sábado, 9 de abril de 2016

Sobre vivente


Fui dormir depois do banho quando lembrei de um ano para trás quando comprei com você uma bucha vegetal para o seu banheiro. Eu achava que você ia esfregar minhas costas no banho com ela naquela noite, um tanto de doçura, como meus avós faziam e um tanto de erotismo porque depois íamos atirar ela por qualquer lugar e trepar bem ali, aos meus gritos. Mas naquele dia foi que você veio com a porra de um papo clichê não-estamos-dançando-mais-a-mesma-música, nunca te falei, mas achei isso meio cafona. Você sempre gostou de coisa cafona, mas era daquele outro tipo, você gostava era de ser do exagero, do genuíno e do romântico e essa frase não-estamos-dançando-mais-a-mesma-música me traz à cabeça um casalzinho vestindo salmon, ela com salto médio de um sapato branco de verniz, meio anos oitenta, meio cafona, meio nada a ver com nada desses anos todos.
Mas depois de um tempo comprei uma bucha para mim. E eu tentei de tudo isolamento putaria depressão auto-ajuda me comprar flores umbanda meninas meninos homens drogas suicídio yoga  nights cervejas leves amigos lexotan homeopatia grito cromoterapia cinema astrologia brigas retiro espiritual psicanálise tinder meditação treino funcional poesia reike feminismo trabalho filosofia acender vela trezena novena comida orgânica fritura sono e insônia.  

Eu tentei de um tudo, mas ontem ainda peguei na bucha e lembrei de você nesse um ano atrás. 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


Nascemos só e vamos morrer só.

A saída do útero é completamente solitária, embora por vezes haja o amor.

A vida segue de forma a te fazer esquecer que, na verdade, é só você.

Estamos todos sozinhos nessa massa coletiva que se ajeita no vagão do metrô, nos bares em noite quente, no supermercado Mundial às 18h, nos elevadores ou nos velórios.

A verdade é que a solidão é contínua e nos segue por toda a vida de forma escondida.

Primeiro há o cerco da família, e depois é preciso uma porção de amigos, e depois menos amigos, mas bons, e depois vêm os filhos os netos os bisnetos.

Mas é nesse meio de tempo, na gritaria de quem compra ouro na Siqueira Campos, de quem atravessa a Presidente Vargas quando o sinal fecha, ou no Carnaval em Salvador, cedo ou tarde, que chega o momento em que nos damos conta do inevitável: estamos todos sozinhos. Somos um e único que sabe das próprias e verdadeiras dores, que vai sentir sozinho que no mundo é só você contra você mesmo.

Há quem tenha, nessas horas, suas pequenas epifanias. Há quem entre em desespero, há quem se mate, há quem deprima, há quem se sinta verdadeiramente liberto.

O fato é que o ser humano nasceu de viver junto, de se aglomerar nos grandes centros, de querer morar um em cima do outro, de ter carro pra mais de um, de fazer filho, de ter gente. Por isso é que essa descoberta assim, tão de repente, pode acabar com um coração.

Eu havia pegado a mania de sentar no parapeito da janela baixa que havia me encantado na primeira vez que entrei nesse apartamento. Sobretudo depois de ver filme em solidão.

Naquela noite em especial, quando eu me sentei, notei que o céu estava estrelado demais para uma noite em Copacabana. Senti um cheiro que parecia com as noites quentes de Seropédica, quando eu voltava pra casa e subia a escada íngreme do condomínio que chamávamos de Cortiço. Foi quando me transportei para aquele nostálgico portão de tantas e tantas despedidas, ao mesmo tempo em que, também olhando a grade que me segura no quinto andar, o letreiro luminoso em vermelho do restaurante de comida israelense e os lírios cor de laranja que eu coloquei para tomar a fresca, eu tive certeza que me lembrarei muito daqui. Que esse também vai ser mais um canto de memória, em especial essa noite depois do filme e das dúvidas.

A certeza da lembrança me conforta, em especial por ser lembrança feita de agora e fresca.  

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Ausente


Era uma dessas noites quentes de Copacabana quando eu percebi que você realmente tinha ido embora.

Eu havia bebido demais no dia anterior para ter noção disso antes. Acordara cedo e ainda meio tonta para perceber. O dia havia acabado e você realmente não tinha voltado pra casa.

Era novembro e começava a ventar quente junto com toda a energia que o Rio começa a ter nesta época do ano. Ainda na janela, antes de me deitar sozinha, percebi a maior aflição nisso tudo: um dia eu iria esquecer.

Eu tenho um medo danado de esquecer as coisas, porque eu as guardo tanto, faço tanta força pra guardar e pra lembrar que de tanto encher a cabeça, há um dia em que algumas vão embora. Deve vir disso essa mania de escrever. É a falsa sensação de que conseguirei registrar tudo no mundo. no meu mundo.
Mas foi na janela e no vento quente que sempre vem que me dei conta. Eu ia esquecer.

Eu já havia mexido em algumas fotos outro dia e já havia percebido que não me lembrava de muita coisa. boa.

É um pavor terrível esquecer, sobretudo quando acaba e não se tem mais companhia pra reconstruir as lembranças.

A verdade é que eu sempre soube que ia acabar me esquecendo de tudo isso, tanto que tentei decorar as pintas, o jeito da barba fazer curva, a canaleta que carrega os fios pelo apartamento, o jeito falhado que a pintura nova tomou na quina da parede.

Na verdade acho que eu já até escrevi sobre isso uma outra vez, mas esqueci uma parte e acho que a parede não havia sido pintada ainda, então é memória nova.

O Rio está o mesmo de todo verão, naquela movimentação de sempre, de querer viver tudo ao mesmo tempo e com todo mundo e junto. Copacabana também, inclusive na Siqueira Campos, a rua do mundo. O verão continua, menos eu.

domingo, 29 de setembro de 2013

Depois

E eu estava saindo quando ela disse: - Está frio... Eu fiz que sim com a cabeça e abri a porta. Eu precisava sentir frio. Ou qualquer outra sensação que me fizesse crer que eu continuava viva.

domingo, 15 de setembro de 2013

Gosto de filmes que me fazem sair deles prestando atenção nos sons. Saio e fico dentro deles, e os sons devem ser a primeira sensação ao sair do útero. Então fico. Calada do jeito que ando e ouvindo os sapatos, as conversas altas. Penso que não escrevo. Aos poucos vou nascendo de novo. Alguém faz uma pergunta - já escolheu? ou faz uma sugestão - só quatro queijos? pode pedir metade de outro sabor também. Eu me recolho sem querer nascer ainda, estou no filme e vou ao banheiro pra ouvir os sons zíper mijo descarga torneira. Mas eu sei que chega uma hora que é inevitável, é preciso nascer.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Paladar

Quando eu te mandei ir embora, enlouqueci. Deite-me perto da janela, sentada na cadeira e com os pés por cima da mesa. As nuvens pareciam correr naquele instante, elas andavam muito mais velozes que minha cuca. Eu estava meio anestesiada ao som de Ney Matogrosso. Vi uns restos de cigarro que você tinha largado no parapeito da janela e peguei um. Eu não sabia de quando eram, talvez de sábado, ou semana passada. Eram velhos e já tinham tomado a fumaça da rua. Foda-se. Não queria sair do quarto pra buscar fogo, estava quase bem naquela posição nova descoberta. Era como um refúgio do trânsito alucinado de Copacabana: chegar à janela e olhar para o céu, melhor: deitar na janela. Tinha uma caixa de fósforos na gaveta da mesinha. Acendi o que restava de um cigarro, o filtro. Eu não sei fumar, você sabe, nunca soube. Fiquei ali engolindo fumaça, soltando fumaça, olhando as nuvens galopantes. Depois cheirei minha mão: tinha o cheiro das suas. Lembrei-me de uma outra vez que você foi embora para sempre e deixou um cigarro semi-aceso no parapeito da janela de um outro apartamento meu, eu também o peguei, mas na ocasião não fumei, só o apertei bem forte na palma pra sentir teu cheiro. Desta vez fui mais longe, senti também seu gosto.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Amanhecia em uma Copacabana que ainda não havia se decidido por ter sol ou não, mas como bem cedo e na orla, o sol me pegava nas costas de jeito leve e caloroso sem calor. Ela buscava o amor. Em um quiosque da beira com nome de refrigerante, perguntei: o ônibus passava mesmo ali. Esperamos e depois de Cranberries tocou Roberto Carlos. Enquanto cantava o primeiro, flagramos uma turminha de terceira idade fazendo algum tipo de ginástica-alongamento lá na areia. Elas eram umas graças e mexiam a cabeça ao som da música, mesmo sem ouvi-la - uma atenção especial para a velhinha da ponta, ela usava um chapéu e era a que mais se mexia - uma das cenas mais especiais e espontaneamente bem casadas que já vi. As senhoras, a música, os movimentos, a indecisão do tempo de Copacabana e o que isso proporcionava ao mar: um azul seco acinzentado. Ela buscava o amor. Tocava Roberto Carlos quando o ônibus chegou, e isso fazia todo o sentido. Ela foi embora.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Um canto de praia no fim

Eu, vagabundinha, havia me esquecido em como era bom ir à praia em pleno dia útil. Era uma sexta ensolarada quando eu saí de casa, a maravilhosa combinação entre férias na faculdade e folga no trabalho. No entanto, após deitar na areia, percebi que o sol se revezava também por detrás das nuvens. Nesse momento, quando as nuvens eram mais densas, a luminosidade intensa da estrela ficava sensivelmente diminuída, em especial para as minhas pupilas, e formava uma aura brilhosa em volta da nuvem muito branca. Foi assim que eu consegui me transferir para uma terapia bacana que eu costumava exercer até algum tempo atrás. Na época em que eu morava lá no interior, gostava de, aos domingos, levar um colchonete para o terraço da minha casa. Ali deitada, depois do sol fraco, ou me escondendo do brilho direto dele, eu conseguia ter uma noção plena do mundo (não falo de filosofia, literatura ou astrologia, estou falando na coisa física: olho na coisa e coisa no olho). Preciso confessar que na praia essa sensação fica mais forte devido ao mar. Deitada de corpo e mente inteiros em forma de horizonte, é possível visualizar o perfeito contorno do mundo, de forma que chego a estranhar que, após tanto olhar pro céu, alguém tenha achado que a terra era quadrada. Pode ser por influência do inconsciente, mas eu teimo em dizer que não: sou inteiramente capaz de perceber o fio do contorno redondo do mundo e a curva que ele faz ao final, até que chegue a mim. É uma linha quase invisível, mas que de tanto eu olhar, fica visível para mim, como essas mentiras que a gente inventa na cabeça. Além disso, não há nada mais relaxante de, nessa posição, conseguir perceber aquele movimento que eu sempre achei que fosse também o exato movimento da Terra, mas que talvez seja só o das nuvens. O importante é perceber que algo se move e que eu, deitada em forma de horizonte, vejo a Terra, que é céu. Em um instante, quando resolvo caminhar um pouco até a ponta, sou transferida em som para a realidade: Por que as crianças dão gritinhos ao ver o mar? Ou será que todos nós, adultos, temos vontade de gritar e não o fazemos porque não somos crianças? O mar é de gritar mesmo. E depois de tanta tarde, tanto mar, tanto céu da Terra, contorno da Terra, horizonte e criança, eu chego a casa e me sinto pequena: com muita violência, invadiram a Aldeia Maracanã.

terça-feira, 19 de março de 2013

Diário

A sensação de quem escreve para ninguém me conforta. Hoje é um daqueles dias sombrios, de uma enxaqueca permanente, uma ressaca constante, uma penumbra que não cessa. Dias de cansaço, sem vontade e de futuros arrependimentos pela falta de vida que eles carregam. Fica mais próxima a visão do fracasso que está por vir, mais uma prova da minha superficialidade. Nesses dias, eu exijo uma reclusão sem razão (e sem rima), acabo me afastando do mundo e fico pairando na realidade, até ser chamada de volta por algum fato feliz ou por cansaço de estar assim, mesmo estando assim por cansaço. Dessa vez eu tentei mais que das outras: quando senti o tempo feio se aproximar, permaneci em luta. Ainda domingo eu me sentei no parapeito da janela pra sentir de leve a chuva bater no meu rosto e levar a tristeza que chegava, mas ela ainda permanece por aqui. Faço, da falta do leitor, um diário e registro: apesar dela ainda não ter me tomado por inteiro, não faço questão de mandá-la embora.
Eu esperei pelo inferno astral e, já em março, posso dizer que ele não veio com tanta intensidade este ano. Surgiu alguma força em tudo no mundo e, sobretudo, um resgate. Fui resgatada de mim. Comecei a ver uma menina saindo de minhas entranhas e isso me soou bem. Algo aconteceu, algos.

