quarta-feira, 27 de março de 2013

Um canto de praia no fim

Eu, vagabundinha, havia me esquecido em como era bom ir à praia em pleno dia útil. Era uma sexta ensolarada quando eu saí de casa, a maravilhosa combinação entre férias na faculdade e folga no trabalho. No entanto, após deitar na areia, percebi que o sol se revezava também por detrás das nuvens. Nesse momento, quando as nuvens eram mais densas, a luminosidade intensa da estrela ficava sensivelmente diminuída, em especial para as minhas pupilas, e formava uma aura brilhosa em volta da nuvem muito branca. Foi assim que eu consegui me transferir para uma terapia bacana que eu costumava exercer até algum tempo atrás. Na época em que eu morava lá no interior, gostava de, aos domingos, levar um colchonete para o terraço da minha casa. Ali deitada, depois do sol fraco, ou me escondendo do brilho direto dele, eu conseguia ter uma noção plena do mundo (não falo de filosofia, literatura ou astrologia, estou falando na coisa física: olho na coisa e coisa no olho). Preciso confessar que na praia essa sensação fica mais forte devido ao mar. Deitada de corpo e mente inteiros em forma de horizonte, é possível visualizar o perfeito contorno do mundo, de forma que chego a estranhar que, após tanto olhar pro céu, alguém tenha achado que a terra era quadrada. Pode ser por influência do inconsciente, mas eu teimo em dizer que não: sou inteiramente capaz de perceber o fio do contorno redondo do mundo e a curva que ele faz ao final, até que chegue a mim. É uma linha quase invisível, mas que de tanto eu olhar, fica visível para mim, como essas mentiras que a gente inventa na cabeça. Além disso, não há nada mais relaxante de, nessa posição, conseguir perceber aquele movimento que eu sempre achei que fosse também o exato movimento da Terra, mas que talvez seja só o das nuvens. O importante é perceber que algo se move e que eu, deitada em forma de horizonte, vejo a Terra, que é céu. Em um instante, quando resolvo caminhar um pouco até a ponta, sou transferida em som para a realidade: Por que as crianças dão gritinhos ao ver o mar? Ou será que todos nós, adultos, temos vontade de gritar e não o fazemos porque não somos crianças? O mar é de gritar mesmo. E depois de tanta tarde, tanto mar, tanto céu da Terra, contorno da Terra, horizonte e criança, eu chego a casa e me sinto pequena: com muita violência, invadiram a Aldeia Maracanã.

terça-feira, 19 de março de 2013

Diário

A sensação de quem escreve para ninguém me conforta. Hoje é um daqueles dias sombrios, de uma enxaqueca permanente, uma ressaca constante, uma penumbra que não cessa. Dias de cansaço, sem vontade e de futuros arrependimentos pela falta de vida que eles carregam. Fica mais próxima a visão do fracasso que está por vir, mais uma prova da minha superficialidade. Nesses dias, eu exijo uma reclusão sem razão (e sem rima), acabo me afastando do mundo e fico pairando na realidade, até ser chamada de volta por algum fato feliz ou por cansaço de estar assim, mesmo estando assim por cansaço. Dessa vez eu tentei mais que das outras: quando senti o tempo feio se aproximar, permaneci em luta. Ainda domingo eu me sentei no parapeito da janela pra sentir de leve a chuva bater no meu rosto e levar a tristeza que chegava, mas ela ainda permanece por aqui. Faço, da falta do leitor, um diário e registro: apesar dela ainda não ter me tomado por inteiro, não faço questão de mandá-la embora.
Eu esperei pelo inferno astral e, já em março, posso dizer que ele não veio com tanta intensidade este ano. Surgiu alguma força em tudo no mundo e, sobretudo, um resgate. Fui resgatada de mim. Comecei a ver uma menina saindo de minhas entranhas e isso me soou bem. Algo aconteceu, algos.

terça-feira, 12 de março de 2013

Musicada

Ando com olhos de Carolina, aqueles fundos, que guardam toda a dor desse mundo.

domingo, 10 de março de 2013

A intensidade que a luz do sol, às nove de uma terça, dá à praia do leme, combina com a minha tristeza.

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