e caras cinza.
Nublado. Preto. Branco.
No meio da praça um homem preto.
Negro como Bob. Cabelos como os de Bob cantava
lindamente
como Bob.
O dia era cinza.
Sem sol porque
naquele dia cinza, o sol amarelo havia escolhido aquele homem preto pra morar.
E a chuva.E a chuva que caía do céu só pra lavar seu rosto, homem.
E cantava e cantava porque balançava um balanço de Bob e os dreadlocks que pulavam pra comemorar a chuva que cantava pro homem.
E o sorriso. O sorriso do Bob do Largo do Machado que fazia
o dia ter o sol iluminado mais preto que já vi.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Receita de bolo

Se quiser que uma paixão dure,jamais a corresponda.

domingo, 13 de setembro de 2009

Lili inventa o mundo

Lili tinha 5 anos e umas balas no bolso quando ganhou um caleidoscópio.
Botou o buraco dentro dos olhos e viu o mundo se mexer colorido.
Lindo.
O mundo que Lili via por aquele único olho do tubo era Lindo.
E Lili decidiu que, a partir de então, mesmo sem o tubo, ela veria o mundo sempre daquele jeito. Miçangas e paêtes e estrelinhas coloridas nadando pelos ares e cores e cores.E, assim, Lili se tornou a famosa garota dos olhos de caleidoscópio.
Quando Lili passava por momentos tristes, as cores ficavam mais escuras no caleidoscópio do mundo, mas ela girava e tudo voltava a ter cor e nadar e nadar e nadar em colorido.
Um dia,Lili achou que não sabia mais que cor estava. Estava tão confusa, havia cor por todo lado. Por vezes, ela queria ser amarelo-laranja-vermelho, por outras, ela queria ser lilás-rosa-verde clarinho. Lili caiu em pensamento. Pela primeira vez na vida não sabia de que cor estava seu mundo. Estranho.
Foi quando chegou no parapeito da janela, e o verão chegava também. Lili arregalou os olhos já não pequenos, e gritou sozinha no quarto:

-Azul!

Azul Azul Azul.
Blue Blue Blue .
Blues. Azuis.
Blue Blues Azul tudo todo mundo nu céu celeste celestial de um azul tudo mas sem você eu fico blue blues azuis azul blue.

Bilhete

A vida aos 20 e poucos anos se resume em apenas alguns conselhos (pelo menos para três garotas sonhadoras):

"Cuidem bem da Filó , deixem a geladeira viver até quando ela agüentar e tampem bem os pregos quando a próxima gaveta cair.Cuidem bem da Luana, ela é uma extensão da nossa casa! Vejam esse negócio do disjuntor com a Adriana pra não ter que ficar descendo pra ligar, cuidado com o pai da Adriana, eu o acho tão estranho.Bianca, confira o gás e a porta toda noite, mesmo que já tenha ido deitar. Tentem fazer mais amizades no condomínio, pois eu acho que somos muito excluídas aqui, ou então mudem, mudem pra uma casa com jardim."

sábado, 5 de setembro de 2009

Liverpool

E então eu, que sempre repudiei os pronomes possessivos,
quero ser a sua my girl...

domingo, 30 de agosto de 2009

Margarida morava numa terra quente e de tons terra.Lá os dias eram laranja mas, mesmo assim, a vida se passava em preto e branco.
A vegetação parecia gostar de viver e lutava para isso, foi lá que Margarida nasceu, sempre viveu e morreu Margarida.
Margarida surgiu no mundo e tinha esse nome porque a mãe disse que era nome de flor do sul.Era mais uma irmã de oito filhos entre homens e mulheres que foram se perdendo pelo sertão, morrendo de fome, de sede ou de morte morrida que chega de velhice ou de tiro.
Com 12 anos, Margarida foi levada na mão pelo pai pra modo de se casar com Jeremias, um homem feito, filho de Seu Raimundo dono da venda que tava procurando mulher pra casar. Menos um filho, menos uma boca pra ter que dividir a comida e a água e Margarida foi obrigada a casar. Mas não obrigada, porque pra Margarida tanto fazia. Ela não sentia nenhum sentimento mesmo e não sabia o que era sentir.Ela não sabia o que era conversa, não sabia o que ia ser da vida mas também não pensava que não sabia.Sua vida era acordar bem cedo e já quando nascia o sol ia buscar água e fervia e dava banho nos meninos menores e depois a comida e o trato da cabra e até que escurecia e ia dormir. Margarida não sabia muito o porquê que vivia, mas também nunca se perguntou isso. Ela simplesmente vivia o que tinha que ser vivido sem saber a razão de tudo. Não havia perguntas nem questões. Havia um estômago roncando, uma boca seca e uns meninos chorando de leite que não tem em peito de barriga vazia.
E assim Margarida se casou com 12 anos sem saber o que era casar,o porquê de casar e com quem é que casava. Ela simplesmente entendia que ia morar em outra casa pra poder ter comida pros menores. E ela entendia que, à noite, tinha que fechar os olhos e não entender muito bem o que acontecia mas que acontecia.
Até que um dia sua barriga começou a crescer, e Margarida entendeu que ali tinha criança e criança é boca pra dividir comida. Margarida socou a barriga, tomou chá e empurrou, mas o menino não teve modo de descer antes do tempo pra ver se não vingava, e acabou que nasceu depois mesmo, e de uma dor danada.
E mais crianças vieram depois de fechar muitos olhos em muitas noites daquelas que não entendia o que acontecia, mas acontecia.
Era manhã de maio quando Margarida estava na cozinha e um dos seus meninos chegou mostrando a ela um antigo pôster seu de revista com a imagem do Antônio Fagundes todo deformado. A criança malvada de maldade de criança peste tinha feito bigode, barba, dente podre e uns cabelos saindo pela orelha e nariz do ator. Quando Margarida viu aquilo, sentiu dentro de si uma enorme vontade de chorar, ela que nunca chorou porque nunca sentiu, só dor do parto.Veio uma raiva que nem sabia que chamava raiva e uma vontade de bater no menino até que ele não vivesse mais. A criança tinha ferido a única coisa bonita que Margarida tinha na vida:o pôster do Antônio Fagundes. Ela tinha acabado com toda a beleza e o colorido de quem vive em preto e branco apesar de estar em terra laranja e céu azul.
Mas, vendo aquele homem ali todo deformado, ela começou a achar uma graça, uma graça tão grande, uma coisa cheia de graça que se chama engraçada e começou quase a rir. E,quando viu os brincos que o filho tinha feito na orelha do Antônio Fagundes e tudo mais o que havia no desenho, Margarida sentiu uma pressão na barriga e no rosto e começou a rir.
Foi uma gargalhada funda de quem nunca tinha dado um sorriso. E riu tanto, e tanto que sua barriga começou a doer. Seus músculos que nunca tinham sido exercitados pra rir começaram a se distender, dilacerando, rasgando, rompendo. E a sua boca foi se abrindo e seus lábios foram esticando fazendo com que o grande beiço ficasse muito liso e, de tanto abrir a boca que nunca tinha sido aberta pra riso, os lábios começaram a sangrar. E sua barriga que doía e um xixi que começou a descer quente, queimando as pernas de Margarida e se esparramando pelo vestido e parando no chão de cimento batido e queimado. Margarida foi ficando sonâmbula e rindo rindo rindo até morrer.
Margarida não tinha corpo e organismo pra rir e, quando isso aconteceu, ela morreu. De rir.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Às vezes, quando estou sem nada pra fazer como agora, eu pego fotos suas na caixa de bolinhas que você me deu aquele vestido rodado. Eu peguei agora a foto daquele dia em que a gente se conheceu. Nunca te contei mas você nunca mais foi bonito e interessante como naquele dia, o primeiro dia, em que não nos beijamos.Falando sem parar com o cigarro ainda por acender na boca e eu não me interessei por uma vírgula do que você dizia. Nunca te contei, mas depois te achei meio feio e magro demais para alguém meio cheia de carnes como eu. Acontece que agora você está tão longe que, nem se eu quisesse, poderia te tocar com as pontas dos dedos no meio do seu sono confuso. Acontece que tudo se perdeu sem nem começar, os fios se romperam prematuramente.São então, nesses dias que eu não tenho mais o que fazer e gasto meu tempo olhando a sua foto tirada da caixa de bolinhas, que eu imagino você chegando, sem nada de ruim ter acontecido ainda.Eu imagino o passado bom como um futuro próximo e você chega me acordando com um beijo, pois está sem sono e quer conversar. Aí a gente começa a discutir coisas sem sentido porque você sabe que eu estou sempre com sono, nossas discussões geram risadas e me dão tanto desejo por você, mesmo eu não te achando mais bonito como no primeiro dia em que nos vimos. Mas aí chega o seu sono, eu perco o meu de desejo por você e você dorme.Não tem problema porque na minha imaginação você vai me acordar com um beijo depois, mas.
São só nesses dias de imaginar.