terça-feira, 12 de março de 2013

Musicada

Ando com olhos de Carolina, aqueles fundos, que guardam toda a dor desse mundo.

domingo, 10 de março de 2013

A intensidade que a luz do sol, às nove de uma terça, dá à praia do leme, combina com a minha tristeza.

sábado, 8 de dezembro de 2012

nada

Fazia parte do cansaço, mas eu tinha alguma coisa estranha. Fiquei sozinha no vagão, observei as pessoas, coloquei músicas, tentava fazer um nexo de causalidade entre elas e o som. Depois observei as luzes que corriam refletidas no vidro escuro do espaço subterrâneo do metrô até chegar naquela estação. Tocou uma música no aparelho que eu ouvia, e eu já saía do vagão. De repente parecia mesmo que eu tinha encontrado enfim a sintonia entre a música do mundo externo com o mundo que eu acabara de criar. O mundo momentâneo das pessoas que saíam do trem junto comigo. Como em um clipe, um filme, um período de graça. Alguma coisa me levava pela mão, acho que era a música. Eu sentia que estava transcendendo e não queria pensar muito nisso, apenas sentir este pedaço de existência suprema. Quando vi, estava chorando parada em um degrau da escada que rolava. Mudei o caminho da volta para aproveitar mais tempo aquilo e quando a música acabou, desliguei no ato o aparelho. Não queria ser contaminada por nenhuma outra energia. Comecei a prestar a atenção nos sons que a rua me passava, como quem sai do útero materno para os primeiros sons da vida. Eu chorei sem motivo ou ideia, chorei porque havia música e minha saída do vagão casava com o som dela. Houve uma faísca de alegria que me tomou o corpo todo: apesar de qualquer coisa, eu ainda era capaz de me emocionar com o nada.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

céu abaixo

A primeira vez foi assustadora. Parecia um filme de terror de cores vivas, uma piada de mau gosto, um pesadelo. Agora eu já estou acostumada. Vermelho, a minha cor preferida na privada. Tô mijando sangue. Tudo faz parte de um costume, um pouco de anestesia e do tempo. A primeira vez foi assustadora, eu tive um grito engolido calado engasgado na garganta. Um pavor todinho me tomou o corpo, fiquei bamba, eu tinha sangue vivo no vaso onde eu acabara de urinar, quente e casual. Agora eu já me acostumei, foi assim que aconteceu também com a dor. Antes as dores vinham e me alucinavam, eu urrava de dor, eu gritava, eu socava a cama, o travesseiro, eu me socava. Não havia posição e a cada hora eu entendia de uma forma meu corpo. Quando a dor ia embora eu ficava drogada, caía lânguida em um sono profundo e, quando não acordava com a volta dela, acordava com medo de me mexer e a dor voltar. Fico me perguntando se a dor diminuiu depois de todo este tempo, ou se fui eu quem se acostumou com ela. Eu me habituei em ter crise renal, em expelir uma pedra pontuda pelo canal da uretra. Eu sou como qualquer outra pessoa, que se acostuma com a dor da vida e segue anestesiado, confundindo ser e sentir. Hoje em dia quando a dor surge, eu tomo o remédio, recosto-me na cama e ela não passa não, mas eu fico ali distraída com ela. A dor me faz companhia e eu fico observando cada passe dela, seu ir e vir, suas nuances pelo meu corpo, aumentando e diminuindo. A dor da crise renal me distrai da dor da vida, esta que eu sinto toda na alma, esta não há aspirina que faça passar. Agora vem o mijo. Eu levei susto a primeira vez que fiz xixi de sangue. Hoje em dia eu apenas vejo. Meu mijo quente me escorre e depois eu o olho ainda fresco. Vejo o vermelho se dissolvendo na água da privada. O vermelho se espalha como nuvem, como um pincel sujo de tinta guache que busca a limpeza no copo d'água enquanto espera. O meu sangue se dissolve pelo vaso e eu penso na morte. Tudo parece um céu, a maneira como se espalha, em nuvem. Meu céu é vermelho.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

On the road

Existe algo místico entre mim e a estrada. Ou talvez não sejam as estradas, mas as janelas. Eu gosto de janela ou da sensação de estar com os cotovelos apoiados para ver o mundo passar. Existe algo místico entre mim e a estrada, em especial à noite. De primeiro ainda adolescente, nas idas e vindas das férias de verão no Espírito Santo. Viagem de noite inteira. De dia eu sou capaz de entrar em cada apartamento do aterro do Flamengo ao ir para o trabalho, lembro-me também de ser capaz de entrar em cada quarto da Lapa quando passei pela primeira vez por cima dos arcos, no velho bonde amarelo de Santa Teresa. Parece até que sinto o cheiro dos quartos: a bebida, o sexo, o creme de cabelo das moças. Mas à noite, sinto plenitude na estrada. De quando adolescente, indo e voltando das férias de verão no Espírito Santo, bastava uma música no meu discman para que eu começasse o ritual místico, eu já disse, sagrado. Entre o reflexo do meu rosto no vidro, o céu inteiramente negro, talvez alguma estrela, mato, morro, vivo, grama. Tudo se confundindo em minha visão do vidro. Eu era capaz, eu sou capaz de sentir uma plenitude exata. Era comum chorar naquele tempo, ainda o é. É comum chorar quando se sente a plenitude e quando algo de misterioso como seu reflexo no meio da noite, do mato, da estrada e do nada, aparece. É estar no nada. É ser muito pequena na visualização da imensidão e ser muito. No meio deste misticismo existia algo doce. Era entre mim e a ponte Rio-Niterói. Desde criança nas idas e vindas das férias de verão em Cabo Frio, carro sem ar-condicionado na década de 90 em que, pelo menos no interior, ar-condicionado era luxo. Eu sempre precisava parar a cabeça na ponte Rio-Niterói. Sossegar a cabeça e não ouvir meus irmãos brigando, minha mãe contando uma história pro meu pai, ou a cadeira de praia que batia na minha nuca no movimentar do carro. Existia algo ali, de dia ou à noite. Eu precisava parar e sonhar. Eu tinha todo o sonho do mundo e, ainda hoje, ao lembrar da sensação que eu sentia, eu chego a me emocionar. Eu era uma menina pequena de dez, no máximo, que via a capital pela tevê e pelo passar na ponte Rio-Niterói. E foi ali que sonhei, foi ali que construí o que vim parar aqui em Copacabana, o resto, eu deixo para pensar nas estradas, nas janelas dos ônibus Cidade do Aço em um trânsito de sexta às seis.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

surdez

Às vezes gostaria de perder todos os sentidos. Cega surda muda. Às vezes sinto uma tristeza que me ensurdece toda e também me deixa muda. Mas continuo vendo e, por ver, sorrio. Escrevo de frente pra uma janela larga onde agora moro. Larga e branca, bonita no alto da avenida movimentada do bairro mais movimentado aqui da capital. Gosto do jeito dela, gosto tanto que não fecho as cortinas, não é preciso fechar. Coloquei uma planta na beira, uma onze horas, casou bem com a brancura e a largura da janela. Mas às vezes, quando não olho para a janela larga e branca, gostaria de perder todos os sentidos. Hoje aconteceu: após entender que gostaria de me fazer perder os sentidos, tive de ir ao supermercado para cumprir as coisas casuais. Uma fila, uma fila inteira no supermercado inteiro. A mulher em minha frente não parava de falar comigo, abria as mãos e mostrava para mim as linhas que haviam nelas. Falava umas coisas em que eu só entendia a palavra vítima e depois me mostrava uma pulseira de identificação em seu braço. Ela repetiu essa sequência de movimentos seis vezes, eu contei, eram iguais e eu juro. Mas eu não entendi nada. Eu não entendo nada. Eu estava surda.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Há músicas que te levam a pensar em uma vida inteira, a sua. E eu tenho o hábito quase masoquista de colocá-las em momentos críticos-decisivos dessa mesma vida. Acho que a mania faz parte de uma atriz frustrada e má desenvolvida por ananismo que mora em mim. Sofrer no espelho. Eu sou tão assim: sofrer no espelho. Foi numa dessas músicas que sentei pra escrever: Aquele apartamento que ela agora deixava. Coisas tão simples: deixar um apartamento. Mas é necessário calar, respirar cada canto do velho lugar, chorar escondido, colocar a música e pensar nas coisas passadas ali. Meu primeiro conjugado alugado em Copacabana. A vida de fato. A vida de fato nasceu ali, tenho certeza. A vida crua e cruel como é. Do trânsito da Nossa Senhora, dos pivetes do Lido, do namorado como vizinho. Gosto daqui, mesmo com as zicas da torneira e do chuveiro que sempre param, mesmo com a janela emperrada e com esse quadro que teima em ser abstrato na parede. Abstrata sou eu. Tchau!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Ficção científica

Não tenho escrito, com isso deixo morrer uma porção de histórias que nunca existiram. que nunca existirão. Eu estava com a cara toda prensada em uma máquina que faz radiografias faciais quando me dei conta disso. Vinha um ferro prendendo minha testa, outro freio no queixo, de forma que paralisava minha cara toda. Eu, por minha vez, ficava diante de uma superfície laminada, quase um espelho, um tanto mal acabado, enquanto qualquer coisa girava indo e voltando pelo meu rosto, na tentativa de me radiografar. Uma mulher falando em inglês dava voz para a máquina. O espelho que me refletia completamente de frente me vazia crer que nunca tinha me olhado tão de frente. Meus olhos muito esbugalhados pareciam me mostrar que só naquele espelho eu conseguia enxergar a diferença enorme de tamanho entre eles dois, a diferença que minha mãe tanto fala. Minha boca semiaberta, os ferros emoldurando meu rosto, uma ficção científica de mim. Tudo parado em busca da radiografia perfeita, menos meu cérebro. Naquele minuto de paralisação eu sentia o pulso, o desenrolar fluido do sangue pelo meu corpo, bolhas, respiros. E minha cabeça que não para, minha cabeça nunca para, minha cabeça ainda vai me matar. Ela e toda a minha culpa por matar essas histórias que andam por mim e depois vão embora, porque não tenho escrito.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

É impressionante como, por vezes, consigo atingir qualquer coisa perto da plenitude. Sinto por entre livros, músicas, cheiros e lugares que tudo pode esperar. É como se eu tomasse uma consciência plena do meu lugar tão pequeno no mundo, da minha existência menor que um farelo por todo o universo. É tudo tão grande tão infinito que não tem tamanho. O infinito não tem tamanho, ele some. Eu sei que sou aflita e, na maioria do tempo, permaneço em crise, inconstante, inquieta com meu lugar no espaço e no tempo. Acho, na verdade, que viver não dá tempo. No entanto, raro acontece de eu sentir essa quase plenitude. É como uma respiração no meio da vida, uma calma que vem da certeza de que vou ter tempo de ler, de escrever, de saber e de sentir. Vai dar tempo de ser.

domingo, 22 de abril de 2012

Sobre endurecer

Eu seria capaz de afirmar que a paz vem dos domingos em Barra Mansa. Mais precisamente naqueles em que a segunda-feira é feriado. Eu poderia afirmar que a paz é o banho quente que tomo no banheiro todo branco. A água muito quente que me cai nas costas, as minhas mãos vermelhas que estendo e colo no azulejo branco. Vermelhas do quente que ferve. A porta que fecho para que a fumaça ali permaneça. No cubículo branco, a conta de um vaso-pia-chuveiro. A fumaça que me entontece. Essa tontura que não passa e a pouca noção de realidade que se tem em um banho. O corpo banhado por água fervente, uma fumaça inebriante e a última coisa que se lembra é a atual fase da Nova Ordem Mundial. Surge então o novo fenômeno que me vem ocorrendo e pertubando os dias fora dos banhos em Barra Mansa. Tenho tomado uma noção horrível de lugar no mundo. Tenho sentido que meu corpo tem tomado carne. É a sensação que se tem de um cimento fresco endurecendo até se tornar chão, parede. Sinto todos os dias o meu leve espírito, o jovem, o novo, o sonho endurecendo-se, tomando-se por carne, encarnando. É o endurecimento recorrente na maioria dos seres humanos. Todos. Quase todos endurecem. Eu endureço, eu estou endurecendo dia após dia, e sentir a própria carne, ou melhor, o próprio espírito endurecer é de uma dor descomunal. É como, no meio de toda a leveza, ser aprisionado em uma caixa rígida. É desconfortante. Ter seus ossos e mente paralizados, e o processo dessa paralização dói. Há quem não sinta, há quem nasça duro, há quem nunca endureça. Eu endureço e tenho doído incessantemente por todos esses dias que seguem. Viver dói. Mas a paz dos banhos em Barra Mansa ainda me sustenta em fingir não escutar a mulher que grita, o telefone que toca e a vida que segue lá fora.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um bilhete ao céu.

