sábado, 8 de dezembro de 2012

nada

Fazia parte do cansaço, mas eu tinha alguma coisa estranha. Fiquei sozinha no vagão, observei as pessoas, coloquei músicas, tentava fazer um nexo de causalidade entre elas e o som. Depois observei as luzes que corriam refletidas no vidro escuro do espaço subterrâneo do metrô até chegar naquela estação. Tocou uma música no aparelho que eu ouvia, e eu já saía do vagão. De repente parecia mesmo que eu tinha encontrado enfim a sintonia entre a música do mundo externo com o mundo que eu acabara de criar. O mundo momentâneo das pessoas que saíam do trem junto comigo. Como em um clipe, um filme, um período de graça. Alguma coisa me levava pela mão, acho que era a música. Eu sentia que estava transcendendo e não queria pensar muito nisso, apenas sentir este pedaço de existência suprema. Quando vi, estava chorando parada em um degrau da escada que rolava. Mudei o caminho da volta para aproveitar mais tempo aquilo e quando a música acabou, desliguei no ato o aparelho. Não queria ser contaminada por nenhuma outra energia. Comecei a prestar a atenção nos sons que a rua me passava, como quem sai do útero materno para os primeiros sons da vida. Eu chorei sem motivo ou ideia, chorei porque havia música e minha saída do vagão casava com o som dela. Houve uma faísca de alegria que me tomou o corpo todo: apesar de qualquer coisa, eu ainda era capaz de me emocionar com o nada.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

céu abaixo

A primeira vez foi assustadora. Parecia um filme de terror de cores vivas, uma piada de mau gosto, um pesadelo. Agora eu já estou acostumada. Vermelho, a minha cor preferida na privada. Tô mijando sangue. Tudo faz parte de um costume, um pouco de anestesia e do tempo. A primeira vez foi assustadora, eu tive um grito engolido calado engasgado na garganta. Um pavor todinho me tomou o corpo, fiquei bamba, eu tinha sangue vivo no vaso onde eu acabara de urinar, quente e casual. Agora eu já me acostumei, foi assim que aconteceu também com a dor. Antes as dores vinham e me alucinavam, eu urrava de dor, eu gritava, eu socava a cama, o travesseiro, eu me socava. Não havia posição e a cada hora eu entendia de uma forma meu corpo. Quando a dor ia embora eu ficava drogada, caía lânguida em um sono profundo e, quando não acordava com a volta dela, acordava com medo de me mexer e a dor voltar. Fico me perguntando se a dor diminuiu depois de todo este tempo, ou se fui eu quem se acostumou com ela. Eu me habituei em ter crise renal, em expelir uma pedra pontuda pelo canal da uretra. Eu sou como qualquer outra pessoa, que se acostuma com a dor da vida e segue anestesiado, confundindo ser e sentir. Hoje em dia quando a dor surge, eu tomo o remédio, recosto-me na cama e ela não passa não, mas eu fico ali distraída com ela. A dor me faz companhia e eu fico observando cada passe dela, seu ir e vir, suas nuances pelo meu corpo, aumentando e diminuindo. A dor da crise renal me distrai da dor da vida, esta que eu sinto toda na alma, esta não há aspirina que faça passar. Agora vem o mijo. Eu levei susto a primeira vez que fiz xixi de sangue. Hoje em dia eu apenas vejo. Meu mijo quente me escorre e depois eu o olho ainda fresco. Vejo o vermelho se dissolvendo na água da privada. O vermelho se espalha como nuvem, como um pincel sujo de tinta guache que busca a limpeza no copo d'água enquanto espera. O meu sangue se dissolve pelo vaso e eu penso na morte. Tudo parece um céu, a maneira como se espalha, em nuvem. Meu céu é vermelho.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