domingo, 23 de agosto de 2009

A caixa de biscoitos teria a única função de guardar os biscoitos não fosse o que foi.
A caixa de biscoitos também poderia ser enfeite visto que carregava na capa a torre Eiffel e um casal que nunca existiu vivendo de amor recíproco sempre feliz.
A caixa de biscoitos deve carregar biscoitos. Biscoitos finos, vindos de Paris com etiqueta da casa de chás.
Alicia pequena, cabelos escorridos pretos, com olhos que falavam mais que a boca.Grandes, redondos, acinzentados.
Alicia conheceu a caixa de biscoitos quando ainda não falava muito. Nunca foi de falar, não com a boca.
Ela abriu devagar a caixa e descobriu alguns pacotinhos individuais de biscoitos. Ninguém ainda havia comido, talvez nem soubessem que a caixa de biscoitos bonita guardava biscoitos.
Alicia ama biscoitos.
A criança decidiu de si para si que só comeria os biscoitos em ocasiões muito especiais da sua vida.
Seria um prazer só seu, um segredo guardado para sempre.
A missão de Alicia nesse mundo era o de comer todos os biscoitos cada vez que tivesse em felicidade absoluta, mesmo que por dois segundos. Após comer o último pacote, ela poderia morrer.
Morrer em paz, pois teria cumprido a sua missão de ser feliz na medida certa da quantidade de pacotes de biscoito que se pode ter numa lata francesa.

sábado, 22 de agosto de 2009

O ovo, a galinha e as três meninas.

E falavam de ovo e, porque falavam, punham-se a rir!
Somente elas se entendiam, para desprezar o resto do mundo que fingia ser tudo uma bobagem.
No meio da noite, pararam no tempo, pararam conversas e reflexões para pensar em uma só coisa:

O Ovo.


E o ovo, o ovo apenas nos vê, nos observa ali.
Três meninas e uma roda ao redor do ovo. Tudo é redondo e tudo se move redondamente no ciclo da vida, como um ovo, como um giro, como um movimento do planeta.
E as três que não formam um triângulo, mas um ovo, pois muito já giraram no universo, ficam ali, paradas a observar e falar do ovo por uma noite inteira.
O ovo que, naquele momento,possui, como única função na vida,observar aquelas três cabeças.



(Créditos:Bianca Carbogim e Ana Karolina Leones.)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

A escova de dente.

-Há uma tristeza que não vem cabendo em mim e teima em descer pelo canto dos olhos.
-descreva a sua tristeza
-tá.
Minha tristeza acho que veio de nascer.
Eu sou muito de outros tempos.
Não queria vir já, agora. Ainda me tenho presa no passado de forma que não consigo me adequar a essa realidade conturbada vivenciada hoje.
-como você vai comparar o tempo de hoje com um outro que você não viveu?
você não pode sentir saudade do que não viveu!!!
-o importante é sentir saudade.
Do que, isso já não importa. A saudade que eu tenho é de tudo que não vivi.De tudo que não existe ou nunca existiu.
A minha tristeza está em sentir coisas que não existem, apenas fazem ser sentidas.
-você vive fantasiando. Viver de fantasia nem sempre é bom,eu que o diga...
-e, se eu não fantasiar, viverei de que?
-você pode fantasiar, mas não viver de fantasia.
- vou viver do trânsito que tá parando a cidade olha o sinal fechado vamos embora logo tô com fome compra pão pra amanhã vou dormir cedo tenho que trabalhar e tem prova vou jantar com amigos oi, saudades, vamos marcar de nos encontrar então tá te ligo oi amor boa noite tchau mãe tô bem as crianças saem às 5h vou passar no médico e pegar seu exame morreu? meus pêsames gostava dela.
vou viver disso?
dessa realidade crua com gosto de asfalto e com cheiro de pasta de dente?
escova de dente.
escova de dente é a marca da rotina, do simples cotidiano.
-mas o cotidiano pode ser tão bonito.
Essa realidade não é crua.O tempero fica por sua conta.
Independente da realidade que você vai se encontrar, ainda sim, você vai ser uma pessoa com sentimentos.

Créditos: Lucas Senna.

Fui ver se estava na esquina.

Eu tento tanto esquecer o mundo
que, às vezes, ele acaba por esquecer de mim.
De repente, as minhas histórias mirabolantes, cheias de caras e olhos arregalados
não possuem mais força pra nadar na língua e saltar da boca, sempre antes com graça.
De repente, meu corpo torna-se fraco e pálido com a única vontade de deitar onde ninguém possa me encontrar.

As narrativas ficaram lentas demais.

E repete.E um só assunto. E tá prolixo.

Faz-me rir! Hoje vou dormir de Álvares de Azevedo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Há filmes que te dão vontade de passar o dedo no céu pra ver se tem gosto de açúcar.

(Uma vez eu bebi sabonete líquido porque vi aquele branco cremoso meio perolado no vidro assim...
A mesma coisa senti olhando aquele bastão de manteiga de cacau. Bege, uma cor tão comível, quase me chamando, parecendo um chocolate branco que se passa na boca de enfeite ou hidratação.
Por último a doce. Ela não tinha aparência atraente mas,ah... na verdade, não me lembro porque resolvi experimentar. A cola Pritt. Só me lembro que não mais consegui parar. Foram uns dois anos de vício. Doce, sobremesa, balinha, assim, depois do lanche da escola.)

Tudo acontece em Elizabethtown parece que veio com dois balões vermelhos de gás hélio, pegou-me pelas mãos quando eu ainda era criança e me levou pra passear num lugar de grama verde.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

E, então, descobre-se que o que há não é o gosto em ter uma vida pacata de uma cidadezinha qualquer, vida mansa, natureza. Gosta-se mais.

O gostar está em desligar-se.

Está em viver uma vida agitada entre buzinas e fumaças para poder, no fim do dia, parar e olhar as estrelas, respirar fundo. Para, no final de semana, poder viajar pra longe em busca de silêncio.

O silêncio só é reconhecido quando se conhece o barulho.

E, então, descobre-se que há graça.

O prazer é o mudar de freqüência, da agitada pra calma.

Sintonizar do terror pra paz.

A sensação linear de tranqüilidade e paz cansa e não traz o prazer de se alcançar tranqüilidade e paz.

É preciso o grito,

faz-se necessário o berro, o explodir de nervos, a ânsia, o barulho, o cansaço, o estresse.

Faz sentido ter a dor para se conhecer a delícia de não tê-la.

Só se pode ter o prazer de chegar, caso se vá.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

"Não sou boa com números. Com frases-feitas. E com morais de história. Gosto do que me tira o fôlego. Venero o improvável. Almejo o quase impossível. Meu coração é livre, mesmo amando tanto. Tenho um ritmo que me complica. Uma vontade que não passa. Uma palavra que nunca dorme. Quer um bom desafio? Experimente gostar de mim. Não sou fácil. Não coleciono inimigos. Quase nunca estou pra ninguém. Mudo de humor conforme a lua. Me irrito fácil. Me desinteresso à toa. Tenho o desassossego dentro da bolsa. E um par de asas que nunca deixo. Às vezes, quando é tarde da noite, eu viajo. E - sem saber - busco respostas que não encontro aqui. Ontem, eu perdi um sonho. E acordei chorando, logo eu que adoro sorrir... Mas não tem nada, não. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente se supera. E chega mais perto de ser quem - na verdade - a gente é. " Fernanda Mello

sábado, 1 de agosto de 2009

cor terra

Quero que você venha assim mesmo, como no dia em que te vi.
Pé no chão, dançando forró de lado com a trança que deixava as mechas de cabelo saírem do embolado pra beijar seu rosto no meio do xote.
Quero que você venha assim mesmo, vestido de chita, esse sorriso de luz.
Quero te tomar pelos braços assim, te envolver e te proteger de todo o mal do mundo.
Quero levar você no colo pra uma casa de sapê com folha de bananeira no chão
Quero colocar uma rede e me deitar com você pra esquecer o que há de haver pra fora do casulo que criaremos.
Quero te envolver, minha nêga, te fazer feliz.
Só quero um amor sincero com você, prenda minha, só isso, mais nada.
Só quero te ver da cor do chão de terra do nosso nordeste, te colocar uma flor no cabelo e te beijar o rosto rosado, pro resto dos dias, nêga.
Quero uma vida simples com você, feita assim de amor nas panelas, criando criança que corre debaixo das árvores do quintal, ter um cachorro chamado Fubá em uma casa de janelas azuis.

domingo, 26 de julho de 2009

nuvem

A poesia foi dormir amanhecendo, pois ficou entre um whisky e outro discutindo literatura no bar, ali na esquina do sonho com a razão.
Dormindo serena sorrindo simpática de se ver em um lençol de fundo branco decorado por grandes flores, ela acordou perto de meio dia, mas pelo sol de inverno, parecia ser pouco mais de oito.
Acordou com a liberdade fazendo carinho no seu rosto, veio um ventinho de descompromisso que fez cócegas entre seus dedinhos do pé e ela resolveu abrir devagar os olhinhos, espreguiçando ainda.
Hoje a poesia acordou cantando, foi tirada pra dançar e virou música!