Passava do meio dia e eu pensava em você na sala de espera de um julgamento qualquer daquela tarde.
Pensava em como você andava com uns olhos de mar naquela época, foi quando percebi que você ia embora.
Já não me respondia mais como antes, nem me mandava mais beijos com a ponta do dedo indicador.
Mas o que mais me entristecia em toda aquela despedida velada eram os seus olhos.
Eles ficaram turvos como um mar calmo em dia cinzento. Na verdade, como um rio ou lago, ou qualquer coisa parada, funda e turva, por onde você se perdia e me fazia perder todo o chão do mundo.
Toda uma dor de existência me consumiu naqueles dias. Hoje faz um ano e ainda dói uma saudade. No entanto, sem poder querer muito, eu só espero que seus olhos tenham melhorado.

Um beijo com a ponta do indicador,

da sua Rebeca.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um quase.

Ela cresceu e se tornou um nada.
Na verdade, não passou de uma tentativa.
Um quase.
Ela quase foi bonita, quase foi interessante, quase inteligente.
Depois, quase foi atriz, quase teve charme, tentou ser artista de outra coisa.
Quase escreveu bem, quase falou bem, quase se formou com êxito. Formou-se em uma universidade quase boa.
Quase se apaixonou um dia, quase casou em outro. Quase gozou, quase teve um filho.
Ela quase foi feliz, quase porque foi por pouco, porque era pouca. Não é nem nunca foi inteira em nada.
Quase morreu e não aprendeu, continuou sendo quase.
Ser quase é triste, porque ser quase nunca é. Não ser, não foi, quase foi, sem verbo, sem graça.
Vai morrer assim, na verdade não vai, porque quando morrer vai ser. Morreu,ponto.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Minha geração, uma paixão

Eu lembro e ainda ouço hoje a trilha sonora que tocava na vida dos jovens cool daquele verão em que eu te conheci. Ali começava toda a minha juventude. Hoje me peguei, de longe, ouvindo as músicas daquele tempo em que eu tinha aquela grande cabeleira descabelada e tinha mania de botar flor no cabelo, foi assim naquela noite em que você me conheceu. Em algum lugar da casa tocava Little Joy, só pode ser, porque foi o que marcou aquele tempo. Hoje ouço e me transporto como num filme, pra lembrar do jeans que eu usava com aquela faixa de pano na cintura que fazia parecer que eu tinha "quebrado as cadeiras", como já dizia uma amiga. Me transporto como num filme para as mil conversas que eu já lembrei, relembrei, odiei e amei tantas e tantas vezes, aquelas confusas que tivemos naquela noite. Na verdade, eu acho que não tivemos propriamente um diálogo. Ainda aposto que se alguém a ouvisse não ia entender nada, pois acredito que não se passava de cada um expondo suas próprias ideias sem a menor sequência pergunta-resposta ou coisa assim.
Ontem eu saí por aqui e tomei uma Stella. Acontece muito comigo em sair sozinha com qualquer punhado de amigos, e tomar uma Stella quando dá, que é pra homenagear você e aquele dia. Eu não conto ou falo nada pra ninguém, é como um segredo. Eu tomo quieta, e no primeiro gole lembro daquele dia. Lembro que quando você começou a falar, eu pensei em dar a desculpa de levantar para pegar um copo d'água, mas algo me impediu. Deus, destino, horóscopo, energia, sorte, azar. Ainda me pego pensando que rumo teria dado se eu tivesse me levantado pra pegar água. Não sei, o que sei foi tudo que se deu desde então e que me levou a estar hoje, depois de três anos daquela noite, a ouvir aquelas músicas novamente, sentir tudo por você novamente e tomar esta Stella pensando que ainda somos aqueles dois jovens, sentados na mesa de bar do apartamento das meninas, achando que o mundo era aquilo ali.
Peço perdão por tanta nostalgia, são as músicas e a cerveja. Agradeço por todo o sentimento que você me deu desde então, nunca foi tão bom e tão ruim sentir. Sinto muito.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Carnaval em mim

Trata-se de uma alegria única, e se você nunca sentiu, talvez não me entenda aqui.
Não sei de onde ela vem, mas surge de dentro e vem te tomando todo o corpo, te possuindo, te afogando para o risco de você se emocionar. Mas ela não vem de motivo nenhum, ela não vem do externo, vem de você. É uma alegria de mim pra mim, sem a menor idéia ou razão. Eu não sei se você já sentiu isso, mas existe um lugar no mundo, em um período específico do ano em que é possível sentir isso e são as minhas lembranças mais nítidas desse nível de alegria. O evento é a COMEERJ. O período é o carnaval, que acontece fora deste evento.Este ano eu não fui.
Pode ser difícil entender esta grandeza e o processo, afinal, estamos o tempo todo buscando os artifícios externos para gerar a alegria. Depositamos o compromisso da felicidade ou da alegria em pessoas, em objetos, em lugares. Realizamos no ato o efeito de externar, ou seja, tirar nossa própria alegria de nós, no acreditar em qualquer coisa externa gerando felicidade. Podemos ser felizes assim, mas eu já senti e te garanto, a outra, a que vem de dentro é pura, ela acaba de nascer e mora em você. Eu não sei o que você pode fazer para conseguir desenvolver esta, a que vem de dentro, talvez uma música seja capaz de abrir caminho para ela.
O que eu sei é que agora passou. Eu chorei bastante na noite passada, até ficar com dó de mim, e não coloco aqui o Chico para pura poesia, mas por verdade. Senti um desgosto enorme em existir, enorme. Mas hoje começa o ano novo, passou o carnaval e o país começa a funcionar, é um bom tempo pra chorar de véspera. Mas mesmo que fosse uma quarta-feira monótona, sem mais e com rotina, seria o meu tempo pra recomeçar.
Porque, de qualquer forma, eu sinto e decido: É tempo de faxina da alma.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Carta ao P. VI

Querido,

Foi em um taxi que eu deixei a pacata regiao de Newton, onde eu morava em Boston. Ao som de uma musica dos anos 50, talvez, que dizia coincidentemente " Go away, little girl...", eu tentei puxar assunto com o taxista. Eu disse que gostava da musica e perguntei se ele sabia quem a cantava, ele resmungou qualquer coisa e aumentou bem pouco o radio do carro. Abaixou minutos depois, novamente, quando comecou a tocar Elvis Presley. Newton e um lugar que parece ter parado no tempo. Casinhas com jardim que se conservam o tempo todo de portas abertas na regiao "safest" dos Estados Unidos, foi o que a Deborah, a dona da casa que fiquei, me disse. Newton Center, era onde eu morava. Alem das casas, uma regiao em volta do T, o trem, possui umas lojinhas charmosinhas, uns cafes, dois pubs e qualquer outras coisas que fechavam por volta das dez, e nao mais que isso. Eu fui embora de Newton, aquele pequeno universo quase particular, no meio da America do Norte, ao som de uma musica que dizia pra eu ir embora, pequena menina. Eu fui embora de Newton e chorei. Pelo dia anterior e as despedidas em abracos, por uma Isabela que eu deixei um pouco ali e por uma nova que eu descobri no meio das arvores secas da Langley Road. Qualquer coisa acontece quando voce se vence, meu bem. Qualquer coisa aconteceu. Quando eu cheguei eu disse para mim: agora e so voce contra voce mesma. E foi. Eu deixei Newton com saudade, mesmo que saudade nao exista em Newton. Go away, little girl, o mundo so comecou.

Um beijo de amor.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Carta ao P. - V

Querido,

Nova Iorque e sinestesia. Um "e" com direito a todo acento que eu nao tenho aqui pra escrever.
Nova Iorque e sinestesia. Eu senti qualquer coisa na cidade, uma especie de emocao constante no peito, um afogamento de sensacoes, por isso eu digo: Nova Iorque e sinestesia. Porque sao todos os sentidos do corpo juntos e muito intensos o tempo todo, tal qual a cidade. Voce se afoga e se perde dentro de voce, nao consegue distinguir fome de choro.
Eu tive Nova Iorque pelos olhos de um novaiorquino tipico, o Marcus, meu primo. Primeiro fomos as galerias de arte. A rua eu nao me lembro exatamente, e a 24 com alguma outra combinacao de numeros ou palavras. Uma rua so com as principais galerias da cidade. Pequenas grandes galerias. Colorido. Eu fiquei surda com o colorido das pequenas grandes galerias da 24. Tanta coisa ao mesmo tempo, tanta coisa junta, tanta coisa pra sentir, pra ver, eu queria cheiro, gosto, cor, delirio e tinha tudo. Tudo junto. Todas as sensacoes.
Eu fui em uma peca, chamada "Sleep no more", algo bem diferente da Broadway, apesar de eu nunca ter ido a um teatro de la e ate querer, mas diferente. Sleep no more era uma peca em que voce entrava na peca. O lugar central era um cabare antigo, os atores misturados com o publico, sentados a mesa, bebendo. Havia uma mulher do cabelo enrolado cantando, um cabare. Piano, bebida e eu. Tudo em torno da decada de 50, presumo eu de um calculo de olhos pelas roupas e musicas. Ali, voce recebia cartas de baralho e conforme suas cartas era encaminhado para um lugar. Um predio de cinco andares, repleto de quartos e quartinhos e ambientes, cada um decorado de um jeito. Os atores ficavam rodando por esses comodos, separados ou nao, fazendo em cenas mudas, um teatro no meio de mim, passando por mim, correndo por mim. As cenas aconteciam e voce escolhia dali qual ator iria seguir, portanto escolhia as cenas que queria ver, desordenadamente, criando qualquer coisa na sua cabeca. A decoracao dos ambientes, que depois eu fui ler, eram mais de cem, era impecavel. Uma atmosfera as vezes melancolica, por vezes macabra e por outras quase alegre. Uma verdadeira palheta de emocoes, como a cidade. Eu vi mulher tomando banho, nudez, sexo, amor, danca, morte, sangue, dor. E senti tudo isso junto, acompanhada por uma mascara e por nao poder me comunicar com os outros em momento nenhum. Incrivel.
Eu tambem fui ao MoMa, e tive vontade de sapatear de alegria,gostei demais. No gugenheim estava rolando uma exposicai inexplicavel, mas por assim ser, voce vai ver a porcao de fotos que tirei. Maurizio Cattelan. Um monte de coisa, tudo o que voce pensar, pendurado do teto ao chao , pelos seis andares vazados pelo circulo que forma o museu. Do teto ao chao, coisas chocantes, amenas, gostosas, tristes.
Eu estou ansiosa para te mostrar todas as fotos e poder te explicar cada detalhe.
Mas acho que foi isso, Nova Iorque e emocao demais, por todos os poros, com todas as coisas. E cheiro, gosto e visao.

Um beijo com todos os sentimentos do mundo, da cidade que tem todos eles.

Ps: acho que essa carta nao ficou tao poetica. Sempre que eu fico assim, com sentimento demais, e varios tipos dele, parece que nao consigo passar claramente e ordenamente as coisas. Ny faz isso, esse turbilhao.