On the road

Existe algo místico entre mim e a estrada. Ou talvez não sejam as estradas, mas as janelas. Eu gosto de janela ou da sensação de estar com os cotovelos apoiados para ver o mundo passar. Existe algo místico entre mim e a estrada, em especial à noite. De primeiro ainda adolescente, nas idas e vindas das férias de verão no Espírito Santo. Viagem de noite inteira. De dia eu sou capaz de entrar em cada apartamento do aterro do Flamengo ao ir para o trabalho, lembro-me também de ser capaz de entrar em cada quarto da Lapa quando passei pela primeira vez por cima dos arcos, no velho bonde amarelo de Santa Teresa. Parece até que sinto o cheiro dos quartos: a bebida, o sexo, o creme de cabelo das moças. Mas à noite, sinto plenitude na estrada. De quando adolescente, indo e voltando das férias de verão no Espírito Santo, bastava uma música no meu discman para que eu começasse o ritual místico, eu já disse, sagrado. Entre o reflexo do meu rosto no vidro, o céu inteiramente negro, talvez alguma estrela, mato, morro, vivo, grama. Tudo se confundindo em minha visão do vidro. Eu era capaz, eu sou capaz de sentir uma plenitude exata. Era comum chorar naquele tempo, ainda o é. É comum chorar quando se sente a plenitude e quando algo de misterioso como seu reflexo no meio da noite, do mato, da estrada e do nada, aparece. É estar no nada. É ser muito pequena na visualização da imensidão e ser muito. No meio deste misticismo existia algo doce. Era entre mim e a ponte Rio-Niterói. Desde criança nas idas e vindas das férias de verão em Cabo Frio, carro sem ar-condicionado na década de 90 em que, pelo menos no interior, ar-condicionado era luxo. Eu sempre precisava parar a cabeça na ponte Rio-Niterói. Sossegar a cabeça e não ouvir meus irmãos brigando, minha mãe contando uma história pro meu pai, ou a cadeira de praia que batia na minha nuca no movimentar do carro. Existia algo ali, de dia ou à noite. Eu precisava parar e sonhar. Eu tinha todo o sonho do mundo e, ainda hoje, ao lembrar da sensação que eu sentia, eu chego a me emocionar. Eu era uma menina pequena de dez, no máximo, que via a capital pela tevê e pelo passar na ponte Rio-Niterói. E foi ali que sonhei, foi ali que construí o que vim parar aqui em Copacabana, o resto, eu deixo para pensar nas estradas, nas janelas dos ônibus Cidade do Aço em um trânsito de sexta às seis.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

surdez

Às vezes gostaria de perder todos os sentidos. Cega surda muda. Às vezes sinto uma tristeza que me ensurdece toda e também me deixa muda. Mas continuo vendo e, por ver, sorrio. Escrevo de frente pra uma janela larga onde agora moro. Larga e branca, bonita no alto da avenida movimentada do bairro mais movimentado aqui da capital. Gosto do jeito dela, gosto tanto que não fecho as cortinas, não é preciso fechar. Coloquei uma planta na beira, uma onze horas, casou bem com a brancura e a largura da janela. Mas às vezes, quando não olho para a janela larga e branca, gostaria de perder todos os sentidos. Hoje aconteceu: após entender que gostaria de me fazer perder os sentidos, tive de ir ao supermercado para cumprir as coisas casuais. Uma fila, uma fila inteira no supermercado inteiro. A mulher em minha frente não parava de falar comigo, abria as mãos e mostrava para mim as linhas que haviam nelas. Falava umas coisas em que eu só entendia a palavra vítima e depois me mostrava uma pulseira de identificação em seu braço. Ela repetiu essa sequência de movimentos seis vezes, eu contei, eram iguais e eu juro. Mas eu não entendi nada. Eu não entendo nada. Eu estava surda.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Há músicas que te levam a pensar em uma vida inteira, a sua. E eu tenho o hábito quase masoquista de colocá-las em momentos críticos-decisivos dessa mesma vida. Acho que a mania faz parte de uma atriz frustrada e má desenvolvida por ananismo que mora em mim. Sofrer no espelho. Eu sou tão assim: sofrer no espelho. Foi numa dessas músicas que sentei pra escrever: Aquele apartamento que ela agora deixava. Coisas tão simples: deixar um apartamento. Mas é necessário calar, respirar cada canto do velho lugar, chorar escondido, colocar a música e pensar nas coisas passadas ali. Meu primeiro conjugado alugado em Copacabana. A vida de fato. A vida de fato nasceu ali, tenho certeza. A vida crua e cruel como é. Do trânsito da Nossa Senhora, dos pivetes do Lido, do namorado como vizinho. Gosto daqui, mesmo com as zicas da torneira e do chuveiro que sempre param, mesmo com a janela emperrada e com esse quadro que teima em ser abstrato na parede. Abstrata sou eu. Tchau!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Ficção científica