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Com quem será?

Eu estou ali, na hora do parabéns
estão todos sorrindo
batendo palmas, cantando para mim
eu estou olhando o bolo bonito, as velas

mas não sei onde colocar as mãos.
"e ela tem razão quando vem dizer que eu preciso sim de todo o cuidado
e se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz
quem então agora eu seria?
ahh... tanto faz e o que não foi não é
eu sei que ainda vou voltar
mas eu quem será?
e se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado

se não sou eu,quem mais vai decidir o que é bom pra mim?
(dispenso a previsão)

se o que eu sou é tambem o que eu escolhi ser
(aceito a condição)

vou levando assim,que o acaso é amigo do meu coração."
Rodrigo Amarante.

domingo, 19 de julho de 2009

.Vivo sonhando com o dia em que voltarei a sonhar.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

"Eu era um jovem louro e saudável quando adentrei a baía de Guanabara, errei pelas ruas do Rio de Janeiro e conheci Teresa. Ao ouvir cantar Teresa, caí de amores pelo seu idioma, e após três meses embatucado, senti que tinha a história do alemão na ponta dos dedos. A escrita me saía espontânea, num ritmo que não era o meu, e foi na batata da perna de Teresa que escrevi as primeiras palavras na língua nativa. No princípio ela até gostou, ficou lisonjeada quando eu lhe disse que estava escrevendo um livro nela. Depois deu para ter ciúme, deu para me recusar seu corpo, disse que eu só a procurava a fim de escrever nela, e o livro já ia pelo sétimo capítulo quando ela me abandonou. Sem ela, perdi o fio do novelo, voltei ao prefácio, meu conhecimento da língua regrediu, pensei até em largar tudo e ir embora para Hamburgo. Passava os dias catatônico diante de uma folha de papel em branco, eu tinha me viciado em Teresa. Experimentei escrever alguma coisa em mim mesmo, mas não era tão bom, então fui a Copacabana procurar as putas. Pagava para escrever nelas, e talvez lhes pagasse além do devido, pois elas simulavam orgasmos que me roubavam toda a concentração. Toquei na casa de Teresa, estava casada, chorei, ela me deu a mão, permitiu que eu escrevesse umas breves palavras enquanto o marido não vinha. Passei a assediar as estudantes, que às vezes me deixavam escrever nas suas blusas, depois na dobra do braço, onde sentiam cócegas, depois na saia, nas coxas. E elas mostravam esses escritos às colegas, que muito os apreciavam, e subiam ao meu apartamento e me pediam que escrevesse o livro na cara delas (...)
Foi quando apareceu aquela que se deitou em minha cama e me ensinou a escrever de trás para diante. Zelosa dos meus escritos, só ela os sabia ler, mirando-se no espelho, e de noite apagava o que de dia fora escrito, para que eu jamais cessasse de escrever meu livro nela. E engravidou de mim, e na sua barriga o livro foi ganhando novas formas, e foram dias e noites sem pausa, sem comer um sanduíche, trancado no quartinho da agência, até que eu cunhasse, no limite das forças, a frase final: e a mulher amada, cujo leite eu já sorvera, me fez beber da água com que havia lavado sua blusa."

Budapeste- Chico Buarque

Limpe bem a casa que eu vou chegar pro jantar. Você sabe, sempre gostei de sentir cheiro de chão limpo enquanto subia as escadas. Quero que você faça aquela macarronada, porque eu to trazendo um bom vinho. Coloque a toalha de linho branco, os talheres de prata do nosso faqueiro de casamento que a Tia Lourdes deu, os guardanapos de pano e ah, se der, coloque aquele vestido amarelo rodado que tem uma faixa de cabelo para combinar? E os sapatos, aqueles brancos assim de ponta redonda e saltinho. Você sabe, eu sempre te disse que você com essa roupa fica a dona de casa que eu sempre sonhei em ver quando chegasse cansado do trabalho, como hoje.Você fez faxina? Quero que os vidros estejam brilhando, refletindo nossos sorrisos nesse jantar e, coloque umas velas também, para dar aquele clima que você sempre gostava de fazer nos primeiros meses de casamento, não, eu não tô dizendo que achei que fosse ser assim pra sempre mas...trouxe flores, amarelas para combinar com seu vestido!

terça-feira, 14 de julho de 2009

Julho.

Para sempre me lembrarei daquele Julho de 2006.
Que eu esteja com família e filhos pequenos, em julho, eu ainda me lembrarei daquele julho de 2006. Que eu esteja velhinha e com netos rapagões, em julho, eu ainda me lembrarei daquele julho de 2006, mesmo que você já não esteja mais comigo, como estava naquele julho de 2006.
Depois desses anos, eu ainda não consigo descrever o que aconteceu exatamente naquele mês.Na época, lembro-me que eu tentei descrever, escrever, dizer, mas, na verdade, eu acho que nunca conseguirei passar a ninguém como eu me senti.
Posso dizer que fui transportada para um lugar,o mais lindo que se possa existir.Parada na Cidade Maravilhosa, entre buzinas, sol, artistas, praia, shoppings,teatro eu não estava ali.Cheguei ao Rio e encontrei algo como um portal da cor de azul céu mais que belo e ali entrei. Havia música, as minhas preferidas na época, havia explosão de cores, eu e você. Parece tão clichê,porque também havia praia, mas eu juro que não era bem assim.Porque durante aqueles dias que ali fiquei, eu só vivi nesse lugar e não conseguia, em momento algum, desgrudar os olhos daquele portal azul, eu não conseguia me manter ali, na realidade, quando eu via, estava lá.
Eu queria que todos os julhos fossem como o Julho de 2006, eu só queria poder voltar para aquele lugar, assim, sem nem ter que comprar passagem.
Aquele lugar parece me completar, reabastecer minhas energias, é a praia mais bela que há.Não é o Rio de Janeiro, nem Fernando de Noronha, nem Costa do Sauípe, eu não sei o nome do lugar, eu não sei e não preciso saber, por favor, eu só preciso voltar, voltar em todos os meses de Julho da minha vida.

domingo, 12 de julho de 2009

pedido.

Andamos 2km olhando para o céu.
Fizemos poemas pra estrela que, como nós, estava solitária no céu, ao lado da lua.
Solitária, ainda brilhava. Lindamente.
Andamos 2km olhando para o céu.
Exaltamos nossa juventude, os beijos dos minutos anteriores, os casos mais sérios, os desesperos, as dores, a política.
Amanhecia.
Cantamos cazuza e andamos 2km olhando para o céu.

Meu sonho na vida, assim, quando eu crescer, é ser completamente louca!

"Minha terra tem palmeiras, onde canta o pica-pau.
Não permita Deus que eu morra sem que eu volte pra Rural" , por favor.

sábado, 11 de julho de 2009

Loki.

Mutantes é a personificação da psicodelia.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A mulher nunca havia se apaixonado, não se orgulhava disso, mas não deixava
de ser deliciosamente desafiador.
16:37, tarde de inverno. Céu azul, sol, dia
de semana normal. Seria, não fosse o que iria ocorrer na vida da
mulher.
Marina subiu para a cobertura do prédio mais alto da pequena cidade
que morava, ligou a música e ficou a observar.
O sol estatelando na cara e no
corpo dela, o samba de Jorge Ben que tocava em seus ouvidos. A cidade.
A
cidade seguia no seu ritmo normal, mas com a música, ela sambava também.
Os
carros sambavam no viaduto. Dona Teresa passava com sacolas de compras.sambando.
O andar de Luciana, a vizinha mais chata de Marina, tornou-se mais leve, porque
Luciana sambava enquanto reclamava com os homens do lavador de carros. E Marina
ria, ria insuportavelmente feliz de toda a situação.Quando viu, também sambava.
E imaginava ser cada mulher da Pavuna Terezinha Denize rei de Jorge vestida
todinha de rosa ou de branco a girar que maravilha. Foi quando viu sua sombra na
parede, sambando, os cabelos cacheados rodando com o ritmo da música, pés
descalços, vestido engolindo o corpo de malemolência de Marina e, de repente a
mulher parou.
Sentiu dentro de si com o calor delicioso do sol na cara e no
corpo um sentimento nunca antes experimentado. Uma vontade de dar a mão para
aquela sombra e ir pra qualquer lugar que tivesse um céu azul, mais nada. Uma
vontade de dar a mão para aquela sombra e pular de um penhasco morrendo de rir.
Marina havia se apaixonado pela primeira vez.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Vovó e Vovô passeiam

Vovó e Vovô passeiam
Dão nome a pequenina cidade que tem
praça sorvete
igreja jardim
Vovô contou para Vovó de quando viu aquela casa ser
construída
Vovó disse que já não suporta mais tanta repetição
Na vida
social de vovô e vovó
Caminhada cedinho café da manhã sem doce para vovó
diabética
Ele gulosinho que gosta de comer doces
Almoço quentinho fumaça
que sobe da panela é casa de vó de cabelos branquinhos com biscoito
amanteigado
Soninho da tarde roncos adoráveis
Mais de 60 anos de
ouvido
Vovó e Vovô passeiam

Caminhada da tarde. Ele conta que saltou de um bonde carioca para que ela o visse e quebrou o braço . Fratura de amor. Ele conta que seu pai lhe disse que ele estava se embriagando no primeiro gole de primeira namorada hoje sua mulher há 60 anos de ouvido de ronquinhos no final da tarde de passeio pelos paralelepípedos que parecem contar histórias. Histórias de Vovô e Vovó.