Carta ao P. IV

Meu bem,

Desculpa a demora, acho que a ultima carta que enviei foi no final de minha primeira semana, desde entao muita coisa aconteceu, mas foi por isso mesmo que nao tive tempo de escrever. Hoje voltando pra casa, na volta que faco sozinha por uma rua cheia de casinhas americanas com jardim na frente, chamada Langley Road, eu pensei em tudo o que tenho pra te contar.
Eu tive pessoas aqui, sim, eu tive, porque voce passa a ter alguem quando voce sente qualquer coisa boa no coracao, e e muito engracado ter pessoas em outra lingua, porque as vezes voce nao consegue dizer o que sente, e na verdade nao precisa, mas voce sabe que sente, e a outra pessoa tambem. Eu conheci a Gizem, uma menina da Turquia, mas que na verdade tem os pais nascidos na Bulgaria. Ensinei pra ela o que significa a palavra saudade, mas ela disse que vou mesmo ensinar quando for embora. Tentamos trocar musicas - Turquia x Brasil, mas na verdade descobri que ela tambem ama o filme da Fridah Khalo e aquela musica Paloma Negra. Mostrei pra ela cucurucucu Paloma, ela ja tinha visto o filme, mas nao lembrava da musica. Eu disse que era o meu favorite brazilian singer que cantava no filme. Desde entao, Gizem fica cantarolando cucurucucu...pelos cantos da universidade. Teve um dia, acho que foi ainda na segunda semana,sentamos no sol, depois do almoco e ficamos ouvindo Paloma Negra e depois cucurucucu Paloma, enquanto os asiaticos e arabes passavam pelo campo verde, ainda sem neve naquela epoca. Mas nao sabiamos o que significava Paloma, e foi a Vale, uma graciosa menina do Uruguai que nos explicou. A Vale foi a minha primeira amizade aqui, no primeiro dia nos ja nos olhavamos e riamos, sabendo do que estavamos rindo sem precisar falar nada. A Vale tenta me explicar algumas coisas de fotografia, do curso que ela fez, apesar de estudar Contabilidade. Ela tirou otimas fotos minhas nessa viagem. Enfim, foi andando hoje na volta, pela Langley Road que eu pensei em todas as pessoas que eu tive aqui e me senti com o coracao apertadinho de deixa-los daqui alguns dias. Eu sei e digo, estou morrendo de saudade de voce, do sol e de tomar uma cerveja gelada vestindo camiseta, mas quando penso que provavelmente nunca mais verei aqueles rostinhos de olhinhos puxados me dando good morning no frio, e os arabes tentando me explicar como tudo acontece no mundo deles, enfim, sinto uma coisa. E uma coisa misturada de bom e de ruim, mas acho que e "mais bom" do que ruim, porque significa, de uma forma ou de outra, que tudo foi bom.
Falando nisso, eu estou devendo te contar de Nova Iorque. Pra isso, vou fazer uma carta so.
Por agora e so, uma nostalgia antecipada qualquer, e uma felicidade. As pessoas sao muito boas comigo, Thiago, e eu quero ser muito boa com elas tambem.
Beijo enorme,

Isa.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Carta ao P. III

Hoje e domingo e eu me apresso em escrever.
Porque ontem o dia foi otimo aqui, mas hoje e domingo.
Ontem eu conheci Harvard, a universidade e seus arredores, a Harvard Square. Tive um bom dia com os amigos que fiz aqui, marcado por fotos muito coloridas de um dia lindo de sol e nao tao frio. Tudo bem terminado por uma noite em um Pub ja mais perto de casa, com cerveja americana, que achei muito amarga, e conversas. Algumas meninas querem aprender samba, e eu prometi ensinar, embora nao seja assim tao boa, eu gosto demais de sambar, e tudo que gosto eu me meto a fazer sem saber se e muito bom ou ruim, como escrever.
Entretanto hoje e domingo.
Domingo e dia de, em Barra Mansa, acordar e ler jornal, tomar cafe da manha completo em casa, com geleia. No Rio, ver voce e fazermos qualquer coisa pra matar a tarde, como eu gosto, de andar pela zona sul e tirar algumas fotos, comer algum doce gostoso que a sua irma fez de sobremesa no dia, ir a praia... Por isso acho que hoje, apesar de ontem ter sido realmente gostoso, eu acordei com uma saudade especial. E domingo,com acento, e eu tenho todo o direito de ter saudade, e minha licenca, com c, cedilha, poetica ou nao.
Ontem eu percebi que estava realmente feliz quando depois de uma gargalhada, eu olhei todas aquelas pessoas na mesa, eramos seis ontem, e vi que eu sou capaz de sentir falta delas, daqui ha um mes quando eu nao estiver mais aqui. Sou capaz de sentir saudade, porque hoje eu sinto saudade dai, e amanha poderei sentir daqui (e ainda bem), porque eu acho que eu sou mesmo assim, toda saudade.
Hoje eu devo ficar em casa, tenho a lot of homework pra fazer, minhas roupas pra aprender a mexer na maquina de lavar e secar, e qualquer coisa pra pensar, porque hoje e domingo, o dia livre pra sentir e pensar o que quiser, inclusive em saudade.

Um beijo bem grande.
Com amor,

Preta

Ps: sorry por nao esperar nem voce responder a ultima carta, mas e que hoje e domingo.


*Respostas : www.soemalacompanhado.blogspot.com

sábado, 7 de janeiro de 2012

Carta ao P. II

Querido,

Muita coisa aconteceu desde a minha ultima carta, mas eu continuo sobrevivendo, na verdade, amanha faz uma semana de sobrevivência, neste caso, passo a desconsiderar o que se chama de sobre-vivência, como algo em excesso, algo além, e passo a considerar que começo a vivência, em si e toda ela.
Sem querer te preocupar, te explico que no começo foi difícil, um pouco de solidão e uma leve agonia, nada que não passe e que depois que passa nos traga uma sensação de crescimento, como se algo tivesse sido rompido dentro de si. Como eu escrevi esta semana para a Aline, tratou-se de um tempo de extremo auto-conhecimento. Foi uma luta diária do eu contra o mim mesma. Acredito que o que esteja havendo por aqui não seja algo ligado apenas ao intelectual, mas há qualquer coisa de espirito, de amadurecimento, de vida nisso tudo. Sinto uma mudança interna, cultivo a esperança de que isso me deixara ( no futuro mesmo e com acento) mais paciente e tolerante, qualidades que muito me faltaram neste final de ano. A maré parece que começa a virar, não sinto mais tanto frio e sinto-me melhor no meu lugar no mundo hoje: em Boston. Entretanto, não posso esquecer de te contar que lá pela quarta me dei conta de que fazia dias que não abraçava. Isto me incomodou demais, nunca reparei quanto tempo eu havia ficado sem abraçar no Brasil e tentei me recordar, não conseguia, mas imagino mesmo que não chegue a ser um dia. De repente, algo que eu aparentemente fazia por osmose, pegou-me de jeito, eu comecei a ficar verdadeiramente incomodada com a falta de abraço, e comecei a só sentir aquilo, como uma dor, coceira ou qualquer coisa que você sente o tempo todo involuntariamente. Foi quando eu encontrei uma menina que eu havia conhecido no dia anterior, ela era do Uruguai e eu sabia que ela me entenderia se eu fizesse isso: quando ela se aproximou para dar dois beijinhos de bom dia, eu pá: tasquei-lhe um abraço.
Além do abraço, confesso um saudosismo gostoso quando você falou da, agora minha, cidade do Rio de Janeiro nesta época. Eu me lembro, a cidade neste período do ano exala esperança e é magico demais sentir isto de perto. Esses dias eu me peguei sentindo falta de vestir apenas chinelos, um short e camiseta e sentar em um bar, com apenas uma camada de roupa, tomar uma cerveja gelada e só.
Bom, preciso ir, o pessoal que conheci me espera na estação para um passeio por Harvard, mas isto já é assunto pra outra carta.

Sinto falta de você e do Rio,

Beijos com amor.

Preta.

Ps: sobre você neste ano, eu já disse, você possui muito preciosismo na cabeça para se deixar assim, ser engolido pela rotina. Você merece mais, foi por isso que eu me apaixonei.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Carta ao P.

Boston, 2 de janeiro de 2012.

Querido P,

Hoje atendi ao seu pedido e conselho e sai sozinha pelas ruas de Boston. Fui de óculos e sem me arrumar, cultivo a sensação de que os óculos me protegem e se você não esta tão arrumada, fica levemente invisível para observar.
Boston e linda, e digo com acento mesmo, embora de onde escrevo não consiga acentuar, mas acentuo de outra forma, repetindo: Boston e linda, mesmo sem acento no e. Ou talvez não seja, mas e tão diferente de tudo que já vi, que se não for bonita no inverno, torna-se para mim.
Não neva e a cor de Boston, assim, se eu a olhasse por inteira como um dia Chico Buarque ou José Costa olhou Budapeste, eu diria: Boston e marrom. Cor que não gosto, mas em Boston gosto porque há um céu muito azul que desacredita o frio.
Sobre o meu passeio, foi bom. O frio e novidade para mim, o que nem por isso me faz aprecia-lo. Entanto, acredito que depois de uma certa idade eu parei de me aborrecer com coisas pequenas e a considerar que tudo no mundo serve como experiência. Eu não sou tão velha, eu sei, tenho 21, mas a cabeça você sabe...por falar nisso, eu vi uns jovens no trem, acho engraçado como eles eram tão típicos jovens americanos com seus jeans, gírias, espinhas e jeito americano. Alias, eu diria que me sinto mesmo em um filme, nada do que vemos por ai e caricato, existe. Tudo aqui e muito tipicamente americano. As casas, os bairros, os jeitos. E interessante de ver.

Vou encerrando por aqui com desculpas pela falta de acento, quero dizer que isso não diminui em nada a graça da vida.

Um beijo com saudade de quem voltara a escrever.

Preta.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Compaixão

Eu já acordei cansada, mas saí cedo. No vagão, eu sempre escolho alguém pra observar e imaginar sua história, mil perdões, cada um com suas manias. Enfim, no vagão eu sempre escolho alguém mas eu não tive muita escolha, tinha uma mulher gorda na minha frente que me chamava a atenção. Não era nem tão gorda assim, nem tão feia, mas estranha, com qualquer urgência na cara. Eu sei que fiquei olhando muito seus traços, porque os olhos pareciam inchados, e imaginei então quando acordasse, fosse eu o marido - ela tinha aliança - e eu levava um susto, coitada. Eu tive pena, tenho muita pena em meu coração, juro. Sou uma pessoa muito dotada de compaixão, por tudo e por todos, chego a ter vontade de chorar. Olhei os seus cabelos crespos desde a raiz, a gordura, os olhos esbugalhados, empapuçados, que percebi não ser inchaço. Pensei se tinha conserto, tomei pelo coração, peguei compaixão na figura. Deixei que ela saltasse na Carioca.
Voltando eu já estava cansada. 12h fora de casa, sexta-feira tem trânsito demais. Eu sentada sozinha com fones e roendo as unhas. Entra a mulher que senta ao meu lado: A gorda da manhã. Eu levei um susto, fiquei algum tempo olhando pra ela. É muita coincidência pra uma Capital. Eu fui indiscreta, fiquei olhando muito de perto, como quem investiga. E começou a tocar uma música do Caetano que me aperta o coração. A música não diz nada de triste, mas sempre me fez pra choro desde a primeira vez que ouvi e senti dor. Começou a tocar, a mulher da manhã do meu lado. Eu sofri muito. Eu queria contar pra ela, lembrar e rir do nosso reencontro. Queria saber como havia sido o dia dela, contar do meu. Contar que eu havia perdido o celular e já havia achado, que havia brigado com meu namorado e já feito as pazes, que tinha me emocionado com um colega do trabalho, que a faculdade andava um saco. E a música não parava de tocar, eu fechava e abria os olhos, um dia ruim, ontem também, ela não me olhava. Eu sofri a música, eu sofri toda a superficialidade a distância e a frieza. Eu chorei todinha por dentro de tanta dor. Eu sofri a Capital do Rio de Janeiro. Eu sofri da Carioca a Cardeal Arcoverde. Sofri a mulher não me dar atenção, a morte do meu vizinho de lado em suícidio. Eu não consigo me lembrar dele e isso ainda me dói. Ainda sofrendo eu me levantei pra ir embora e quando olhei sem querer pro rosto da gorda ela me olhava e sorria pra mim. Ela me reconheceu. A gorda de manhã me reconheceu. Ela levantou a sobracelha e eu li qualquer coisa na sua cara de simpatia. Eu estava mais tranquila agora. Voltava a acreditar na capacidade de se aprofundar das pessoas. Mas eu não contei meu dia.

domingo, 6 de novembro de 2011

Planeta

Depois eu falei pra ela que não devia ser por conta do inferno astral, porque estávamos em novembro e eu fazia anos só em fevereiro. Naquela noite eu tava pra acreditar em astros, fazia parte do papo. Acho que era por conta da música. Começou a tocar Caetano. Na verdade começou com Chico, eu comecei. Eu disse que de uns anos pra cá, desde que eu havia me apaixonado pelo Caetano, acabei deixando o Chico "num fundo de armário, na porta restante milênios, milênios no ar" , ela riu. Eu tava tentando selar qualquer tipo de paz entre mim e o Chico, a música dele, voltar, renovar votos, essas coisas.
Acho que começou então por conta da música, eu não tinha bebido. Começou com Chico, então, Caetano, Mutantes, e eu tive que soltar a minha frase de efeito de sempre: Eu queria ser a Rita Lee nesse tempo. O que é uma bobeira porque eu, que tenho medo até de tomar ônibus à noite, ia lá mesmo tomar ácido naquele tempo?
Mas aí vem a melancolia de sempre. Uma coisa que eu sinto nessas épocas em que me fixo muito nas coisas dessa época. Os sessenta. 67, 68. Depois vem 70 e pronto. Daí pra frente minha cabeça ficou ruim de acompanhar. Mas eu sofro muito com isso. Sofro um sofrimento de verdade, de dor, de angústia, qualquer coisa no peito mesmo, que me abafa e traz vontade de choro. Um sofrer de querer viver naquela época, acho bobeira falar, meio clichê pra qualquer jovem descolado da minha idade, mas eu sofro, juro.
Eu, que estava ligada em astros naquela noite, e com a música, pensei que esse fenômeno da cultura hippie e cultural e etc, que houve, deve ocorrer em vários planetas de tempos em tempos, deve fazer parte da história-revolução-evolução de todos eles. Pensei em reza, disse pra ela que de tamanha angústia eu ia rezar naquela noite. Queria viver qualquer coisa dessas em outro planeta que fosse, em outra vida, carne, encarnação. Ia querer conhecer o Caetano de lá. Se fosse em outros tempos, eu sei que eu canto mal, mas podíamos nos conhecer por qualquer coisa e aí iria haver tanto cabelo trançado, tanta perna, coisa toda. Vou aguardar outra vida.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Memória

Eu permaneci na tentativa de decorar.
Eu permaneci na tentativa de decorar.
Estou decorando. De cor. De coração. Decoração.