Não tenho escrito, com isso deixo morrer uma porção de histórias que nunca existiram. que nunca existirão. Eu estava com a cara toda prensada em uma máquina que faz radiografias faciais quando me dei conta disso. Vinha um ferro prendendo minha testa, outro freio no queixo, de forma que paralisava minha cara toda. Eu, por minha vez, ficava diante de uma superfície laminada, quase um espelho, um tanto mal acabado, enquanto qualquer coisa girava indo e voltando pelo meu rosto, na tentativa de me radiografar. Uma mulher falando em inglês dava voz para a máquina. O espelho que me refletia completamente de frente me vazia crer que nunca tinha me olhado tão de frente. Meus olhos muito esbugalhados pareciam me mostrar que só naquele espelho eu conseguia enxergar a diferença enorme de tamanho entre eles dois, a diferença que minha mãe tanto fala. Minha boca semiaberta, os ferros emoldurando meu rosto, uma ficção científica de mim. Tudo parado em busca da radiografia perfeita, menos meu cérebro. Naquele minuto de paralisação eu sentia o pulso, o desenrolar fluido do sangue pelo meu corpo, bolhas, respiros. E minha cabeça que não para, minha cabeça nunca para, minha cabeça ainda vai me matar. Ela e toda a minha culpa por matar essas histórias que andam por mim e depois vão embora, porque não tenho escrito.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

É impressionante como, por vezes, consigo atingir qualquer coisa perto da plenitude. Sinto por entre livros, músicas, cheiros e lugares que tudo pode esperar. É como se eu tomasse uma consciência plena do meu lugar tão pequeno no mundo, da minha existência menor que um farelo por todo o universo. É tudo tão grande tão infinito que não tem tamanho. O infinito não tem tamanho, ele some. Eu sei que sou aflita e, na maioria do tempo, permaneço em crise, inconstante, inquieta com meu lugar no espaço e no tempo. Acho, na verdade, que viver não dá tempo. No entanto, raro acontece de eu sentir essa quase plenitude. É como uma respiração no meio da vida, uma calma que vem da certeza de que vou ter tempo de ler, de escrever, de saber e de sentir. Vai dar tempo de ser.

domingo, 22 de abril de 2012

Sobre endurecer

Eu seria capaz de afirmar que a paz vem dos domingos em Barra Mansa. Mais precisamente naqueles em que a segunda-feira é feriado. Eu poderia afirmar que a paz é o banho quente que tomo no banheiro todo branco. A água muito quente que me cai nas costas, as minhas mãos vermelhas que estendo e colo no azulejo branco. Vermelhas do quente que ferve. A porta que fecho para que a fumaça ali permaneça. No cubículo branco, a conta de um vaso-pia-chuveiro. A fumaça que me entontece. Essa tontura que não passa e a pouca noção de realidade que se tem em um banho. O corpo banhado por água fervente, uma fumaça inebriante e a última coisa que se lembra é a atual fase da Nova Ordem Mundial. Surge então o novo fenômeno que me vem ocorrendo e pertubando os dias fora dos banhos em Barra Mansa. Tenho tomado uma noção horrível de lugar no mundo. Tenho sentido que meu corpo tem tomado carne. É a sensação que se tem de um cimento fresco endurecendo até se tornar chão, parede. Sinto todos os dias o meu leve espírito, o jovem, o novo, o sonho endurecendo-se, tomando-se por carne, encarnando. É o endurecimento recorrente na maioria dos seres humanos. Todos. Quase todos endurecem. Eu endureço, eu estou endurecendo dia após dia, e sentir a própria carne, ou melhor, o próprio espírito endurecer é de uma dor descomunal. É como, no meio de toda a leveza, ser aprisionado em uma caixa rígida. É desconfortante. Ter seus ossos e mente paralizados, e o processo dessa paralização dói. Há quem não sinta, há quem nasça duro, há quem nunca endureça. Eu endureço e tenho doído incessantemente por todos esses dias que seguem. Viver dói. Mas a paz dos banhos em Barra Mansa ainda me sustenta em fingir não escutar a mulher que grita, o telefone que toca e a vida que segue lá fora.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um bilhete ao céu.