Eles não sabem, mas eu conto o segredo que não podem ver:
no peito de cada um,assim, embaixo dos panos de camisa, pulsando no
coração, há um porta jóias lindo, daquele que se carrega com a foto do
amado,antigo, em forma de coração brocado em dourado prata e pedras preciosas.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Meus oito anos

(em 2050)

Oh que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais

Livre filho no playground,
quando a babá vinha
atrás de minhas pequenas travessuras.-Eu nem me sujava!
Naqueles tempos ditosos
ia colher meus jogos de videogame
trepava na cadeira do computador para fazer meu orkut
brincava no MSN


Naquelas tardes fagueiras,
Sem nenhuma bananeira
(Porque banana nasce no supermercado.)
De frente pra tela da televisão.

Oh que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais

Oh dias de minha infância,
Oh meu céu de apartamento !

50'

Pegou na minha mão de leve quando senti cheiro de flor
Daquela que tem uma cara assim de
botão de rosa chá
Que jeito de boneca é esse?
Tem cílios de Emília
Cabelos curtos pretos lisos anos 50
A mulher que parece uma menina perdida no ano 2000 ia tomando seu capuccino e falando frases que eu não conseguir entender
o som tava bloqueado no ambiente.
Bloqueado pelo cheiro que vinha dela
Eu só via a boca se mexendo em expressões de cara de quem triste e vem desilusão.
Um sorriso.
porque a mulher que pode ser tão romântica ao portar pérolas muito antes de qualquer mulher acredita .
Acredita em flor, amor e outras rimas.

.
.

A história costuma se repetir.

Julieta e Isolda.
Imperadores. Golpes militares.Ditaduras. Revoluções.
Eu não sei se chegam a ser
tão fielmente parecidos, mas

A história costuma se repetir.

O que vale é que, quando Romeu achar Julieta morta, saberá que ela não estará, na verdade,morta porque

A história costuma se repetir.

Então ganha a graça, porque Romeu só vai se matar,
novamente,
se quiser.

No silogismo brilhante:

A história costuma se repetir.

( se você quiser.)



.

sábado, 4 de julho de 2009

Biscoito expresso.

Tô contemporânea cheirando a café.
Tô querendo um chá pra discutir
filosofia.

Encanta-me a capacidade lingüística dos nobres de
eloqüência
além da forma como se expressam
(d i c ç ã o )
ao abrir
bocas cheias de dentes e
são tão filósofos.
são tão atores.

Quero esse mundo pra mim.
Terra deles tem som de aplausos.


O problema é que eu já cansei. Eu canso rápido. Intensa na maneira de viver, eu já vivi dois séculos e você ainda tá falando a mesma coisa que eu já mudei de assunto há 10 segundos. Vamos pra outra, meu bem. Senta aqui toma uma dose comigo acende um cigarro dá uma relaxada. Mas não vem de papo brabo. É que eu to cansada.Não, não há tristeza, sem drama. Só me permito tristeza em Paris, ouvindo Piaf.O resto que sinto é misto de raivinha que me impulsiona a viver e a rir, gargalhar.Mas eu não ligo mais, de jeito nenhum, pra essas caras tristes fingindo que a gente não existe. Eu to me sentindo bem aqui.Mais uma dose!Ela tá chorando porque as amigas que usam grife fingiram que não a viram e eu a convidei para bailar muito, aprendi com a vida!E se você passar na rua e não me olhar, eu também não te vi, juro! Sou míope!Faz o favor de não falar muito, não me procurar muito, cada um pro seu lado e, quando a gente se encontrar, eu limito o tempo do beijo, se eu quiser beijar.Não fica me ligando,tá? Vamos jogar nossos celulares do penhasco e depois morrer (de rir) e continuar vivendo com um brinde! Não me manda mensagens românticas, coisa de dar boa noite. Mais uma dose!Não me cobra horário nem visita nem ligação nem sorriso nem cara bonita nem magrelices, se você puder então, não abra mais a boca...Seria perfeito, mas ninguém o é,... logo, mais uma dose!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Dois cafés e a conta por. Zé

-tá, senta aí, pede o nosso café, acendeu teu cigarro que eu vou te contar a história.
-sim.
-Pra resumir, eu me apresentei como Marina. Papo vai, papo foi, papo vem e vai. "é que... na verdade, eu não me chamo Marina..." E ele disse "Eu sei, você é irmã do Pedro, mas se parece mais com seu irmão mais velho que esqueci o nome e eu tava vendo até que horas você ia manter essa história escrota..."
-HAHAHAHAHAHAHAAHAHA, que ótimo, minha cara!
-é, ri mesmo, eu também morri de rir, acredite!
-ótimo. Mas não pare com isso, imagina se todos soubessem meu nome de verdade? E meu nome da poesia?
- Desde então não minto nomes. Mentira. Menti sim, mas isso é verdade.
-É melhor ficar com esse rótulo descartável. Eu minto. Você mente. Sabe a razão?
-qual?
-a gente mente quase sempre, porque a gente escreve e pensa que é poeta, poetisa.
E então, quando a gente, que se imagina poeta, sabe que o outro tem a mesma capacidade de imaginar e perceber as coisas como a gente,a gente tende a omitir, pra não mentir...
porque mentir pra quem pensa como você é burrice.
A outra pessoa sempre desconfia que acha que conhece a verdade por trás dos olhos.
Quem escreve, pelo menos eu, não gosta de ficar falando quando quer ser entendido...
Se fosse pra ser assim eu seria metido a ator,mas eu sou metido a poeta.
E eu imagino que as pessoas, assim como eu,entendam que eu precise silabar meus pensamentos.
-Mais um café, por favor! Mais um café pro mês que vem. Mês de Agosto, Agosto dos Deuses.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

De quina.

"Eu vejo que aprendi
O quanto te ensinei
...
Não há por que voltar
Não penso em te seguir
Não quero mais a tua insensatez.
O que fazes sem pensar, aprendeste do olhar
e das palavras que eu guardei pra ti
Não penso em me vingar,não sou assim.
A tua insegurança era por mim
Não basta o compromisso,vale mais o coração!
Já que não me entendes, não me julgues,não me tentes!
O que sabes fazer agora,
veio tudo de nossas horas
eu não minto, eu não sou assim.
Ninguém sabia e ninguém viu,que eu estava a teu lado então.

Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha, minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua deusa, meu amor ..."

Renato Russo


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domingo, 28 de junho de 2009

Branco.

A paz é o vazio mais gostoso de sentir.



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codinome X.

E, de repente, eu venero cada soluçar do meu choro.
Eu idolatro cada lágrima.
A dor insuportável que surge no meu peito é a mesma que me consola.
Era disso que eu precisava para voltar a crer.
O desespero é o que vem me acalmar.
Que deliciosa dor de amor que posso sentir.
Eu não sei o que aconteceu, mas quando vi, eu estava aos prantos.
Eu já sabia que amor só era bom quando doía, agora senti isso na pele,
Como ferro quente me marcando.
Ah, obrigada por me sentir Álvares de Azevedo.
Obrigada por ter uma dor de amor invadindo o meu peito e me fazendo chorar.
É possível.

Eu não sei se você vai entender, mas é que não é possível viver de passado.
Não se pode ficar revirando pelo estômago cenas e carinhos passados como se fossem de agora, não carece, não faz bem.

É possível que eu tenha acabado de entrar para a geração do Lord Byron, que eu passe a acreditar que eu não precise ser amada, mas que eu apenas ame.
Ame de verdade, da forma mais sublime e pura que possa haver de amar.