A casa está indo embora junto com quem foi. Eu permaneci tentando buscar e tentando registrar a posição de tudo, o cheiro, o tempo que fazia naquela última tarde. A posição, os quadros.Eu carreguei um quadro. Eu lembrei que antes, ainda quando menina eu gostava de entrar pelo portão lateral: havia uma chave escondida, que todos sabiam que havia, ao alcance das mãos. Meu crescimento foi medido, para mim, à medida que eu conseguia ou não alcançar a chave escondida do portão que dava no corredor. Ontem na memória vi que em seguida do corredor ficava um cercado do antigo cão, foi desfeito, mas eu tinha medo e desejo de passar por ali. Seguiam as plantas e esse corredor parecia maior quando eu seguia na barra da saia da preta que cuidava da casa, todas as manhãs, na lavagem da ardósia. Dentro de casa eu lembrei da minha mania de achar que me perdia por tantas portas e corredores que se encontravam em voltas e voltas, eu gostava de dar voltas. Tinha o canto da máquina de costura, onde eu sempre ficava nos pés da Nina, minha avó, catando pedaço de linha e qualquer coisa que caísse e ia servir pra montar meu mundo. Depois vinha a sala de dentro e a sala de fora. As janelas. Eu, morando em apartamento, achava uma coisa linda ficar em uma janela de casa mesmo, que dava pra rua, pra ver gente, janela de madeira, que abre e fecha em folhas e tem vidros em quadrados.
Hoje a casa ficou pequena, eu fiquei grande, alcanço a luz da sala de estar e dou muita conta de pegar a chave escondida do portãozinho de fora do corredor. Mas não há mais chave, nem vó, nem vô, nem porquê. Só há a minha tentativa em memorizar tudo e deixar aqui escrito, contando com a compreensão do leitor.Porque isso é só um registro pra que eu não perca o que eu vi por todos esses anos.

Embrulho

O sono conserva o seu estado de antes de dormir.
Acreditar que ao dormir tudo passa e se acordará melhor é uma crença falsa como crer em 13 virgens no paraíso após a morte.
O sono conserva o seu estado de antes de dormir. Por isso é preciso calar, refletir antes do sono,desfazer-se dos seus monstros e fantasmas internos e se aprofundar num sono de alma. Inteiro e leve. Ser inteiro e ser leve ao mesmo tempo é uma equação difícil. O que é inteiro pode ser entendido como algo completo e o que é completo, é o todo e nunca pode ser leve. Ser leve é ser pouco e flutuar, levitar. O sono poderia ser leve e inteiro.
Mas eu acordei mal, dormi mal, quis mal ontem.
Esta noite eu estive submersa em toda a tensão. Os dentes cerrados e tensos se encontravam e se comiam no meu bruxismo sem placa e sem fim. Qualquer coisa na cabeça deve ter havido, porque eu acordei como quem acorda de um balanço incessante. Uma cabeça pesada, sem consciência nenhuma. Qualquer coisa embrulhada. Acordei com um monstro dentro de mim, um vômito, um fantasma, um estorvo.
Acordei com qualquer coisa que preciso expelir de dentro de mim, porque o sono conserva seu estado de antes de dormir.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Impressões (de novo)

Eu vi uma mulher do cabelo abóbora.
Enquanto eu procurava sardinhas no rosto dela, embora ainda de longe visto que eu estava sentada,ela se equilibrava no vagão do metrô.
Eu vi uma mulher do cabelo abóbora e, enquanto eu procurava sardinhas no rosto dela, ela olhava vidrada a tela do telemóvel.

Eu vi uma mulher do cabelo abóbora e, enquanto eu procurava sardinhas no rosto dela, ela sorriu para o telemóvel.

Aposto que isso é coisa de quem tem amor.

domingo, 16 de outubro de 2011

saudade só.

Querido P.

Acordei com a coluna do Caetano no jornal O Globo falando sobre o novo filme do Almodóvar. O caso Espanha-Brasil e as músicas brasileiras sempre tão bem habitadas nos filmes de Pedro, sua relação com o Brasil, e um etc que não me importa. O fato é que não sei se por isso ou se por fazer um sol tremendo por aqui, mas acordei com uma saudade danada de uma Espanha que nem sabe o que significa a palavra - aposto que só a palavra - saudade. Acordei com uma falta de querer ouvi-los falar "Me encanta. Muito me encanta." em um espanhol carregadíssimo. É uma coisa linda de ouvir. Uma saudade só dos terraços cor de laranja de Madri e das ruelas de Barcelona. Decidi que quero te levar a Espanha, P.

Um beijo, saudade.

Preta.

Dia de estufa

O dia acordou quente em Copacabana. Quente sem sol. Nublado, abafado. Um dia que o dia tá de mau humor em plena sexta, um dia que o dia tá de saco cheio.
O dia acordou abafado em Copacabana, de um jeito denso que, logo cedo, parecia que enquanto eu andava, as nuvens estavam cá pertinho da minha cabeça, me sufocando sem dó. Dia insuportável. Na chegada a Central do Brasil eu vi muita gente desembarcando. Três escadas rolantes cheinhas e mais uma porção esperando pra subir o degrau. Na volta eu vi muita gente embarcando, toda aquela gente toda de mais cedo. Gente me sufoca como nuvem em dia denso.
Só me deu vontade de escrever porque eu pensei nesse verso quando parei pra pensar o dia: O dia acordou quente em Copacabana.
Hoje eu cheguei a Barra Mansa. Aqui também tá quente. Eu gosto daqui, mas tenho achado muito feio, como não percebia antes. Desculpa.
No meu quarto aqui, eu vejo uma porção de frases que escrevi um dia na parede. Ali vejo um pouco do que fui: alguém com mais versos do que falar sobre o tempo. Falava de poesia que desaba por dentro, falava de que não seria nada, falava qualquer coisa de sonho, de verso, de gente. Hoje falo de tempo.
E falar do tempo é falta de assunto.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

(...)achei que ficava bonito passar a falar que as coisas me encantavam em vez de dizer que simplesmente gostava delas.

Eu conheci Elisa em uma viagem de excursão que fazia pra Stonehenge e Bath em uma estadia a trabalho em Londres. O ônibus saiu bem cedo e a mulher que se sentou ao meu lado não parava de falar em um espanhol carregado competindo com o inglês insistente da guia de turismo,a Rose. Rose gostava de distribuir auto-guias, uma espécie de walk-talk ou celular que devíamos seguir pendurados na gente pra ouvir as informações do lugar. Rose também tinha o costume de andar com uma sombrinha cor de rosa levantada pra que não a perdêssemos no meio das outras excursões. Eu queria me perder de Rose e a companhia da mulher do lado com seu espanhol carregado não me faria mal. Ela se apresentou como Elisa e eu já havia me encantado por ela antes de ela dizer que era cineasta-em-início-de-carreira-só-com-alguns-curtas. Elisa tinha o hábito que eu não sei se vai pro resto da Espanha de falar "me encanta" pra tudo que gostava. Não sei qual a tradução da expressão, só sei que levando pro português, achei que ficava bonito passar a falar que as coisas me encantavam em vez de dizer que simplesmente gostava delas. Eu conheci Elisa em uma excursão que saía cedo do centro de Londres e que havia sido conseguida pra mim pelo homem de barba do hotel. Elisa então passou a ser uma boa companhia no passeio daquele meu dia de folga em Londres, ela também estava sozinha e parecia querer falar tudo o que havia guardado na sua viagem em solidão. Eu tentava ocupar minha boca acendendo cigarros, nos lugares em que eram permitidos, pra tentar disfarçar, como se eu não falasse porque estava tragando, mas tenho certeza que minha quietude não incomodava Elisa, na verdade, eu disfarçava de mim pra mim. Na volta, já estava tarde e chovia frio, foi então que Elisa me convidou pra tomar alguma coisa no bar do seu hotel e eu acabei passando a noite lá.
Desde então minha viagem virou a viagem de Elisa. Eu fui tomado por querer ser, por aquele jeito dela que me evitava a fadiga de planejar coisas e tomar decisões. Elisa era por toda resolvida e parecia ter certeza de tudo no mundo, podendo tomar todas as providências necessárias em todas as ocasiões.
Em Paris, em uma tarde no D'Orsay, Elisa chegou a me dizer que eu tinha os olhos das telas de Renoir. Um olhar marcado, mas distante, meio perdido ou coisa assim. O engraçado, e que eu não contei pra Elisa, é que em minhas aulas na Faculdade de Belas Artes, eu sempre havia me perguntado pra onde é que olhavam as mulheres de Renoir. Eu não contei, porque ela não entenderia, ela não gostava de subjetividades, gostava de certezas, Elisa era toda certa.
Depois de um mês de uma viagem que não era a minha, Elisa me disse que tinha acabado seu dinheiro e seu tempo e que voltaria pra Madri dali há dois dias para rever seu noivo.Confesso que levei um pouco de susto no momento, mas depois da partida de Elisa e mais 3 dias sobrevivendo com algumas garrafas de Gin, eu voltei pro Rio.
Eu nunca mais soube ou lembrei de Elisa, a não ser hoje, quando ouvi uma adolescente morena soprar esse nome no metrô: Elisa.

domingo, 7 de agosto de 2011

Peixe pássaro

Um dia fui parar em uma casa em que havia uma piscina verde.
Esta piscina possuia um teto solar, um vidro em um teto muito lá pra cima. O lugar tinha um pé direito muito alto e enquadrava o céu no vidro como um quadro minimalista.
Um dia eu fui parar nessa casa como hóspede, e comecei a cultivar um prazer quase místico em nadar à noite na piscina verde.
Eu sempre preferi praia, mas aquela piscina possuia qualquer coisa que atrai os olhos.
Foi uma vez que nadando à noite eu sem querer olhei pro teto e vi o que se formava. Meu corpo magro e limpo nadando naquela piscina verde de ladrilhos bem colocados formavam uma cena linda. Eu boiava de barriga pra cima, balançava os braços como um polvo, nadava e me mexia de um lado pra outro. Eu era narcisista naquela piscina. Eu gostava de tomar um impulso e ver meu corpo se largando na água, solto. Eu era um pássaro, eu me via no céu. Eu estava ali, refletida no céu, e voava. Foi uma das cenas mais lindas que já vi acontecer. O meu corpo parecia mais magro depois de toda aquela viagem que terminou como hóspede daquela casa da piscina verde, minhas costelas saltavam, e eu achava tudo isso verdadeiramente bonito. Eu estava no céu.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

tormento

Porque eu via de novo aquele casal eu deveria escrever sobre ele.
De novo os dois. Quando eu os vi pela primeira vez, ela linda com um sotaque nordestino quente chamando ele de alguma dessas frutas exóticas. Ele muito bem portado como macho, forte sem ser forte, forte no jeito e no olhar e nas mãos. Eu gostei deles de um jeito que parecia que eu já os tinha visto, em algum lugar de mim, de imaginação, de personagem. Eu quis escrevê-los, mas desisti por não querer só citar a cena do elevador. Os dois muito quentes em um julho de copacabana com vento. Os dois tinham uma energia sexual muito forte pra caber dentro daquele elevador comigo, e isso chegava a me incomodar. Incomodava de um jeito que eu precisava escrever sobre o tom do sotaque dela quando abria uma boca muito grande e bem formada pra chamá-lo de uma fruta bonita do nordeste que já nem me lembro, e também sobre o jeito forte dele, eu já disse, das mãos. Mas eu desisti de escrevê-los, tão bonitos que eram, deviam ser desenhados, não escritos. Até que eu os vi de novo, com mais um. Falavam de teatro, atriz, de certo eram artistas. Abaixando os olhos, ouvia a conversa mais confortável com a minha roupa mais informal dessa vez. Queria lhes contar que eu também queria ser artista e que eu também era bonita com meu par no elevador, embora não tivesse sotaque.

sábado, 9 de julho de 2011

No momento em que você foi embora, dessa vez, fui eu que te olhei da janela. Foi quando você foi. No momento em que eu me dei conta e não vi mais jeito de te absorver, eu fui pra janela e te vi indo. Eu vi também o último cigarro que você acendeu antes de ir,ainda se apagando com o vento que ventava forte naquela tarde em Copacabana. Foi nele que eu grudei, foi com ele que eu achei que ia te absorver de novo. Foi ele que espremi em minha mão com toda força e depois soltei. Cheirei minhas mãos pra lembrar do cheiro das suas, de cigarro. Senti você bem perto, embora eu te visse cruzar a Nossa Senhora com uma blusa amarela do dia do primeiro beijo.
Não escondo que chorei naquela janela, enquanto espremia o cigarro ainda morno nas mãos.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Às vezes me dá uma saudade de mim.
Um mim que eu não sei mais onde mora, ou que se esqueceu.
Uma saudade qualquer que dá quando a gente vê alguém que parece com o que pensei que a gente fosse ser quando crescer.
Eu cresci, e tô com uma saudade de mim.
Saudade de quem era um pouco da gente, de quem foi embora sem ir, de quem prometeu ficar pra sempre.
Saudade de uns amigos que...saudade!
De qualquer coisa-símbolo-isabela eu tenho saudade.Qualquer coisa que tenha a minha cara, de qualquer cara,
de ter uma cara.
Por vezes tenho o estranhamento comigo, não sei quem é que agora mora aqui.
Queria uma volta qualquer de mim.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O que tenho pra mim é que as pontas dos dedos da minha avó, em sua palma, já tinham a forma dos meus, na medida em que eu gostava de pressioná-los.