Passava do meio dia e eu pensava em você na sala de espera de um julgamento qualquer daquela tarde.
Pensava em como você andava com uns olhos de mar naquela época, foi quando percebi que você ia embora.
Já não me respondia mais como antes, nem me mandava mais beijos com a ponta do dedo indicador.
Mas o que mais me entristecia em toda aquela despedida velada eram os seus olhos.
Eles ficaram turvos como um mar calmo em dia cinzento. Na verdade, como um rio ou lago, ou qualquer coisa parada, funda e turva, por onde você se perdia e me fazia perder todo o chão do mundo.
Toda uma dor de existência me consumiu naqueles dias. Hoje faz um ano e ainda dói uma saudade. No entanto, sem poder querer muito, eu só espero que seus olhos tenham melhorado.

Um beijo com a ponta do indicador,

da sua Rebeca.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um quase.

Ela cresceu e se tornou um nada.
Na verdade, não passou de uma tentativa.
Um quase.
Ela quase foi bonita, quase foi interessante, quase inteligente.
Depois, quase foi atriz, quase teve charme, tentou ser artista de outra coisa.
Quase escreveu bem, quase falou bem, quase se formou com êxito. Formou-se em uma universidade quase boa.
Quase se apaixonou um dia, quase casou em outro. Quase gozou, quase teve um filho.
Ela quase foi feliz, quase porque foi por pouco, porque era pouca. Não é nem nunca foi inteira em nada.
Quase morreu e não aprendeu, continuou sendo quase.
Ser quase é triste, porque ser quase nunca é. Não ser, não foi, quase foi, sem verbo, sem graça.
Vai morrer assim, na verdade não vai, porque quando morrer vai ser. Morreu,ponto.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Minha geração, uma paixão

Eu lembro e ainda ouço hoje a trilha sonora que tocava na vida dos jovens cool daquele verão em que eu te conheci. Ali começava toda a minha juventude. Hoje me peguei, de longe, ouvindo as músicas daquele tempo em que eu tinha aquela grande cabeleira descabelada e tinha mania de botar flor no cabelo, foi assim naquela noite em que você me conheceu. Em algum lugar da casa tocava Little Joy, só pode ser, porque foi o que marcou aquele tempo. Hoje ouço e me transporto como num filme, pra lembrar do jeans que eu usava com aquela faixa de pano na cintura que fazia parecer que eu tinha "quebrado as cadeiras", como já dizia uma amiga. Me transporto como num filme para as mil conversas que eu já lembrei, relembrei, odiei e amei tantas e tantas vezes, aquelas confusas que tivemos naquela noite. Na verdade, eu acho que não tivemos propriamente um diálogo. Ainda aposto que se alguém a ouvisse não ia entender nada, pois acredito que não se passava de cada um expondo suas próprias ideias sem a menor sequência pergunta-resposta ou coisa assim.
Ontem eu saí por aqui e tomei uma Stella. Acontece muito comigo em sair sozinha com qualquer punhado de amigos, e tomar uma Stella quando dá, que é pra homenagear você e aquele dia. Eu não conto ou falo nada pra ninguém, é como um segredo. Eu tomo quieta, e no primeiro gole lembro daquele dia. Lembro que quando você começou a falar, eu pensei em dar a desculpa de levantar para pegar um copo d'água, mas algo me impediu. Deus, destino, horóscopo, energia, sorte, azar. Ainda me pego pensando que rumo teria dado se eu tivesse me levantado pra pegar água. Não sei, o que sei foi tudo que se deu desde então e que me levou a estar hoje, depois de três anos daquela noite, a ouvir aquelas músicas novamente, sentir tudo por você novamente e tomar esta Stella pensando que ainda somos aqueles dois jovens, sentados na mesa de bar do apartamento das meninas, achando que o mundo era aquilo ali.
Peço perdão por tanta nostalgia, são as músicas e a cerveja. Agradeço por todo o sentimento que você me deu desde então, nunca foi tão bom e tão ruim sentir. Sinto muito.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Carnaval em mim