O choro traz a esperança para quem um dia acreditou que só vale passar nessa vida, caso se ame e, que agora, vê que é possível voltar.

O furto

Quando todos se retiraram da sala, a mulher foi em direção a uma penteadeira onde se encontrava o buquê de rosas vermelhas que a outra havia recebido.
Foi andando lentamente, como que olhando para os lados.Era o seu maior crime e a possibilidade de ser encontrada na cena dele a excitava.
Quando chegou e ficou de frente para a flor mais bonita, era como se tivesse cruzado a linha de chegada, agora faltaria pouco para tomar o objeto de desejo pelas mãos.
Pegou.
E no momento que pegou, sentiu seu coração ser maior que seu corpo e ouviu o único barulho do lugar ser sua pulsação. Ela não conseguia mais se mexer porque todo o seu corpo estava ocupado em bombear seu sangue que o coração já não dava mais conta de viver para outra coisa.
Seu sangue de ladra, ladra de flores, ladra de rosa.
Cheirou com todo o olfato que um ser humano é capaz de ter. Cheirou fundo o perfume da flor que o homem tinha dado pra mulher.
Esmagou, espremeu a flor mais bonita do buquê nas mãos e depois
comeu.
comeu até o talo e os espinhos, que era para cada um deles cortar sua garganta,
garganta de ladra de rosas.

sábado, 27 de junho de 2009

Isabela e sua péssima mania.

Quando percebi, tinham três dobras em minha testa, entre as sobrancelhas.
Meus olhos se embaçaram que eu não conseguia mais ver a nitidez pela janela do ônibus.
Meu peito se apertou e eu senti a corda em meu pescoço.
A corda.
A corda da contagem regressiva.
A contagem regressiva tem me atormentado os dias.
De repente,surge em mim a vontade de fazer tudo o que não fiz nesse tempo que tive.
O tempo está acabando e eu começo a ver as belezas do caminho que passei e não vi.
O problema todo começa pela minha estranha mania.
A minha estranha mania de me adaptar.
Eu sempre me adapto e , aquela história que tinha tudo pra ser ruim, fazer-me chorar até querer ir embora, faz-me sair sorrindo, feliz e pedindo bis.

Eu tenho a insuportável mania de ver o lado bom das coisas.

A situação começa ruim, insuportável, eu não deixo de reclamar.
Conforme vai passando, vou me acostumando de tal forma a passar a amar o que está acontecendo. Em minha tela mental, passam os momentos mais bonitos com trilha sonora e eu não tenho mais vontade de sair daquela que era a pior situação dos mundos.

Como a vida adora brincar comigo (e eu também adoro isso, porque sempre dou risada no fim), quando eu estou, finalmente, bem naquela situação que era das piores, ela vai e me sugere uma nova opção, ou melhor, a mais sonhada das opções.

Diga-me a razão da festa sempre ficar muito boa na hora de ir embora?

Abro espaço pra dizer que eu não suporto o tom cotidiano que esse blog tem tomado, mas você não lê e ninguém lê, então... que me deixe escrever pra tentar me entender, antes que eu desista.

Eu não vou sofrer tanto assim, não vou deixar a contagem regressiva me estrangular.
Vou levantar da rede, tirar os sapatos e sair pra correr.
Chegando lá, eu dou a mão pro destino e a gente pula numa poça d'água pra se sujar
deliciosamente.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Blues

Em um papel de pão dormido rasgado riscado por uma bic azul:

Marcos,

Meus olhos de onça
não estão mais com paciência pra gente mimada.
Minhas garras pintadas de vermelho 40 graus
não estão mais com saco pra ouvir criança chorando por amor.
Tô sem saco pra falação,
preferia quando a gente começava a rir da tragédia
e depois se beijava com gosto de devorar.

É bom que o mundo entenda de uma vez por todas que eu não sou de ninguém.
E, talvez, nunca serei.
Sou minha, só minha.

O que eu faço com você é poesia pra driblar o tédio.

Não me ligue quando acordar!

Carmem.


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segunda-feira, 22 de junho de 2009

A menina e o mar

Como um marinheiro que chega ao porto,
Ele veio, mesmo sem tatuagem
E usou.
Usou. Abusou do afeto, do apreço.
Iludiu, seduziu.
Chamou de preta, cheirou o cangote
Como um marinheiro, ele a engravidou de esperanças.
Mas para o cara que chega ao porto, era só uma brincadeira
Era só um recreio no meio de uma longa viagem no mar.
Era só um intervalo
Uma hora de brincar.

Agora ela ficaria ali esperando parada pregada na pedra do porto (e viva Chico!)
Como um brinquedo. Usado.

Menina, há mais coisas belas no mar do que marinheiros!


..

sábado, 20 de junho de 2009

sabor de fruta mordida

Me dê a mão e se apaixone por mim.
Venha cá que eu te darei um sorriso leve pro seu coração ficar quente de sol.
Eu sou dona menina do meu samba
Eu pareço ter um universo só meu
ter meu mundo colorido que você pode entrar, se quiser.
Me dê a mão, esse mundo não é tão irreal.
Vou cantar uma melodia lenta pra te hipnotizar. devagar.
Por vezes sou tão desprezível
Por outras, sou tão encantadora
A água desce do rio cristalina e nós vamos mergulhar nesse mundo
Beber da água.
Olha minha cara,
eu tenho um melhor e um pior.
Vamos dançar lentamente.
Me retrate, me desenhe, me estude geograficamente. não ligue pra ênclise.
Vem cá, não tenha medo.
Venha com pés de lã, com cuidado, para não se perder no meu universo.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

pressão atmosférica

Gotas de suor começaram a cair do teto de sua cabeça.
Havia um desespero no ar, um ar abafado.
Ela sentia dentro de si um peso.Uma angústia no peito, uma dor.
Achava que pudesse ser um desses pressentimentos que avó sempre lhe fala que sente.
Pensava em toda a sua vida,
em tudo que ainda iria passar e
procurava motivo para aquele sentimento estranho...

Foi quando sentiu uma força subindo,
como um soco do estômago que atingiria seu queixo.
o aquilo, o peso, iria sair de dentro dela, como um filho.

Arrotou.

E voltou a se sentir leve, sem nenhuma bobeira de premonição de algo ruim.
Gargalhou que dava pra ver suas amígdalas.
Leve.

sábado, 13 de junho de 2009

gradicida,

Isa sai do acento no meio da sala.
Para num ponto e vira.
A Isa exclama sem nenhuma palavra...
Sorrindo sobre o ponto e virgulas.

por Peter Zoster - http://www.peterzoster.blogspot.com/

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O samba é o jeito de fazer calor no frio.



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ô minha frô,

Ei, pare de querer guiar a vida,nêga.
De querer limitá-la, mania de organizar,
planejar cada viver,cuidar anteriormente de cada choro.
planejar meticulosamente a freqüência de cada gargalhada.
Ei, você, minha flor...deixa a vida se viver sozinha, não a pressione tanto, vá...
Deixa a vida andar descalça, sem se preocupar se vai sujar os pés
Deixa a vida se viver.
Deixa que ela se leva, não se planeja, vive o que acontece.
Deixa que ela come quando tiver fome. dorme quando tiver sono.
Deixa que ela faz o que tiver vontade, quando tiver vontade.
sem planos.
sem ter que comer pipoca só depois que começar o filme
Deixa a vida sorrir de leve
andar devagar, sem pressa
comer saboreando e ouvindo a sua música preferida!

Sol quente.

Foi que perguntaram pra menina:

-E você, garota, o que tu mais gosta de fazer na vida?

-De Rir. Rir até fechar os olhinhos.

E a menina danou-se a rir...

...porque o riso é o sol que todo mundo tem a oportunidade de fazer nascer!



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quinta-feira, 11 de junho de 2009

samba.

O samba parecia morar naquele corpo.
Curvilíneo, se fazia em um grande tobogã do prazer ao rebolar
toda a malemolência morava ali
Era o samba em sua forma viva, com nome, dois seios, ancas largas e pele mulata.
Era Rita Baiana.
Era quem fosse que seria que seja que vá ser que foi ela
Tinha seus
pés de casca branca de lavar a roupa nas pedras do rio descalços naquele terreiro gostoso,
os pés esfregavam a terra,
levantando poeira que subia por entre aquelas pernas negras se misturando a chita da saia da preta.
E eu, homem feito, pai de família, olhava aquela cena transtornado.
Eu estava vendo o samba, minha gente, em pele, osso e carne, quanto carne!

No meio de tanta moleza de corpo, de jeito, de ginga, de roda, de bola
havia um sorriso branquíssimo no centro daquela pele negra e uns cabelos que se deixavam cair em cachos.
Mas dessa parte da Rita eu não me lembro não, tava hipnotizado
pela roda da saia que roda e levanta a terra que sobe pra beijar as pernas que eu não posso beijar.

comédia romântica.

