segunda-feira, 25 de junho de 2012

Ficção científica

Não tenho escrito, com isso deixo morrer uma porção de histórias que nunca existiram. que nunca existirão. Eu estava com a cara toda prensada em uma máquina que faz radiografias faciais quando me dei conta disso. Vinha um ferro prendendo minha testa, outro freio no queixo, de forma que paralisava minha cara toda. Eu, por minha vez, ficava diante de uma superfície laminada, quase um espelho, um tanto mal acabado, enquanto qualquer coisa girava indo e voltando pelo meu rosto, na tentativa de me radiografar. Uma mulher falando em inglês dava voz para a máquina. O espelho que me refletia completamente de frente me vazia crer que nunca tinha me olhado tão de frente. Meus olhos muito esbugalhados pareciam me mostrar que só naquele espelho eu conseguia enxergar a diferença enorme de tamanho entre eles dois, a diferença que minha mãe tanto fala. Minha boca semiaberta, os ferros emoldurando meu rosto, uma ficção científica de mim. Tudo parado em busca da radiografia perfeita, menos meu cérebro. Naquele minuto de paralisação eu sentia o pulso, o desenrolar fluido do sangue pelo meu corpo, bolhas, respiros. E minha cabeça que não para, minha cabeça nunca para, minha cabeça ainda vai me matar. Ela e toda a minha culpa por matar essas histórias que andam por mim e depois vão embora, porque não tenho escrito.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

É impressionante como, por vezes, consigo atingir qualquer coisa perto da plenitude. Sinto por entre livros, músicas, cheiros e lugares que tudo pode esperar. É como se eu tomasse uma consciência plena do meu lugar tão pequeno no mundo, da minha existência menor que um farelo por todo o universo. É tudo tão grande tão infinito que não tem tamanho. O infinito não tem tamanho, ele some. Eu sei que sou aflita e, na maioria do tempo, permaneço em crise, inconstante, inquieta com meu lugar no espaço e no tempo. Acho, na verdade, que viver não dá tempo. No entanto, raro acontece de eu sentir essa quase plenitude. É como uma respiração no meio da vida, uma calma que vem da certeza de que vou ter tempo de ler, de escrever, de saber e de sentir. Vai dar tempo de ser.

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