Trata-se de uma alegria única, e se você nunca sentiu, talvez não me entenda aqui.
Não sei de onde ela vem, mas surge de dentro e vem te tomando todo o corpo, te possuindo, te afogando para o risco de você se emocionar. Mas ela não vem de motivo nenhum, ela não vem do externo, vem de você. É uma alegria de mim pra mim, sem a menor idéia ou razão. Eu não sei se você já sentiu isso, mas existe um lugar no mundo, em um período específico do ano em que é possível sentir isso e são as minhas lembranças mais nítidas desse nível de alegria. O evento é a COMEERJ. O período é o carnaval, que acontece fora deste evento.Este ano eu não fui.
Pode ser difícil entender esta grandeza e o processo, afinal, estamos o tempo todo buscando os artifícios externos para gerar a alegria. Depositamos o compromisso da felicidade ou da alegria em pessoas, em objetos, em lugares. Realizamos no ato o efeito de externar, ou seja, tirar nossa própria alegria de nós, no acreditar em qualquer coisa externa gerando felicidade. Podemos ser felizes assim, mas eu já senti e te garanto, a outra, a que vem de dentro é pura, ela acaba de nascer e mora em você. Eu não sei o que você pode fazer para conseguir desenvolver esta, a que vem de dentro, talvez uma música seja capaz de abrir caminho para ela.
O que eu sei é que agora passou. Eu chorei bastante na noite passada, até ficar com dó de mim, e não coloco aqui o Chico para pura poesia, mas por verdade. Senti um desgosto enorme em existir, enorme. Mas hoje começa o ano novo, passou o carnaval e o país começa a funcionar, é um bom tempo pra chorar de véspera. Mas mesmo que fosse uma quarta-feira monótona, sem mais e com rotina, seria o meu tempo pra recomeçar.
Porque, de qualquer forma, eu sinto e decido: É tempo de faxina da alma.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Carta ao P. VI

Querido,

Foi em um taxi que eu deixei a pacata regiao de Newton, onde eu morava em Boston. Ao som de uma musica dos anos 50, talvez, que dizia coincidentemente " Go away, little girl...", eu tentei puxar assunto com o taxista. Eu disse que gostava da musica e perguntei se ele sabia quem a cantava, ele resmungou qualquer coisa e aumentou bem pouco o radio do carro. Abaixou minutos depois, novamente, quando comecou a tocar Elvis Presley. Newton e um lugar que parece ter parado no tempo. Casinhas com jardim que se conservam o tempo todo de portas abertas na regiao "safest" dos Estados Unidos, foi o que a Deborah, a dona da casa que fiquei, me disse. Newton Center, era onde eu morava. Alem das casas, uma regiao em volta do T, o trem, possui umas lojinhas charmosinhas, uns cafes, dois pubs e qualquer outras coisas que fechavam por volta das dez, e nao mais que isso. Eu fui embora de Newton, aquele pequeno universo quase particular, no meio da America do Norte, ao som de uma musica que dizia pra eu ir embora, pequena menina. Eu fui embora de Newton e chorei. Pelo dia anterior e as despedidas em abracos, por uma Isabela que eu deixei um pouco ali e por uma nova que eu descobri no meio das arvores secas da Langley Road. Qualquer coisa acontece quando voce se vence, meu bem. Qualquer coisa aconteceu. Quando eu cheguei eu disse para mim: agora e so voce contra voce mesma. E foi. Eu deixei Newton com saudade, mesmo que saudade nao exista em Newton. Go away, little girl, o mundo so comecou.

Um beijo de amor.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Carta ao P. - V