Não se conheciam.
Não sabiam nome, data, nada.
só gravaram. gravaram cada detalhe do outro.
E os olhares.que se cruzavam em um ambiente tão pouco propício pra sentir o que sentiam.
O que os olhos sentiam.o que as bocas pediam.
É que quando tem que acontecer, quando é pra fazer história, ela se faz.
Acontece o encontro, o acaso, o desejo.

É como se a vida se encarregasse dos encontros. e dos desencontros.

Eles se olhavam e por se olhar já sabiam tudo um do outro.
Como se sem uma palavra adivinhassem a cor preferida e o tamanho do pé.

Mas eu já deixei de ser romântica desde que nasci.
não vai ser depois de velha que vou passar a acreditar em...amor a primeira vista, vai...

domingo, 7 de junho de 2009

Eu gosto de economizar meu sono que é pra ter vontade de dormir quando todos estiverem dormindo.
Assim eu levanto e começo a coversar na mesa de café da manhã.
Me passa a manteiga?

terça-feira, 2 de junho de 2009

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Sou aquela que se envolve em uma noite e odeia que liguem no dia seguinte.
Aquela que não quer se casar pra morar com um labrador e adotar uma criança e quer passar os finais de semana em família como um comercial de margarina.
Sou aquela que gosta muito de carinho na cabeça e que odeia quando ele começa a embolar seu cabelo.
Aquela que gosta de beijos intermináveis e que tem ânsia de vômito com tantos beijos um atrás do outro.
Sou aquela que não está nem aí pra ele e que se contorce de ciúmes dele.
Aquela que odeia romantismo e sonha em ganhar uma música no violão acompanhada de qualquer flor roubada do jardim do vizinho.

Tô querendo muito morrer de amor e continuar vivendo, me apaixonar loucamente e cometer loucuras, chorar à noite baixinho porque ele não disse ainda que me ama, ligar pra dar bom dia,ouvir uma música bonita e suspirar, tô querendo me pegar sorrindo do nada, não conseguir parar de pensar nele e contar os dias pra encontrar.será que ele me ama?

Tô querendo muito sair no final de semana, me envolver por uma noite, ficar, conversar e não passar disso. Tô contando os dias pra sair com as minhas amigas solteiras, beber e dançar até de manhã.Voltaremos mortas pra casa, acordar tarde no dia seguinte pra debochar das loucuras da bebida.Tô querendo ampliar minha rede de "amigos", pintar as unhas de vermelho, colocar um salto alto, pro meu celular não parar de tocar no domingo.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

O fantástico mundo de Luísa

Ela morava em um mundo só dela.
Um mundo onde não se podia excluir as coisas, assim como não se deveria fazer com as pessoas.
Se precisasse escolher uma roupa, tinha mesmo um medo interno de que a outra roupa fosse chorar dentro do armário quando fosse guardada ali, rejeitada, tadinha.
Assim com tudo, sapatos,comida...
Mesmo com comida, que a menina não gostava de comer nada, mesmo assim.
É aí que entra a história.
Um dia, a mãe de Luísa, arrumando seu quarto, achou um potinho,era um cofrinho, em formato de coração, nele estavam umas sete batatinhas fritas, quase podres.
Coisa mesmo estranha.
Luísa havia guardado as batatinhas ali.
No almoço, hora que Luísa mais detestava, havia batata frita.
Ela gostava muito de batata frita.
A mãe mandou que ela acabasse de comer, mas ela não queria mais...sabe? Tava toda cheia assim, barrigão.
No entanto, Luísa via aquelas pobres últimas batatinhas.
Qual o problema com a sorte delas? Elas não tinham culpa de não terem sido atingidas pelo garfo antes, e terem sobrado ali, no prato, como aquelas meninas que sobram no final da escolha de time.
Sim, porque batatas eram meninas, as batatas.
Luísa olhava o lixo
Lixo sujo, do mal. Parecia ter uma cara de que ia se vangloriar em pegar todas aquelas batatinhas indefesas para si, para ir para o mundo dos sujos junto com ele e o homem do saco.
Luísa não pensou duas vezes. Tomou as batatas pela mão e colocou no potinho, para que elas não fossem levadas para aquele mundo e estivessem ali com ela, protegidas, sem choro.
Luísa não teve mais apetite e as batatas passaram a morar ali, com ela, até que sua mãe as achou e jogou no lixo.

O lixo da mãe não tinha cara, nem as batatas gritaram e começaram a chorar.
Quando a mãe as pegou e jogou no lixo, não teve história, nem drama,
nem vozes fininhas das batatinhas, nem risada maligna do lixo.

sábado, 30 de maio de 2009

hiato criativo x greve.

Na minha cabeça há muitas histórias
histórias.estórias.
inventadas,inspiradas, aumentadas, histórias, estórias.

quem conta um conto, ganha um ponto.

Acontece que. elas começaram a brigar aqui.
Elas estão existindo, mas não sabem sair daqui, não tem pés.
é o hiato criativo, a lacuna, a falta de inspiração.
Sei que devo e preciso escrever.
escrever qualquer coisa assim sobre você, sobre o amor,
sobre alguma dança ou qualquer criança bonita.
Mas, nada sai.

Ela me disse que era pra colocarmos em greve, mas eu disse que nosso hiato não era proposital, nem era um protesto.era, é, talvez, um castigo. um castigo das idéias.
olha a outra castigada : http://meninadasmares.blogspot.com/

domingo, 24 de maio de 2009

Domingo no parque.

Um dia eu quero ter filhos.
que é pra eles me acordarem no domingo de sol, tão cedinho
com mil beijinhos e abracinhos, com bafinhos e olhos de remela
e cachinhos

vou vesti-los bem bonitinhos e eu também
tomarei aquelas pequeninas mãozinhas e andaremos no sol fraquinho,
buscando o parque centenário da minha bucólica cidade,
...tem trenzinho!

sábado, 23 de maio de 2009

o evitar.

O problema todo é que se apeguem e, assim, a expectativa criada em cima de alguém não seja correspondida.
O causar sofrimento em alguém, e saber disso é algo muito sério, vinho do mal que não se deve beber.
Deve ser por isso que há a fuga.
Evita, foge, some, não se apega para não ser apegado.
Tira o olhar, não liga e não chama.
Não retorna pra não ser apegado.
Não ser apegado pra evitar a decepção, evitar ser a decepção de alguém,
evitar o choro, ou antecipá-lo.
Evitar o sofrimento de alguém, ou apenas antecipá-lo.

É só mais uma das fugas de alguém.
e vai passar a vida toda assim?
evitando o apego pra evitar sofrimento (do outro)
e evitando. e evitando... (?)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

A hora da estrela

Mal feita de cara e de corpo.
Nem tão mal feita assim de corpo, mas desengonçada, magrela, pálida, corcunda.
Ela tinha acabado o Ensino Médio e agora estava no curso pré-vestibular.
Acontece que, até ali, os professores se recusavam a lhe dizer o motivo de seu apelido, sussurrado pelos cantos, entre fórmulas de física, ser Macabéa.
Ela nunca entendeu mesmo. Por vezes sentia curiosidade, perguntava. Eles desconversavam e morria ali.
Como um reflexo de sua cor de pele anêmica, a menina parecia estar sem força até para querer realmente saber a razão do estranho apelido.

(...)

Foi que ela passou no vestibular.Universidade pública.
Seria festa para qualquer pessoa, não tanto para ela.
Para a nossa pálida personagem, o ensino superior seria só mais uma continuação normal daquela vida mesquinha que nem ela se dava conta que levava.
Era uma situação normal.
bege como ela.
neutra.

(...)

Foi em uma tarde amarelo manga que essa Macabéa se deu conta de toda a sua vida.
Uma vida sem cores primárias.
Ela teve vontade de vomitar e levantou. Levantou e foi até ao prédio cinza de concreto de sua Universidade.
Último andar.
Tirou os sapatos como mandava a tradição.

E então, a menina que nunca soube porque era Macabéa encontrava,agora, a sua hora da estrela. cadente.

Trim.

Deu um pulo quando viu o celular piscando.
aquele nome no visor. Luz azul.
Voltou pra cama, ainda com a mesma voz rouca de sono
voltou pra cama como que para saborear aquele momento.
Saborear aquele momento como quando se come aquele doce devagar,
com medo de acabar, comendo em pequenos pedaços,
sentindo o sabor na língua e querendo guardar pra sempre aquele gosto.

Desligou.

Há vozes que parecem que colocam a gente no colo, fazem carinho, pedem calma, desacelera a nossa respiração e dizem que tudo vai ficar bem com beijo na testa.
Há vozes que parecem que colocam no colo, estejam em Paris ou em Barra Mansa.

domingo, 17 de maio de 2009

Saudade

Saudade é só uma estação de trem que tem no interior do Rio,
em Barra Mansa, e que dá nome a um bairro...
Bairro Saudade.