Ela não tinha muito o que ver com minha avó.
Tinha os dedos a fazer lembrar.
Sentada ao meu lado no ônibus de ida, ela ligeira não demorou em preguiça de chochilo ou essas coisas, tirou de uma sacola retalhos de pano.
Retalhos que não por assim serem eram de qualquer medida. Na verdade, eram cortados em rodelas como quem vai fazer fuxico, mas dali saiam outras coisas que não sei bem pra quê.
Eu sei que ela tinhas aqueles dedos.Na verdade não os dedos, porque os dedos da minha vó, tenho pra mim que não acho mais. Eram dedos que lembro bem a forma como se encaixavam ao se encostarem nos meus. Eu lembro muito bem dos dedos das mãos da minha vó para descrevê-los. Nasciam grossos da palma e assim vinham até que na ponta se formavam de um jeito quadrado, como que um calo, um joanete, não sei. Mas o que me marca mesmo é a superfície das palmas dos dedos. Delícia. Às segundas que ficava com ela até mais tarde, me lembro dessa superfície lisa meio plástica apertando contra meus dedos. O que tenho pra mim é que as pontas dos dedos da minha avó, em sua palma, já tinham a forma dos meus, na medida em que eu gostava de pressioná-los.
Mas voltando à mulher do ônibus de ida, não eram os dedos, mas a forma de passá-los no tecido. Ela tinha um cuidado medicinal na forma com que dobrava as rodelas, alisava a meia lua formada e passava a linha.
Eu não sei quem era aquela mulher, ela não parecia a minha avó, eu não sei se os dedos pareciam, também não sei da forma de passar. Talvez nem tivessem tecidos, ou dedos, ou jeito, ou mulher no ônibus de ida.
Eu é que estou com saudade dos dedos, da vó, do beijo que a vó mandava com um dedo só.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Idealizar é imaginar como será lembrar de um momento que ainda não vivi.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Ponha uma margarida na sua fossa.

Sinto que preciso de uma alegria independente.Independente de qualquer coisa.
Sinto, mas não que eu seja privilegiada em dever ter.Acredito que qualquer pessoa deveria carregar em si uma alegria que não seja difícil e que não precise ser clandestina por vezes.
Sinto, porque preciso de uma alegria independente.Independente de qualquer coisa.

sábado, 16 de abril de 2011

De bem

Acordei achando que estou na hora de voltar.
Voltar a qualquer coisa que sinto vir do meu corpo.
Um jeito meio bailarina, meio flor, meio leve.
Acordei achando que estou na hora de voltar pra um lugar de mim,
uma calma qualquer, uma menina de antes.
Quero uma respiração leve e tranqüila, um jeito de andar quieto de quem dança,
uma vida meio primavera.
Acordei achando que estou na hora de voltar pra mim.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Dos delitos e das penas

Esta noite sonhei que estava nadando em uma piscina de palavras.
Na água, havia uma correnteza muito forte de certas palavras e outras que passavam leve, a lamber meu corpo feito um gato que se lambe como banho.
Além de me puxarem, as palavras ecoavam misturadas todas na minha cabeça, feito um brainstorming, feito um burburinho no vagão das seis.
E depois de tanto me aloprar em um desatino completo que me deixava tonta enquanto nadava, fui como que criando membranas, fui virando um peixe em plena piscina.
De repente, quando já me habituava à minha nova condição, o ralo sugou toda a água, e as palavras, e os sons, e eu morri afogada de ar, a palo seco.

terça-feira, 29 de março de 2011

Sou como o cego de nascença: vivo um mundo inventado.

sábado, 19 de março de 2011

realidade

Sinto o fio da vida muito latente enquanto observo a morte gradual dos meus avós.
No começo,a presença do fim se mostrava quieta em detalhes de debilidade, de esquecimentos e de dificuldades antes não observadas.
Hoje observo a chegada do fim dando passos largos, o que me aflige, assusta e deprime em relação à vida. A progressão, ou regressão, que conduz ao último instante é triste para quem convive.
Hoje pedi ao meu avô se poderia apertá-lo muito e apertei. Sigo assim tentando segura-los um pouco mais ou imaginando sempre que o instante presente pode ser o último.
Nesse contexto não tenho reconhecido determinados atos meus de impaciência e irritação em relação a tudo no mundo. Chego a me estranhar em meu próprio corpo por ímpetos de mau humor e de grosseria não tão normais. Não tenho a tentativa de justificar nada, apenas me vejo muito desequilibrada e desacreditada com 20 e poucos anos.Sigo com uma responsabilidade de sempre ter demonstrado ser uma pessoa equilibrada e alegre que agora está do avesso. Sei que a vida pode ser bem mais leve para uma garota que mora na melhor cidade da América do Sul, e eu espero reconhecer.

terça-feira, 15 de março de 2011

Rush

Tudo parece perdido e é quando redescubro uma magia em mim, que vem da vontade de olhar muitas caras diferentes atravessando a rua ao mesmo tempo, e pra isso cantar uma música, e assim fazer um filme.
A graça ainda vem de achar graça de que no meio de tudo isso,
ninguém me notará sorrir.

As cidades invisíveis

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço"

(Italo Calvino)

sexta-feira, 11 de março de 2011

Comeerj

Você não vai entender se esse ano não houver samba.
Você ficará perdida sem uma sandália de prata arrastando pelo cimento duro.
Você não vai entender que existe um samba maior que mora em mim, e ele fica mudo ou se transforma quando o mundo parece sambar.
Esse ano eu estive feliz no carnaval. Teve confete, serpentina, sorriso. Teve Karol, Jaisah, Aline, e esse ano teve até Luisa e Andréa, o Thiago até esteve folião.
Mas eu estive mais calada, mais contida que de costume na data.
Meu coração esteve longe e você não vai entender e eu não espero que você entenda.
Há uma questão de sentir pra entender, e pra sentir, só indo. Eu não fui e senti, senti muito.
Meu coração esteve na COMEERJ.
Um dia se eu fosse perguntada onde está Deus, eu diria que ele está ali depois da linha de trem em Barra Mansa, na Eduardo Junqueira,aos sábados.Mas eu também diria que no Carnaval, ele se divide em vários "pólos".

quarta-feira, 2 de março de 2011

À medida que envelheço, saio do antigo mundo das ideologias e utopias e entro em um ciclo de ilusões perdidas.
Os desejos passam a ser frustrados e me deparo com minha incapacidade natural (só percebida depois dos vinte).
Começo a notar a verdadeira realidade e me confesso assustada com o quanto é difícil atingir, não só a felicidade, como o estado de coração tranquilo.
Envelhecendo, percebo que a felicidade não existe e que a alegria sim existe, sendo a felicidade em pequenas difíceis doses.
Encontro a vida como sendo uma tragetória que devo seguir enquanto existo, mas que é permeada de pequenos e grandes problemas.
Pode ser que esse seja um momento de amadurecimento que me leve a qualquer coisa melhor, mas também pode ser o momento em que descubro a realidade da vida e que sim, ela não passe de tudo isso só.
Aí então, é quando alimento um medo de endurecer ao envelhecer.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Porque estavam nus, e havia tanta beleza em assim estarem que eu também não via razão deles se cobrirem.
Havia uma magreza certa nos corpos, como se aqueles fossem os retratos exatos da primeira anatomia humana. E de repente eu via Adão e Eva e nenhum pecado, pois que não via coisa nenhuma de sexualidade comum no local.
Estavam nus porque assim viviam e assim havia de ser bonito. E estavam bonitos porque estavam nus, como se a sensualidade ficasse velada em alguma coisa desconhecida pelos que se cobrem na tentativa de despertar o outro ao se descobrir.
Estavam nus porque viam que havia alguma outra forma de seduzir além do corpo. Corpo esse tão cru, tão sem vida se for dado só como corpo.
Porque estavam nus, e havia tanta beleza em assim estarem que eu também não via razão deles se cobrirem.

Quanto a nós, precisamos nos des(cobrir), meu bem.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Angústia

É muito difícil chorar em público.
Não é difícil chorar em público depois das nove na Central do Brasil.
Depois das nove na Central do Brasil as pessoas não se olham.
Ninguém ouve meu choro aqui em Copacabana.
Desde que me mudei para o Rio de Janeiro, peguei o hábito de chorar em público. Não é difícil.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

De quem morre

Ainda posso me lembrar daquele rosto e daquele jeito.
Havia alguma coisa naquele corpo que retardava o pensamento de quem pudesse enxergar. Eu poderia bem dizer que era o cabelo que diferia dos demais do lugar, mas acho que isso seria egoísmo demais com a figura, resumi-la em um gesto de cabelo.
Quando a conheci, ainda nova já era velha. Tinha uma maturidade por si, o que me faz crer que ela já tenha nascido com esse algo e não que tenha adquirido de qualquer gente do lugar, porque de fato ela era diferente.
Posso me lembrar daquele rosto jovem e da presença de como não sabia que era bela.Do jeito que se vendia pelos cantos meio alienada, não sabia que se vendia, embora buscasse por dinheiro. Eu a vi muitos anos depois no saguão de um lugar público e a reconheci. Ela já havia morrido nesse tempo, tinha cara de morta, mas eu ainda a achava linda, na verdade a achava ainda mais linda porque agora aquele rosto e aquele corpo estavam cravados de histórias. Eu pude ver em cada gesto uma mudança da vida naquele jeito.Eu pude ver uma porção de histórias escorrendo pelos olhos e depois envolvendo a boca longe de sorrir. Ela parecia ter morrido antes do fim, mas ainda era bela, ainda mais bela.
Hoje, por me lembrar dela, levantei ainda com dificuldade e achei sua foto nos guardados. Acho que ela poderia ficar tranqüila agora, pois a coloquei pra dormir entre os meus poemas.É pra eles poderem conversar à noite, enquanto eu morro.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

E nesses dias de verão em que brigo com você à noite (ainda que de longe), acordo errada.
Acordo errada e desejando uma casa com você,onde toque Caetano aos domingos de manhã.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sobre o ano que chega:

Adoro essa possibilidade de organizar minha esperança cronologicamente, como se fosse possível acordar em uma dia e tudo estar diferente. Não me importo, eu acredito.

Desejo pra mim e pra você um ano mágico.
É que acho que todos nós estamos precisando de magia nessa vida...
Viva!

domingo, 26 de dezembro de 2010

a Lapa do homem de Marília.