Querido,

Nova Iorque e sinestesia. Um "e" com direito a todo acento que eu nao tenho aqui pra escrever.
Nova Iorque e sinestesia. Eu senti qualquer coisa na cidade, uma especie de emocao constante no peito, um afogamento de sensacoes, por isso eu digo: Nova Iorque e sinestesia. Porque sao todos os sentidos do corpo juntos e muito intensos o tempo todo, tal qual a cidade. Voce se afoga e se perde dentro de voce, nao consegue distinguir fome de choro.
Eu tive Nova Iorque pelos olhos de um novaiorquino tipico, o Marcus, meu primo. Primeiro fomos as galerias de arte. A rua eu nao me lembro exatamente, e a 24 com alguma outra combinacao de numeros ou palavras. Uma rua so com as principais galerias da cidade. Pequenas grandes galerias. Colorido. Eu fiquei surda com o colorido das pequenas grandes galerias da 24. Tanta coisa ao mesmo tempo, tanta coisa junta, tanta coisa pra sentir, pra ver, eu queria cheiro, gosto, cor, delirio e tinha tudo. Tudo junto. Todas as sensacoes.
Eu fui em uma peca, chamada "Sleep no more", algo bem diferente da Broadway, apesar de eu nunca ter ido a um teatro de la e ate querer, mas diferente. Sleep no more era uma peca em que voce entrava na peca. O lugar central era um cabare antigo, os atores misturados com o publico, sentados a mesa, bebendo. Havia uma mulher do cabelo enrolado cantando, um cabare. Piano, bebida e eu. Tudo em torno da decada de 50, presumo eu de um calculo de olhos pelas roupas e musicas. Ali, voce recebia cartas de baralho e conforme suas cartas era encaminhado para um lugar. Um predio de cinco andares, repleto de quartos e quartinhos e ambientes, cada um decorado de um jeito. Os atores ficavam rodando por esses comodos, separados ou nao, fazendo em cenas mudas, um teatro no meio de mim, passando por mim, correndo por mim. As cenas aconteciam e voce escolhia dali qual ator iria seguir, portanto escolhia as cenas que queria ver, desordenadamente, criando qualquer coisa na sua cabeca. A decoracao dos ambientes, que depois eu fui ler, eram mais de cem, era impecavel. Uma atmosfera as vezes melancolica, por vezes macabra e por outras quase alegre. Uma verdadeira palheta de emocoes, como a cidade. Eu vi mulher tomando banho, nudez, sexo, amor, danca, morte, sangue, dor. E senti tudo isso junto, acompanhada por uma mascara e por nao poder me comunicar com os outros em momento nenhum. Incrivel.
Eu tambem fui ao MoMa, e tive vontade de sapatear de alegria,gostei demais. No gugenheim estava rolando uma exposicai inexplicavel, mas por assim ser, voce vai ver a porcao de fotos que tirei. Maurizio Cattelan. Um monte de coisa, tudo o que voce pensar, pendurado do teto ao chao , pelos seis andares vazados pelo circulo que forma o museu. Do teto ao chao, coisas chocantes, amenas, gostosas, tristes.
Eu estou ansiosa para te mostrar todas as fotos e poder te explicar cada detalhe.
Mas acho que foi isso, Nova Iorque e emocao demais, por todos os poros, com todas as coisas. E cheiro, gosto e visao.

Um beijo com todos os sentimentos do mundo, da cidade que tem todos eles.

Ps: acho que essa carta nao ficou tao poetica. Sempre que eu fico assim, com sentimento demais, e varios tipos dele, parece que nao consigo passar claramente e ordenamente as coisas. Ny faz isso, esse turbilhao.