(...) algo parecido com isso foi dito na TV.

Rua

A cada semana é uma diferente.
Mulher bonita. Muito bonita.
Semana passada era uma bem bonita junto de uma criança linda. Dessas de se olhar e de dar vontade de ter filho, parindo ali mesmo, no meio da calçada.
A cada semana é uma diferente.
Uma mulher bonita, que está sempre sorrindo, maquiada, acompanhada de criança ou homem também bonito.
Ela fica ali, como uma idiota, sorrindo insistentemente.
Não sei do que ri. E me dá raiva.
Eu saio de casa reclamando do calor, da cidade feia, da poeira, do sono e da fome
e dou de cara com aquela mulher.linda. olhando pra
pista da cidade que fica no meio da pista
e sorrindo, dentro de um ar condicionado, cheirosa, parece sempre que acabou de sair do banho e que a poeira do caminhão dali de tão perto não chega nem longe de tanta
beleza.
Ela olha o que?
Eu parei. Acompanhei seu olhar.
Ela tem seu campo de visão limitado. Umas três árvores meio amareladas, esturricadas de calor e de poeira, uns camelôs sem dom de vender,
gente feia passando de um lado para outro
gente meio que perdida no meio
do calor e daquelas ruas sem começo fim.
E a mulher fica lá. sorrindo. Rindo, bonita e cheirosa, olhando pra pista. Irritante.


Maldito outdoor do Boticário,
maldito contraste que faz com a cidade,
dá vontade de morar lá, ser bonita que nem ela e viver sorrindo, olhando pra estrada.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

manhã

Morar sozinho é uma saga e isso é fato ponto.
Acordar com a sua companheira de casa te gritando
e tá passando mal me acode esquenta a bolsa de água quente pode ser pedra nos rins tá doendo ainda vou te dar buscopan liga pra sua mãe ela vai ficar nervosa melhor não hospital eu tenho medo de dar aquele negócio quando toma injeção come alguma coisa você tá vomitando de estômago vazio vou pedir ajuda a dona do condomínio tá pra itaguaí não sei onde fica o hospital que que faz? to com medo de ser apendicite é do lado direito também liga pra sua irmã que ela faz medicina a mulher da lanchonete aqui embaixo foi chamar o táxi o marido dela que trabalha na prefeitura vai pedir pra atender a gente antes que lá é confuso olha esse povo todo aqui não gostei desse médico ele tem cara de desenho animado tem certeza que não é apendicite né? mas a urina dela tá normal tá onde levo ela pra tomar o medicamento? injeção? karol você que vai entrar com ela eu vou desmaiar vamos pegar o potinho pra fazer o exame não melhorou a dor? faz xixi logo faz pensa no barulhinho da água daqui a quanto tempo? vamos pra casa almoça só um pouquinho bibi três garfadas da sopinha da karol e não se fala mais nisso tá dorme ouvindo little joy vou arrumar essa casa que bagunça tem tanta louça ufa dormiu acordou seu pai tá aqui vai pegar o exame beijos boa viagem melhoras me dê notícias amo você

quinta-feira, 14 de maio de 2009

filha do rei sol

Ando com saudade daquela menina...
Menina que costumava andar muito de verde, cabelão ondulado lavando as costas magrelinhas.
Ela se fazia feliz pelo simples fato de acordar cedinho e ter sol, mais nada era preciso pra arrancar um sorriso daquele rosto.
Saudade da menina que chorava sorrindo quando via as variadas folhagens das árvores iluminadas pelo sol, balançando com o vento.
A menina dava a mão pra outra e começavam a dançar, como que saltitando, ao ouvir os primeiros acordes de um reggae roots. onde quer que estivessem.
Lembro do dia que ela catou mais de 200 sementinhas embaixo de várias árvores, furou uma por uma pra fazer belo um cordão.
Ela gostava mesmo era de parar a cabeça pra cima assim,perto de árvores... dizia que as folhagens diferentes tavam se entrelaçando e com fundo azul de céu, formavam um quadro bonito. Quase ninguém conseguia ver também. Só ela e mais uma.
Foi tempo que ela esperava o ano todo pra subir a pedra da sereia ou fazer trilha do Convento da Penha de pé no chão.
Aquela que tinha no seu quarto verde, uma foto de Bob gargalhando fundo e gostava de ver aquilo e gargalhar também.sozinha.
Menina que, todos os dias, sentava na janela do quarto que era pra ver o sol se esconder atrás das árvores que ali haviam...
Ela acreditava em liberdade pra dentro da cabeça, usava cordão de couro e brinco de marfim..
era sandália rasteira com saião.
Quantas manhãs Menina não foi ao horto catar pena de arara bonita que se deixava cair pra fora da jaula? Era pra fazer brinco...

Ah, ando mesmo com saudade dela...
olhei no espelho e já não havia quase nada mais(...)

terça-feira, 12 de maio de 2009

São Paulo, 12 de maio de 2009

Prenda minha,

Te escrevo da capital.
Aqui se faz bonito, principalmente de manhã no cedinho, quando olho a cidade grande amanhecendo aqui do alto da construção que tô fazendo serviço.
Chego e ainda é noite, subo e páro pra ver o sol amarelo que começa a aparecer no meio de tanto prédio.Quando eu te trouxer pra cá, preta, você vai ver como que tem prédio junto, faz com que parece casa de passarinho, sabe?
Mas fico olhando essa lonjura toda de cidade, de terra e de gente e me alembro de você, minha nêga.
Terminando esse serviço, vou pegar o dinheiro todo e voltar praí.
Pode mandar sua mãe preparar aquele vestido bonito branco que é pra você se ajuntá mais eu.
Fica tranquila que eu vou falá com seu pai nos conforme, não se avexe não.
Pode separá umas pedra bonita de se colocar na orelha.

Todo dia,quando acaba o expediente aqui, eu penso que é menos um dia que falta pra eu voltar praí, te ver vestidinha como aquela foto que eu via de pequeno, da minha mãezinha toda vestida de branco mais meu pai. Te ver com aquele véu igual de santa de capela, todinha minha, prenda!

Se aprepara, pequena, que eu tô chegando aí pra te trazer junto de mim.
Aqui você vai ver um monte de gente arrumada, cheirando mais perfume do que a loja da dona Ieda chêra talco. Vai ver um tantão de coisa bonita. Já vejo até seu sorriso bobo de mulher que não sabe falar, toda espantalhada, que nem eu mesmo fiquei!

Vamô fazer uma casa nossa aqui e ter um cachorro chamado Fubá.
Depois vem as criançada toda, menina bonita quem nem você mesmo...vai ver só.

Te acalma o coração que eu já vô chegando.
Um chêro,

Casimiro

segunda-feira, 11 de maio de 2009

tem um pedaço de idealismo no meu queijo!

Pare de dizer que é tudo só mais uma ideologia minha!
Aquele cara, que não tem medo de morrer, entrou no auditório e denunciou uma parte da corja desse país.
Ele citou nomes. Ele vai morrer.
Ele mexeu comigo.
Eu já sabia que tudo estava errado, mas ele me fez ter vontade de
gritar e fazer alguma coisa.
Essa vontade me trouxe um forte arrepio por todo o corpo e veio transbordar em forma de lágrimas.
Enquanto eu sentir essa vontade de mudar, sentir que eu posso fazer algo, que seja um pedacinho, eu estarei no
Direito.
Quando eu não tiver dentro de mim mais
essa força, quando meu sangue não se sensibilizar com o
sangue
dos outros que se derramam, então eu poderei largar tudo.
Ideologia.Direito.Sonho.
Porque, se não for pra fazer diferente, não há razão em fazer.
Não, menina, cala a boca.

Eu não tô falando pra você fazer uma revolução.
Eu não tenho, nem nunca tive a pretensão de mudar o mundo.
Eu não disse que é pra você pegar uma bandeira e ir pra rua. Não!

Se você quer exercer sua profissão na empresa do seu pai, vá!
Se você quer ficar atrás de uma mesa de madeira maciça, no ar condicionado, vá!
Ganhe seu dinheiro e passe pela baixada quando for passar as férias em Cabo Frio.Foi Cabo Frio que você disse que quer passar as férias, não foi?
Se é confortável isso pra você, faça isso sim.
Se nesse setor, na sua escolha,você não passar por cima de ninguém,
não prejudicar ninguém,nem a sociedade e não for
desonesta,
você já será parte de qualquer
revolução.
É o famoso "pense global, haja local"

Honestidade não é questão de idealismo, minha filha.
Eu posso desanimar sim, perder meus ideais, parar de acreditar, mas a desonestidade não!