Eu era um homem recém feito quando Marília me tomou pela mão e foi me mostrar a Lapa. Menino meio abobado que era, me via nos braços de uma mulher pela primeira vez, e eu ainda me via meio zonzo sem entender coisa com gesto.
Entendi a vida quando Marília meio de brincadeira me colocou dependurado no bonde de Santa Teresa.E eu daquele jeito de menino tonto, que vinha do interior.
Entendi a vida quando o bonde passou por de cima da Lapa.
Vi as casas e dentro delas : as pretas, os peitos, as crianças, as cores. Entendi gente.
Dava pra sentir o cheiro do perfume da mulher na janela da criança que deixava por escorrer um catarro do nariz ali embaixo da marquise pra quem quer deitar.
Ouvi cada chiado de rádio dentro da janela do homem que fumava lentamente enquanto suavam as bicas dos seus poros muito dilatados.Mas pude ouvir o arranhar dos saltos de quem andava na calçada lá embaixo e o tilintar de qualquer coisa feito chave ou feito moeda no bolso do rapaz trabalhador. Senti cheiro de sexo e cheiro de pudor.
Foi ali que vi a vida pela primeira vez , crua.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010




Por vezes fico possuída de uma tristeza.
Uma tristeza que seria quase bonita, se tristeza não fosse.
Entender o mundo me dói.
Me sinto abatida por essa tristeza quando, não sei de que modo,
essa tristeza de mundo me toma.
Entendo a existência até as vísceras e isso me complica. Percebo a gente que vive e a gente que existe, percebo e sinto e quase choro.
Quando sinto a vida, e quando entendo a vida, sinto uma dor todinha por dentro.
Viver dói.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

profissão poetIsa

O que eu gosto é de ordenar as palavras (que moram soltas entre as nuvens)
em versos que fazem sorriso e pensamento.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Eu ainda não sei.
Talvez eu devesse estar mais disposta, mais ativa, com mais vontade, com mais vontade boa e do coração.
Acho que eu deveria estar buscando qualquer coisa que se busca.Qualquer coisa que vejo todo o mundo buscar.Qualquer coisa que se fala que se deve buscar.
Eu deveria estar mais encantada e querendo mais. Eu deveria parar de falar e mais, eu deveria parar de escrever tanto que deveria.
Deveria atuar de uma vez.Atuar no sentido mais amplo de qualquer ação que não seja a de pensar e desenhar esses pensamentos em palavras.
Mas eu poderia dizer que estou cansada, que estou...
Mas não há nada.
Eu apenas estou esperando. Não sei o que espero e talvez eu espere apenas saber o que espero de tudo isso.Estou parada e pregada, sempre imersa em mil pensamentos que nem sempre fazem sentido, e que na maioria das vezes não faz.Estou aqui e escrevo coisas que não vão mudar nada, que não vão atuar no mundo inteiro e nem no meu e nem no de ninguém. Estou aqui inutilmente e escrevo sem saber a razão.Eu ainda não sei.Espero que não haja mal em não se saber ser.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Eu era um homem casado, sério e funcionário público quando conheci Dora.
Sempre que entro em uma crise profunda, vejo que dou pra entrar em lugares sem sentido, o que me constrange muito quando me vejo em alguma loja que não sei como entrei e, enfim, um vendedor vem me atender,e eu sempre tenho que inventar coisa.
Foi em uma dessas crises que conheci Dora.
Dora mora, não sei desde quando, perto da minha casa aqui no Rio de Janeiro, e eu estava voltando do trabalho quando a vi.
Desde que vi aquela mulher de olhos meio marejados de quem está sempre esperando, cabelos meio desalinhados e um rosto que não tem porquê,comecei a desviar a minha crise para aquele pingente de coração que ela carregava.
No trabalho, pegava-me com os olhos em uma loja longe em Copacabana, onde via Dora.Ninguém questionava minha distração momentânea que já era habitual.
Em casa, a mulher deu pra falar que não agüenta mais essa minha mania de dar crise de identidade e sair do mundo.Ameaçou separação, levar os filhos, voltar pra casa da mãe, e eu até ouvia mas,sinceramente, não conseguia reagir.Um dia cheguei em casa e não tinha mais ninguém.Talvez fosse a hora de trazer Dora pra junto de mim, pra ver se calava essa agonia de quem chega do trabalho de funcionário público.
Quando cheguei ao antiquário que havia conhecido Dora,ela não estava mais pendurada na parede.Ainda perguntei ao vendedor onde estava aquele quadro de pintura artística de uma mulher de olhos meio marejados de quem está sempre esperando, cabelos meio desalinhados e um rosto que não tem porquê, aquele quadro que fica perto do móvel provençal...
Vendido.
Eu deveria ter levado antes,mostrado à mulher, às crianças...
Mas como um homem casado, sério e funcionário público poderia levar Dora, uma pintura artística pela qual tinha se apaixonado pra casa?
Desde então vivo só.

domingo, 21 de novembro de 2010

Impressões

Eu vi uma mulher trocadora de ônibus com cara de que sorria pra sempre,
ainda mais quando dizia “Guanabara” de si para ela mesma.

Eu vi um homem no elevador que tinha cara de máquina,
ele parecia ter memória de tudo no mundo.

Eu vi uma mulher no vagão. Tão bonita, tão bonita e tão preta, que me deu vontade de ser preta também, que é pra poder me lamber e ver se tenho gosto, nas noites de solidão.

sábado, 20 de novembro de 2010

Um filme

E num futuro,eu poderei dizer que nos amávamos.E nos amávamos muito, com sede de orgasmos e saliva.

domingo, 7 de novembro de 2010

Já faz um ano.Não, faz mais de um.
Há um ano achei que minha vida começaria.De fato, começou, mas não como eu imaginava. Sustentada por alguma razão mais sólida que me levava a sair de casa pela segunda vez, achei que finalmente usaria dessa razão para buscar a outra:aquela pela qual sempre vivi e a única paixão que já senti no fazer da vida.Quando cheguei ao Rio de Janeiro, percebi.Não percebi, mas achei, me achei
velha demais, desabida demais para.O sonho acabou.Hoje não tenho mais paixão de fazer na vida,mas ainda procuro por.
Vivo de uma frustração de quem não sabe com o que se frustrar na vida,que tomou outro rumo, em uma vida sem rumo.Busco por um.

sábado, 6 de novembro de 2010

Meus planos

Virarei de leve meu rosto, de modo que eu fique ligeiramente de perfil para seus olhos, meu lado direito. Darei então um sorriso que mostre apenas a parte superior dos dentes e então olharei pra baixo, como que sem graça, e depois pra você, com um sorriso um pouco maior, torcendo assim o pescoço, como quem fica sem jeito. Tocará Dream a little Dream of me, e eu estarei com um vestido branco que faz roda depois da cintura e um coque na cabeça.
Desde já peço perdão por cada gesto meu meticulosamente calculado para atingir em cheio qualquer parte do seu cérebro nas imediações do amor.Trate isso como uma pequena travessura de uma menina que de tanto sonhar, gosta de nuvens.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

E no meio de tanta coisa que acontece, meu maior medo tem sido o de perder a inspiração.
Poderia,por isso,sentir latejando um egoísmo que,por assim chamar,seria todo meu.Mas não sinto.

domingo, 24 de outubro de 2010

Volto como quem busca sua essência. Volto para procurar uma menina.
Não sei bem o que quero, em todos os sentidos que compreende o querer.E talvez o que eu queira seja voltar ao útero.Encontrar-me nadando na posição fetal seria a melhor forma de me encontrar.Há qualquer confusão sobre paz e alegria em mim, como se, havendo paz, a alegria não se suportasse vívida.

No mais, essa semana quero comprar margaridas brancas para enfeitar meu apartamento.

Here comes the sun!

sábado, 2 de outubro de 2010

Às 03:00h

Alzhaimer é uma doença sem coração,
afeta o cérebro.
Que saudade dos meus avós,
que estão vivos e moram ao lado.

domingo, 26 de setembro de 2010

Às vezes dá doença do coração.
Doença de peito apertado, ou doença de amor não é tanta besteira como se diz.
Eu também já achei, em outro tempo, que era doença que dava em cabeça vazia, em gente abobada e de coração fraco.Mas hoje não.Doença de peito apertado vem que deixa a gente sem prumo.O estômago ouve o coração e fica sem fome.A gente fica meio tonta como se tivesse levado um sacode.O corpo fica meio molenga e com vontade de nada.O olho vai pra longe e a gente sente o coração bem fraquinho.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

E depois daquela briga, eu o vi na minha cozinha.
Vi duas crianças e vi que chegavam amigos, apesar de ser um dia comum,
em nossa casa que era arejada e entrava sol.
E depois daquela briga, eu vi que eu nos imaginava em um pra sempre.
Não sei se nosso pra sempre será de 8 meses, 2 anos, 7 anos ou 54,
mas foi bom vê-lo ali, progetado no pra sempre que criei pra mim.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Acredito na declaração como a materialização do sentimento.
Quem se declara, é porque chega a um ponto em que o sentimento começa a incomodar, pois chega a não caber mais tanto amor nem no cantinho no dedinho mindinho do pé.Quando o amor começa a afogar, é então que há de se declarar:
-amo você.

quem não se declara, não tem tanto amor assim pra se afogar.

sábado, 18 de setembro de 2010

memória

Há qualquer coisa que acontece a quem se perde.Sinto que caminho para um esconderijo em mim, sinto que perco qualquer coisa do corpo, qualquer coisa que se nota falta e que não é um fio de cabelo.Poderia ser um dedo, mas também acho que seja pouco.Caminho para uma mutilação e luto.Luto vítima de uma alegria difícil.Há qualquer coisa que acontece a quem se perde e eu perco.Não sei quando se deu,mas me encontro na esteira da mutilação que se aproxima.Eu me vejo indo aos poucos e isso tem doído fundo.É que se eu simplesmente não enfrentasse a fila para ser mutilada, e se perdesse assim, um braço,por acidente,em um de repente,acho mesmo que seria mais fácil de lidar.Mas vejo meu caminho.Escondo-me em mim como um bicho,como um mimetismo covarde.Mas luto.Tenho lutado, mas minha luta parece ser filha de uma alegria falsa.Estou emprenhada, estou grávida de uma tristeza e não quero que minha alegria vire lembrança.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010




E quando o mundo parece insistir em se mostrar nublado para mim,
umas lágrimas escorrem em silêncio
e moon river vem como me dá um beijo:
sou romântica.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

sábado amarelo

-Que dia é hoje?
-...
-Não! Não olha no celular, não. Hoje é de 68.hoje é... dia 20 de fevereiro! 20 de fevereiro de 1968, bota aí.

(...)

E dia 20 de fevereiro de 1968, em pleno 2010,
ela me disse que estava dando pra perceber, no ultimamente, que todas as pessoas que ela gostava, elas as via vermelhas.Que ela me via vermelha.Mas eu sou verde, vejo-me verde:

-Essa coisa de cor...É que todas as pessoas que eu gosto,tenho percebido:
eu as vejo vermelha.

-mas eu sou verde.

-ele, o moço,...ele também se disse verde...

-Então você é daltônica, meu bem.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Agosto

E desde então, todos os outros meses foram Agosto.
Quando ele a deixou e ela não sabia de todo sentimento que guardava em si,
quando ele a deixou, ela esperou por Agosto, quando ainda era Junho.
Ela passou a crer como quem passa a crer em Deus, que em Agosto, ele voltaria para ela.
Como quem entende, ela entendeu por assim querer entender, que ele a havia deixado por ela não morar ali ainda em Junho.Mas em Agosto, ela moraria, ele voltaria.
Agosto de quem chega, Agosto chegou.
Ela chegou, ele estava, eles não estavam.E já era Agosto.
E como quem crê em Deus, ela acreditava em Agosto, portanto, para ela,
desde então, todos os outros meses foram Agosto: o primeiro mês que ele voltará para ela, embora já estejamos em fevereiro.

domingo, 29 de agosto de 2010

Vivo de sentir saudade.
saudade da infância:
Vila Déa, colégio, pular elástico.
saudade de ontem:
risadas, bar.
Sinto saudade da Rural(muita),
de quem já se foi(saudade do bolinho de chuva da Vó Edith, das canções da Beta),
saudade de uma roda de violão na época de colégio,
saudade de uma paisagem de janela decorada,

saudade de um sonho
ou saudade de ter um sonho.

Vivo de sentir saudade, saudade de quando faz tempo
e saudade de quando escrevi esse primeiro verso.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Destino,Barra Mansa.

Rio, 24 de Agosto de 2010

Querido O,

Confesso que estou muito feliz por você estar feliz.Por você estar sendo correspondido por alguém de alma bonita, mas, principalmente, por você estar vendo o mundo colorido, que é o mais importante:
Isso é uma coisa de felicidade que é sua, só sua e só você consegue entender...
acho que chama amor.

Beijos de uma saudade louca,

Isa.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Displicência

Quando a vi se chamar por Teresa, parecia haver uma visão de coisa fora do mundo.
Quando a vi assim, de outono, como quem chega de cambaleio (coisa de quem se perde),
vi que precisava escrever.

É preciso escrever alguma coisa sobre pele.
Sobre qualquer coisa como uma displicência no jeito que gera uma beleza.
Eu não sei sobre esses dias que se dá na mulher
Essa coisa da fêmea de ficar meio tom pastel.
É preciso escrever alguma coisa sobre um jeito de andar meio lunático
Meio absorto em qualquer coisa que transcende, meio nuvem.
É preciso que se tenha uma beleza meio fora, meio ausente, meio
De quem se evapora
Estou vendo muita beleza nessa coisa toda de quem é.
Há de se escrever alguma coisa sobre displicência.

Teresa bonita, antes ligada, intensa, cheia de coisa com cor, alguma coisa a ver com sol e malemolência. De repente, Teresa meio pálida, meio displicente. Uma Teresa bonita, meio avulsa, meio volúvel, meio efêmera. Como se tivesse de pegar Teresa pela mão, se não pega, ela voa. Teresa pode me escapar toda, meio névoa.