Carta ao P. IV

Meu bem,

Desculpa a demora, acho que a ultima carta que enviei foi no final de minha primeira semana, desde entao muita coisa aconteceu, mas foi por isso mesmo que nao tive tempo de escrever. Hoje voltando pra casa, na volta que faco sozinha por uma rua cheia de casinhas americanas com jardim na frente, chamada Langley Road, eu pensei em tudo o que tenho pra te contar.
Eu tive pessoas aqui, sim, eu tive, porque voce passa a ter alguem quando voce sente qualquer coisa boa no coracao, e e muito engracado ter pessoas em outra lingua, porque as vezes voce nao consegue dizer o que sente, e na verdade nao precisa, mas voce sabe que sente, e a outra pessoa tambem. Eu conheci a Gizem, uma menina da Turquia, mas que na verdade tem os pais nascidos na Bulgaria. Ensinei pra ela o que significa a palavra saudade, mas ela disse que vou mesmo ensinar quando for embora. Tentamos trocar musicas - Turquia x Brasil, mas na verdade descobri que ela tambem ama o filme da Fridah Khalo e aquela musica Paloma Negra. Mostrei pra ela cucurucucu Paloma, ela ja tinha visto o filme, mas nao lembrava da musica. Eu disse que era o meu favorite brazilian singer que cantava no filme. Desde entao, Gizem fica cantarolando cucurucucu...pelos cantos da universidade. Teve um dia, acho que foi ainda na segunda semana,sentamos no sol, depois do almoco e ficamos ouvindo Paloma Negra e depois cucurucucu Paloma, enquanto os asiaticos e arabes passavam pelo campo verde, ainda sem neve naquela epoca. Mas nao sabiamos o que significava Paloma, e foi a Vale, uma graciosa menina do Uruguai que nos explicou. A Vale foi a minha primeira amizade aqui, no primeiro dia nos ja nos olhavamos e riamos, sabendo do que estavamos rindo sem precisar falar nada. A Vale tenta me explicar algumas coisas de fotografia, do curso que ela fez, apesar de estudar Contabilidade. Ela tirou otimas fotos minhas nessa viagem. Enfim, foi andando hoje na volta, pela Langley Road que eu pensei em todas as pessoas que eu tive aqui e me senti com o coracao apertadinho de deixa-los daqui alguns dias. Eu sei e digo, estou morrendo de saudade de voce, do sol e de tomar uma cerveja gelada vestindo camiseta, mas quando penso que provavelmente nunca mais verei aqueles rostinhos de olhinhos puxados me dando good morning no frio, e os arabes tentando me explicar como tudo acontece no mundo deles, enfim, sinto uma coisa. E uma coisa misturada de bom e de ruim, mas acho que e "mais bom" do que ruim, porque significa, de uma forma ou de outra, que tudo foi bom.
Falando nisso, eu estou devendo te contar de Nova Iorque. Pra isso, vou fazer uma carta so.
Por agora e so, uma nostalgia antecipada qualquer, e uma felicidade. As pessoas sao muito boas comigo, Thiago, e eu quero ser muito boa com elas tambem.
Beijo enorme,

Isa.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Carta ao P. III

Hoje e domingo e eu me apresso em escrever.
Porque ontem o dia foi otimo aqui, mas hoje e domingo.
Ontem eu conheci Harvard, a universidade e seus arredores, a Harvard Square. Tive um bom dia com os amigos que fiz aqui, marcado por fotos muito coloridas de um dia lindo de sol e nao tao frio. Tudo bem terminado por uma noite em um Pub ja mais perto de casa, com cerveja americana, que achei muito amarga, e conversas. Algumas meninas querem aprender samba, e eu prometi ensinar, embora nao seja assim tao boa, eu gosto demais de sambar, e tudo que gosto eu me meto a fazer sem saber se e muito bom ou ruim, como escrever.
Entretanto hoje e domingo.
Domingo e dia de, em Barra Mansa, acordar e ler jornal, tomar cafe da manha completo em casa, com geleia. No Rio, ver voce e fazermos qualquer coisa pra matar a tarde, como eu gosto, de andar pela zona sul e tirar algumas fotos, comer algum doce gostoso que a sua irma fez de sobremesa no dia, ir a praia... Por isso acho que hoje, apesar de ontem ter sido realmente gostoso, eu acordei com uma saudade especial. E domingo,com acento, e eu tenho todo o direito de ter saudade, e minha licenca, com c, cedilha, poetica ou nao.
Ontem eu percebi que estava realmente feliz quando depois de uma gargalhada, eu olhei todas aquelas pessoas na mesa, eramos seis ontem, e vi que eu sou capaz de sentir falta delas, daqui ha um mes quando eu nao estiver mais aqui. Sou capaz de sentir saudade, porque hoje eu sinto saudade dai, e amanha poderei sentir daqui (e ainda bem), porque eu acho que eu sou mesmo assim, toda saudade.
Hoje eu devo ficar em casa, tenho a lot of homework pra fazer, minhas roupas pra aprender a mexer na maquina de lavar e secar, e qualquer coisa pra pensar, porque hoje e domingo, o dia livre pra sentir e pensar o que quiser, inclusive em saudade.

Um beijo bem grande.
Com amor,

Preta

Ps: sorry por nao esperar nem voce responder a ultima carta, mas e que hoje e domingo.