Aquele homem feio, de cabeça achatada, que nem se veste como meus outros professores de Direito
me mostrou que não é só eu que sonho no mundo.

E você, menina, pare de dizer que não tem jeito!
Vá sentar na cadeira da empresa do seu pai e seja honesta, tá?

Um beijo, até amanhã!

sábado, 9 de maio de 2009

lilás

Ela queria voltar a
ser um sonho.
Ela queria voltar a ser encantada.
Ser flor.
Ela queria voltar a ver
o mundo todo colorido,
como que cheio de gérberas
grandes e pequenas espalhadas.
Ela queria voltar a se ver sempre correndo
por entre os eucaliptos.
A ser um
cor-de-rosa não romântico,
ser suave. É, sonho.
Ser nuvem, ser céu,
ser sol que entra pela janela, fraquinho, no final da tarde, só pra acordar daquele soninho bom.

Amanhã, ela vai acordar bem cedo
e tentar pintar o mundo de lilás.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Bar do Chuveiro

Lavei os cabelos com chá de flor de marcela.
Agora eu posso voltar a ser aquela. aquela de uns 2 anos atrás, que ainda não usava brinco de pérolas...
Veio aquela vontade da gente pegar aquele pedaço da Estrada Real.
Passar na serra linda ouvindo músicas bonitas no carro de janela aberta, pode ter pausa pra comer pastel do chuveiro sim.
A gente nunca se cansou de cantar, vai parecer um bando de jovens sadios, bronzeados,vai parecer de filme!
ah, eu vou pegar umas linhas também, embolar no cabelo, fazer dread de cor, como daquela vez que foi...
Agora desce o Deus me livre, eu vejo o paraíso, você tá comigo!
Se tem chuva, a gente abandona a barraca e corre que pula na poça eu não ligo nem você.
Se tem sol, ele nos cansa em trilha por todo o dia.
Só não cansa o suficiente pra eu deixar de botar o pé no chão e dançar forró a noite toda.
Tem vagalume.tem guaiamum.
Tem também gringo, argentino, que a gente começa a conversar só porque parece o cantor da nossa banda preferida.
A minha tentativa de espanhol foi péssima, mas a gente se fez em sorriso!
À noite, a gente fecha no Muvuca, com algum salgado que não me faça vomitar no meio do caminho para a praia que é pra ver o sol nascer do mar.
Você sabe, toda noite ele entra naquele mar lindo e se esconde que é pra poder aparecer estrela, aquelas que são tantas naquele céu. Mas depois do lanche no Muvuca, vamos todos lá vê-lo sair do mar, laranja. laranja. cansado de beber água salgada.
(...)
A gente decide que vai morar lá pra sempre. E o sempre dura até começar a anemia, aquele PF não ser tão maravilhoso assim, o lodo do banheiro começar a incomodar...
Aí as olheiras vão surgir, a gente pega a barraca e volta pra selva de pedra, mas a gente só volta pra cá que é pra poder voltar pra lá, mais tarde.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

arte moderna.

Não sei o que quero, mas sei exatamente o que não quero
com toda a certeza do mundo
mas só nesse exato segundo.

Carta ao Jorge.

Pavuna, 7 de maio de 2009

Quero ir ao show da Banda do Zé Pretinho, você vem comigo?
Não, a chuva não tem que parar de molhar, quero me sentir mais que o infinito, pura e bela, inocente como a flor.
Quero ir toda de branco, meiga, pura, linda e muito tímida.
E a gente vai girar, que maravilha! Grita comigo, assim:
-Salve Simpatia!
Não, não ligo de estar despenteada, é funk na cabeça!
Te vejo lá, então!
Que Santa Clara esteja com você!

Beijos,

Denise Rei

quarta-feira, 6 de maio de 2009

enquanto um bom texto não vem.

Que lugar bonito. E nem tem ninguém pra comentar comigo, olha ali!
Como um oasis.
No meio de tanta feiura, aquele lugar lindo. A minha universidade.
Que clima.
Sinto-me em um filme bonito, aquela novela da tarde...
Os jovens espalhados e sentados. Cigarros e folhas de filosofia.
Tá bonito, continua!
Pena que eu não estudo aqui, não exatamente aqui, pena que eu nunca venho aqui.
Imagina se eu fosse embora amanhã e não desfrutasse de nada disso?
Agora vou passar a frequentar mais, você vai ver.

Eu andava preocupada com milhões de coisas, ocupada em miúdos e não via tanta beleza dessa, minha gente!
Cadê a minha máquina fotográfica? Quero gravar essas cores na retina para levar pra casa!

Vou pagar 1 real e ir pro campus pra distrair à tarde, você vem?

segunda-feira, 4 de maio de 2009

sigo sorrindo.

Depois de uma boa noite de sono, a gente sempre dá um jeito de seguir sorrindo.
Vê que tem sol, que o céu tá azul
lembra que o melhor da vida é rir até fechar os olhinhos.
Como um mutante, sim.


"JURO QUE NÃO VAI DOER SE UM DIA EU ROUBAR
O SEU ANEL DE BRILHANTES
AFINAL DE CONTAS DEI MEU CORAÇÃO
E VOCÊ PÔS NA ESTANTE
COMO UM TROFÉU
NO MEIO DA BUGIGANGA
VOCÊ ME DEIXOU DE TANGA
AI DE MIM QUE SOU ROMÂNTICA...KISS-ME, BABY KISS-ME
PENA QUE VOCÊ NÃO ME "KISS"
NÃO ME SUICIDEI POR UM TRIZ
AI DE MIM QUE SOU ASSIM...

QUANDO EU ME SINTO UM POUCO REJEITADA
ME DÁ UM NÓ NA GARGANTA
CHORO ATÉ SECAR A ALMA DE TODA MÁGOA
DEPOIS EU PASSO PRÁ OUTRA
COMO MUTANTE
NO FUNDO SEMPRE SOZINHO
SEGUINDO O MEU CAMINHO
AI DE MIM QUE SOU ROMÂNTICA...KISS-ME, BABY KISS-ME
PENA QUE VOCÊ NÃO ME "KISS"NÃO ME SUICIDEI POR UM TRIZ
AI DE MIM QUE SOU ASSIM.."

domingo, 3 de maio de 2009

.

O domingo acordou
nublado
e,em dias assim, parece que o jornal de domingo,todo
preto e branco e cinza
foi colado cuidadosamente no
teto de céu da avenida.
As notícias ficam assim
expostas para quem
passa e olha pra cima,
pra ver se vai chover hoje.
As notícias se fazem
bonitas em um sonho
que,só não é colorido,
para dar um ar sofisticado e poético ao dia,
quase cheirando a café
Notícias de que
nada existe de gripe suína
o Supremo Tribunal Federal tem homens de postura
Botafogo tem Maicosuel jogando na final de hoje
e...ora vejam só(!)...
Augusto Boal acaba de lançar uma nova peça!

Quem diria que
um dia nublado pudesse publicar
notícias tão coloridas em seu céu

Com licença, poética

Venho por meio desta,
e com todo o clichê que posso ter direito
ao início de uma carta,
com aposto no lugar de aposto,
fazer um pedido. Pedidinho,singelo.

Eu venho assim sem rima,
venho sem métrica, por preguicinha.
Eu venho assim sem forma,
sem soneto e sem muita vontade.

Mas o que eu quero mesmo pedir, Senhorazinha, é que...
Você, que é toda dona do mundo
toda dona das palavras
das vírgulas que me caem do céu
das crases mais divinas...

Peço assim, com todo o jeitinho que se possa ter, Dona Poesia
Dê-me (com ênclise), dê-me assim, uma licencinha
Uma licencinha poética!

sábado, 2 de maio de 2009

Matemática

A gente vive de contar os dias para chegar um dia.
Aí ele chega, passa como 1 segundo
e nós começamos a procurar um próximo dia
para começar a contar novamente.

Pe(cadinho)

Estava deitada quando ouviu o comentário dos pais:
-Onde está a menina?
-Tá no quarto!
-Tão quietinha ela, deve estar lendo...
Sim, e estava. Sempre fora assim, quietinha.
Quando criança, a mãe podia dizer que enquanto ouvia os gritos das crianças vivas nas ruas, cheirando a sol quente na pele, a filha estava em casa e brincava sozinha, quietinha.
Ela imaginava seu mundo, seus personagens,suas crianças e seu sol.
Mas agora, que revolta toda era aquela?
Sua língua coçava e ela queria falar, falar, falar, tagarelar e pelos cotovelos.
O que dera na menina?Ela não sabia, mas sua mente deixava de ser pálida e,no espelho,via cor de sangue em seus lábios,como nunca antes.
Agora ela falaria e deixaria toda a quietude para algum lugar do tempo sem cor.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A antropologia em minha vida


"Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio

andar pelado, pintado de verde, num eterno domingo"


ô se quero...

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