quinta-feira, 23 de janeiro de 2014


Nascemos só e vamos morrer só.

A saída do útero é completamente solitária, embora por vezes haja o amor.

A vida segue de forma a te fazer esquecer que, na verdade, é só você.

Estamos todos sozinhos nessa massa coletiva que se ajeita no vagão do metrô, nos bares em noite quente, no supermercado Mundial às 18h, nos elevadores ou nos velórios.

A verdade é que a solidão é contínua e nos segue por toda a vida de forma escondida.

Primeiro há o cerco da família, e depois é preciso uma porção de amigos, e depois menos amigos, mas bons, e depois vêm os filhos os netos os bisnetos.

Mas é nesse meio de tempo, na gritaria de quem compra ouro na Siqueira Campos, de quem atravessa a Presidente Vargas quando o sinal fecha, ou no Carnaval em Salvador, cedo ou tarde, que chega o momento em que nos damos conta do inevitável: estamos todos sozinhos. Somos um e único que sabe das próprias e verdadeiras dores, que vai sentir sozinho que no mundo é só você contra você mesmo.

Há quem tenha, nessas horas, suas pequenas epifanias. Há quem entre em desespero, há quem se mate, há quem deprima, há quem se sinta verdadeiramente liberto.

O fato é que o ser humano nasceu de viver junto, de se aglomerar nos grandes centros, de querer morar um em cima do outro, de ter carro pra mais de um, de fazer filho, de ter gente. Por isso é que essa descoberta assim, tão de repente, pode acabar com um coração.

Eu havia pegado a mania de sentar no parapeito da janela baixa que havia me encantado na primeira vez que entrei nesse apartamento. Sobretudo depois de ver filme em solidão.

Naquela noite em especial, quando eu me sentei, notei que o céu estava estrelado demais para uma noite em Copacabana. Senti um cheiro que parecia com as noites quentes de Seropédica, quando eu voltava pra casa e subia a escada íngreme do condomínio que chamávamos de Cortiço. Foi quando me transportei para aquele nostálgico portão de tantas e tantas despedidas, ao mesmo tempo em que, também olhando a grade que me segura no quinto andar, o letreiro luminoso em vermelho do restaurante de comida israelense e os lírios cor de laranja que eu coloquei para tomar a fresca, eu tive certeza que me lembrarei muito daqui. Que esse também vai ser mais um canto de memória, em especial essa noite depois do filme e das dúvidas.

A certeza da lembrança me conforta, em especial por ser lembrança feita de agora e fresca.  

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