*Respostas : www.soemalacompanhado.blogspot.com

sábado, 7 de janeiro de 2012

Carta ao P. II

Querido,

Muita coisa aconteceu desde a minha ultima carta, mas eu continuo sobrevivendo, na verdade, amanha faz uma semana de sobrevivência, neste caso, passo a desconsiderar o que se chama de sobre-vivência, como algo em excesso, algo além, e passo a considerar que começo a vivência, em si e toda ela.
Sem querer te preocupar, te explico que no começo foi difícil, um pouco de solidão e uma leve agonia, nada que não passe e que depois que passa nos traga uma sensação de crescimento, como se algo tivesse sido rompido dentro de si. Como eu escrevi esta semana para a Aline, tratou-se de um tempo de extremo auto-conhecimento. Foi uma luta diária do eu contra o mim mesma. Acredito que o que esteja havendo por aqui não seja algo ligado apenas ao intelectual, mas há qualquer coisa de espirito, de amadurecimento, de vida nisso tudo. Sinto uma mudança interna, cultivo a esperança de que isso me deixara ( no futuro mesmo e com acento) mais paciente e tolerante, qualidades que muito me faltaram neste final de ano. A maré parece que começa a virar, não sinto mais tanto frio e sinto-me melhor no meu lugar no mundo hoje: em Boston. Entretanto, não posso esquecer de te contar que lá pela quarta me dei conta de que fazia dias que não abraçava. Isto me incomodou demais, nunca reparei quanto tempo eu havia ficado sem abraçar no Brasil e tentei me recordar, não conseguia, mas imagino mesmo que não chegue a ser um dia. De repente, algo que eu aparentemente fazia por osmose, pegou-me de jeito, eu comecei a ficar verdadeiramente incomodada com a falta de abraço, e comecei a só sentir aquilo, como uma dor, coceira ou qualquer coisa que você sente o tempo todo involuntariamente. Foi quando eu encontrei uma menina que eu havia conhecido no dia anterior, ela era do Uruguai e eu sabia que ela me entenderia se eu fizesse isso: quando ela se aproximou para dar dois beijinhos de bom dia, eu pá: tasquei-lhe um abraço.
Além do abraço, confesso um saudosismo gostoso quando você falou da, agora minha, cidade do Rio de Janeiro nesta época. Eu me lembro, a cidade neste período do ano exala esperança e é magico demais sentir isto de perto. Esses dias eu me peguei sentindo falta de vestir apenas chinelos, um short e camiseta e sentar em um bar, com apenas uma camada de roupa, tomar uma cerveja gelada e só.
Bom, preciso ir, o pessoal que conheci me espera na estação para um passeio por Harvard, mas isto já é assunto pra outra carta.

Sinto falta de você e do Rio,

Beijos com amor.

Preta.

Ps: sobre você neste ano, eu já disse, você possui muito preciosismo na cabeça para se deixar assim, ser engolido pela rotina. Você merece mais, foi por isso que eu me apaixonei.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Carta ao P.

Boston, 2 de janeiro de 2012.

Querido P,

Hoje atendi ao seu pedido e conselho e sai sozinha pelas ruas de Boston. Fui de óculos e sem me arrumar, cultivo a sensação de que os óculos me protegem e se você não esta tão arrumada, fica levemente invisível para observar.
Boston e linda, e digo com acento mesmo, embora de onde escrevo não consiga acentuar, mas acentuo de outra forma, repetindo: Boston e linda, mesmo sem acento no e. Ou talvez não seja, mas e tão diferente de tudo que já vi, que se não for bonita no inverno, torna-se para mim.
Não neva e a cor de Boston, assim, se eu a olhasse por inteira como um dia Chico Buarque ou José Costa olhou Budapeste, eu diria: Boston e marrom. Cor que não gosto, mas em Boston gosto porque há um céu muito azul que desacredita o frio.
Sobre o meu passeio, foi bom. O frio e novidade para mim, o que nem por isso me faz aprecia-lo. Entanto, acredito que depois de uma certa idade eu parei de me aborrecer com coisas pequenas e a considerar que tudo no mundo serve como experiência. Eu não sou tão velha, eu sei, tenho 21, mas a cabeça você sabe...por falar nisso, eu vi uns jovens no trem, acho engraçado como eles eram tão típicos jovens americanos com seus jeans, gírias, espinhas e jeito americano. Alias, eu diria que me sinto mesmo em um filme, nada do que vemos por ai e caricato, existe. Tudo aqui e muito tipicamente americano. As casas, os bairros, os jeitos. E interessante de ver.

Vou encerrando por aqui com desculpas pela falta de acento, quero dizer que isso não diminui em nada a graça da vida.

Um beijo com saudade de quem voltara a escrever.

Preta.

Seguidores