Há de se ter essa beleza. Uma beleza de Teresa, uma beleza meio reticências, meio olhos no céu, meio displicente. Uma beleza meio erguida na melancolia. Qualquer coisa de triste.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Domingo

E então eu, uma menina de uma família de cinco, que tem três sendo homens viciados em futebol, reservei-me a missão de odiá-lo, visto que ele estava o tempo todo na família na casa na rua na chuva ou na fazenda.O futebol sempre foi o meu “barulho de domingo”.Eu associei, por muito tempo e talvez ainda, o domingo ao futebol, ou melhor, ao barulho, ao ruído, ao chiado insuportável de.
Apesar de tudo isso, sempre cultivei a vontade de ir ao maracanã. Eu falava que queria ver a energia, a muvuca, o tumulto, os gritos, as paixões tão solidificadas como parecia ser.
Foi então que como uma experiência antropológica, eu fui.
Além de achar bonito e emocionante, desde a entrada, até quando vai subindo pra arquibancada e se vê de fora aquela pontinha de um mundo de gramado, além de, há algo que preciso muito falar.
Estava eu no jogo, tentando entender o jogo pelas cores das camisas e tentando descobrir sozinha onde o time tinha que fazer gol, quando aconteceu.
O gol.
Eu não estava ali por um time, assim, de verdade...
Eu sempre falo que sou botafoguense para tentar suprir o trauma do meu pai em ter um filho flamenguista e outro tricolor. Mas a verdade é que eu nunca assumi um time, nunca amei um time, etc.
Eu estava na torcida (linda- desculpa, pai)do fluminense e, dessa forma, mesmo que eu não torcesse, eu tinha que fingir que.
Mas eu não fingi, eu torci (desculpa, pai).
Enfim, sem mais digressões: Eu tava ali no maraca, na torcida do Fluzão, vendo o jogo e saiu um gol.
Quando eu vi, eu tava gritando e comemorando. Acontece que eu senti.
Eu senti uma coisa muito delícia, não sei o que. Eu só sei que foi assim que eu entendi a paixão que as pessoas tem pelo futebol, pelo seu time, etc.É que a partir daquilo, eu passei o resto do jogo todo sofrendo e lutando muito pra sentir aquilo de novo.Eu só queria um gol, só isso.
Eu não sei por que eu queria um gol, não sei qual o fundamento filosófico ou social de um gol. Sei que um gol não vai diminuir a fome na África, nem vai ajudar na análise sobre os meninos de rua, nem vai fundar uma teoria sobre sobre sobre nada. Eu sei que eu não via função social no gol,nem nenhuma função de coisa nenhuma, mas eu o queria. Eu o desejava de uma forma mais intensa, como se tudo que eu quisesse naquele momento fosse só isso: um gol.
Era um desejo cru,e eu acabava achando isso muito bonito em mim.
A conclusão é que eu não sei se foi só uma experiência antropológica válida, se eu tô me rendendo ao futebol (droga, não quero!), ou se eu sei lá.
Eu só sei que ontem eu fui ao maracanã de novo, pra sentir de novo o que eu senti. E o flu fez três, e eu fiquei feliz.

sábado, 14 de agosto de 2010

Ana K.

Era uma vez uma menina que chamava Ana Karolina com K e por ser assim vivia de não gostar desse K desse nome que ganhou e que podia ser bonito com C: Carolina.
Apesar de ter esse mal de mágoa com o mundo, Ana Karolina não deixava de preencher meu coração com pequeninas alegrias em doses diárias.E como homeopatia, Ana K, foi me levando a um tratamento até que eu gostei dela por completo.
Hoje Ana K faz parte do meu pedaço no mundo.Hoje a batizei de Ana K.
Quem sabe ela gosta?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Mas hoje me permito sofrer por amor, mesmo sabendo que há fome na África.

Quando meus pés cruzaram a portaria foram os mesmos que desceram o elevador e abotoei o último botão esquecido da blusa na hora que cruzei a porta, batendo-a devagar pra não acordar ninguém do apartamento que eu saí me despedindo com os olhos da telelista que fica em cima do guarda roupa e do livro TRO PI CÁ LIA que está em cima dos seus vinis.Porque foi antes do meus pés cruzarem a portaria que eu comecei a sentir a dor.
Foi quando ele começou a falar e não consegui mais me mexer.
Falência múltipla dos órgãos esclerose múltipla acelerada instantânea paralisia facial corporal.
Eu sabia que a dor era mental. Eu sabia que era psicológica.Cabeça. Cerebral.
Mas continuei ali,sentindo a dor. Eu queria sentir a dor como quem se pune. Opus dei de mim.Eu queria sentir toda a dor. Penitência física. Mortificação corporal.
De repente, o que era mental ficou tangível demais e eu já o sentia no meu corpo.
Ainda estava paralisada.
Eu não sabia onde doía. A dor produzida pela cabeça tinha sofrido metástase e eu não conseguia saber onde doía.Não tinha modo de estancar o sangue.Não tinha sangue. Era dor interna.E continuava paralisada.
Foi quando ele começou a falar que começou a dor e que não consegui mais me mexer.
Depois os olhos começaram a passear e eu comecei a decorar o apartamento, paralisada, para poder guardá-lo pra mim.
Eu decorei aquelas falhas na parede que tem ao lado da cama e também como o fio da luz vem do teto e chega ao interruptor por uma espécie de caixinha branca que deve ter por função social esconder fios.Eu decorei o apartamento e vi que no dia que comecei a sentir a dor, antes dos meus pés cruzarem a portaria, havia dois copos esquecidos sujos na mesa do computador.
Como quem se despede do apartamento.Como quem chora.
Eu não sei que dor é essa.Eu sei.

Eu sempre bati pé que problema na vida era morte ou doença.
Mas hoje me permito sofrer por amor, mesmo sabendo que há fome na África.
E dói.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Pão e renda

Quinco vivia de fazer pão.
Quinco acordava ainda de noite pra fazer pão.
Quinco não sabia que na vida poderia fazer outra coisa que não fazer pão que Quinco aprendeu de ofício com o avô que ensinou o pai e foi ensinado pelo bisavô e que foi ensinado pelo tataravô de Quinco.
Mas na vida, Quinco gostava de fazer pão.
Um dia, Quinco conheceu Julieta.
Julieta moça rendeira que de tanto fazer renda tinha os olhos bem miúdos pra modo de enxergar cada caminho que a agulha vinha de fazer dançar a linha no pano.
Julieta fazia renda a tarde inteira.
Julieta não sabia que poderia fazer outra coisa que não fazer renda que Julieta aprendeu com a avó que ensinou a mãe que não fez renda e por não fazer renda se perdeu no mundo como mulher que se perde mas que tinha sido ensinada pela bisavó que foi ensinada pela tataravó de Julieta.
Julieta, na vida, gostava de fazer renda.
Um dia, a avó de Julieta pediu a ela que parasse a renda, embora ainda fosse de tarde, pra modo de comprar pão pro café.
Julieta de olhos bem miúdos de tanto fazer renda, que gostava na vida, foi à padaria que trabalha Quinco, embora não fosse tão manhã que fosse noite.Era de tarde.
E Quinco conheceu Julieta
E Julieta conheceu Quinco.
E depois desse dia,
Quinco que vivia de fazer pão, passou a fazer pão pensando em Julieta.
Com a massa de pão ainda tão cedo que parecia até noite, Quinco imaginava Julieta.
Quinco amassava a massa com um amor conjugal que nutria pela moça. Um carinho no fazer pão no dobrar a massa no jogar farinha e alisar e no cortar delicadamente na tentativa de não ferir.Quinco sentia Julieta na massa.
E depois desse dia,
Julieta que vivia de fazer renda, passou a fazer rendas pensando em Quinco.
O jeito delicado de trançar a linha pelo pano. Via um beijo no encontro da ponta da agulha no tecido.Julieta passava a ver a cara de Quinco nos entremeios de renda, nas flores dos bordados. Julieta passava a rendar seu amor na tentativa de exteriorizar o sentimento que nutria. Julieta sentia Quinco nas rendas.

Julieta e Quinco nunca se falaram.
Mas depois daquele dia, a cidade passou a ter melhores pães e mais bonitas rendas.
De repente parece que tudo faz sentido.
Parece que tudo está no lugar que foi meticulosamente planejado para estar em algum lugar de um tempo que passou.
Parece que o universo agora se encaixa e começa a fazer sentido.
E assim sobre o sentido, digo que sinto os meus passos mais compassados e doces
em uma leveza que parece conduzir a um luxo radioso de sensações.
Sensações doces.
De repente parece que tudo ficou mais brando
suavemente a vida passa a se fazer sentir mais calma.
Se eu me permitisse descrever, tentando materializar, ainda que em palavras, essa sensação,eu diria estar envolvida por uma nuvem.
Uma nuvem com entremeios de uma transparência fina e delicada.
Uma sensação meio flor, meio gente. Meio nuvem,meio passarinho.
Meio grama, meio cheiro de grama. Meio corrida descalça na grama.
Acho que de tanto tentar descrever,encontrei a palavra para o que de repente sinto:

Harmonia.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

a sinceridade

Há dias em que a existência se torna insuportável,assim como a possibilidade de inexistência de mim, que se torna angustiante.
Há pessoas que.Há dias em que há pessoas que não suportam o ser.
Não sei se é coisa minha.Seria eu a única no mundo que, por vezes, não suporta o peso de ser? Há um quando em que não suporto o peso de me ser, ou de não me ser,visto que não peso. Convivo com essa falta de existência que, por existir, já me mata.
Nesses dias, enjôo de meus pensamentos,tenho náuseas secas com meu jeito, irrito-me com meus modos naturais.

E há dias em que eu, que costumo ver o mundo em flores, ou flores no mundo, canso-me de tudo isso.E mais, crio uma antipatia, talvez uma ojeriza pelo meu próprio mim.

A verdade é que há dias em que me acho insuportavelmente chata.

sábado, 10 de julho de 2010

Valsinha

Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

(Chico Buarque)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

eles



Nunca consegui falar de vocês sem que o texto se tomasse de sentimentalismo, pieguice e nunca consegui falar bem de vocês, no sentido de me expressar bem pra conseguir letrar essa coisa que sinto.
E agora sinto que vocês já vão embora e já sinto saudades. Agora sinto que vocês parecem, quase sempre, não estarem mais aqui.
Sinto um olhar vago, uma pele marcada,uma voz carregada e passos mais compassados.
De repente,parece que enquanto com vocês, meu mundo passa a girar mais devagar,no ritmo que a vida de vocês agora leva.Sinto saudade de vocês.Do vocês de ontem.Sinto saudade mesmo,e por sentir tanto sentimento assim,de medo,de um futuro sem vocês e de já sentir vocês ausentes de alma, e presentes só de corpo, é que sinto e sinto tanto e sinto muito.Eu achei que já havia me acostumado com a nova e pouca fala, com olhar parado,com as poucas perguntas, e com a vaguidade que tomou conta de vocês. E eu achei que havia me habituado e me contentado em dar um beijo, sorrir, falar uma palavra de carinho e ir embora. Mas não. Eu ainda não me contento e eu ainda não me habituei e eu ainda não aceito e eu ainda não suporto a idéia desses novos vocês, desses novos meus.
Eu sinto que não posso segurar vocês. Vocês são intangíveis.Vocês me escapam pela mão e vão embora pela vida ou pelo contrário dela.
Vocês estão indo e eu sinto.E eu sinto tanto que não consigo mais nada que não seja sentir.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

E, enquanto você falava, percebi que no seu braço esquerdo moravam cinco pintas pequenas dispostas em posições aleatórias e, aos poucos, percebi que elas formavam exatamente dois triângulos quase do mesmo tamanho.E eu, que nunca gostei de matemática, comecei a desenhar triângulos em você, enquanto você falava.Sei que seria mais bonito se eu desenhasse sorrisos, ou flores,mas talvez por falta de poesia eu só visse triângulos.Primeiramente, eu só havia visto quatro, e fiquei desenhando apenas um, com a quase triste sobra de uma pinta.Depois, por conta de você se virar rapidamente ou se mexer, eu vi que havia mais uma e, apesar de você estar brigando comigo, fiquei um pouco feliz, ou não diria feliz mas, sei lá, com uma sensação de enigma realizado.Agora, eu conseguia desenhar dois triângulos enquanto você falava.Foi assim que percebi que vivemos como em um filme.Em minhas lentes cinematográficas cor de marrom dos meus olhos, eu gravo cada detalhe.É como se a todo momento em que ali estou, eu estivesse decorando cada palavra, gesto, riso e cheiro,ou linhas e pintas do seu braço esquerdo.Decorando para visitar mais tarde, um dia, nos meus pensamentos.
...E assim vou vivendo,a te desenhar triângulos pelo corpo,enquanto você fala.

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