segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um quase.

Ela cresceu e se tornou um nada.
Na verdade, não passou de uma tentativa.
Um quase.
Ela quase foi bonita, quase foi interessante, quase inteligente.
Depois, quase foi atriz, quase teve charme, tentou ser artista de outra coisa.
Quase escreveu bem, quase falou bem, quase se formou com êxito. Formou-se em uma universidade quase boa.
Quase se apaixonou um dia, quase casou em outro. Quase gozou, quase teve um filho.
Ela quase foi feliz, quase porque foi por pouco, porque era pouca. Não é nem nunca foi inteira em nada.
Quase morreu e não aprendeu, continuou sendo quase.
Ser quase é triste, porque ser quase nunca é. Não ser, não foi, quase foi, sem verbo, sem graça.
Vai morrer assim, na verdade não vai, porque quando morrer vai ser. Morreu,ponto.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Minha geração, uma paixão

Eu lembro e ainda ouço hoje a trilha sonora que tocava na vida dos jovens cool daquele verão em que eu te conheci. Ali começava toda a minha juventude. Hoje me peguei, de longe, ouvindo as músicas daquele tempo em que eu tinha aquela grande cabeleira descabelada e tinha mania de botar flor no cabelo, foi assim naquela noite em que você me conheceu. Em algum lugar da casa tocava Little Joy, só pode ser, porque foi o que marcou aquele tempo. Hoje ouço e me transporto como num filme, pra lembrar do jeans que eu usava com aquela faixa de pano na cintura que fazia parecer que eu tinha "quebrado as cadeiras", como já dizia uma amiga. Me transporto como num filme para as mil conversas que eu já lembrei, relembrei, odiei e amei tantas e tantas vezes, aquelas confusas que tivemos naquela noite. Na verdade, eu acho que não tivemos propriamente um diálogo. Ainda aposto que se alguém a ouvisse não ia entender nada, pois acredito que não se passava de cada um expondo suas próprias ideias sem a menor sequência pergunta-resposta ou coisa assim.
Ontem eu saí por aqui e tomei uma Stella. Acontece muito comigo em sair sozinha com qualquer punhado de amigos, e tomar uma Stella quando dá, que é pra homenagear você e aquele dia. Eu não conto ou falo nada pra ninguém, é como um segredo. Eu tomo quieta, e no primeiro gole lembro daquele dia. Lembro que quando você começou a falar, eu pensei em dar a desculpa de levantar para pegar um copo d'água, mas algo me impediu. Deus, destino, horóscopo, energia, sorte, azar. Ainda me pego pensando que rumo teria dado se eu tivesse me levantado pra pegar água. Não sei, o que sei foi tudo que se deu desde então e que me levou a estar hoje, depois de três anos daquela noite, a ouvir aquelas músicas novamente, sentir tudo por você novamente e tomar esta Stella pensando que ainda somos aqueles dois jovens, sentados na mesa de bar do apartamento das meninas, achando que o mundo era aquilo ali.
Peço perdão por tanta nostalgia, são as músicas e a cerveja. Agradeço por todo o sentimento que você me deu desde então, nunca foi tão bom e tão ruim sentir. Sinto muito.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Carnaval em mim

Trata-se de uma alegria única, e se você nunca sentiu, talvez não me entenda aqui.
Não sei de onde ela vem, mas surge de dentro e vem te tomando todo o corpo, te possuindo, te afogando para o risco de você se emocionar. Mas ela não vem de motivo nenhum, ela não vem do externo, vem de você. É uma alegria de mim pra mim, sem a menor idéia ou razão. Eu não sei se você já sentiu isso, mas existe um lugar no mundo, em um período específico do ano em que é possível sentir isso e são as minhas lembranças mais nítidas desse nível de alegria. O evento é a COMEERJ. O período é o carnaval, que acontece fora deste evento.Este ano eu não fui.
Pode ser difícil entender esta grandeza e o processo, afinal, estamos o tempo todo buscando os artifícios externos para gerar a alegria. Depositamos o compromisso da felicidade ou da alegria em pessoas, em objetos, em lugares. Realizamos no ato o efeito de externar, ou seja, tirar nossa própria alegria de nós, no acreditar em qualquer coisa externa gerando felicidade. Podemos ser felizes assim, mas eu já senti e te garanto, a outra, a que vem de dentro é pura, ela acaba de nascer e mora em você. Eu não sei o que você pode fazer para conseguir desenvolver esta, a que vem de dentro, talvez uma música seja capaz de abrir caminho para ela.
O que eu sei é que agora passou. Eu chorei bastante na noite passada, até ficar com dó de mim, e não coloco aqui o Chico para pura poesia, mas por verdade. Senti um desgosto enorme em existir, enorme. Mas hoje começa o ano novo, passou o carnaval e o país começa a funcionar, é um bom tempo pra chorar de véspera. Mas mesmo que fosse uma quarta-feira monótona, sem mais e com rotina, seria o meu tempo pra recomeçar.
Porque, de qualquer forma, eu sinto e decido: É tempo de faxina da alma.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Carta ao P. VI

Querido,

Foi em um taxi que eu deixei a pacata regiao de Newton, onde eu morava em Boston. Ao som de uma musica dos anos 50, talvez, que dizia coincidentemente " Go away, little girl...", eu tentei puxar assunto com o taxista. Eu disse que gostava da musica e perguntei se ele sabia quem a cantava, ele resmungou qualquer coisa e aumentou bem pouco o radio do carro. Abaixou minutos depois, novamente, quando comecou a tocar Elvis Presley. Newton e um lugar que parece ter parado no tempo. Casinhas com jardim que se conservam o tempo todo de portas abertas na regiao "safest" dos Estados Unidos, foi o que a Deborah, a dona da casa que fiquei, me disse. Newton Center, era onde eu morava. Alem das casas, uma regiao em volta do T, o trem, possui umas lojinhas charmosinhas, uns cafes, dois pubs e qualquer outras coisas que fechavam por volta das dez, e nao mais que isso. Eu fui embora de Newton, aquele pequeno universo quase particular, no meio da America do Norte, ao som de uma musica que dizia pra eu ir embora, pequena menina. Eu fui embora de Newton e chorei. Pelo dia anterior e as despedidas em abracos, por uma Isabela que eu deixei um pouco ali e por uma nova que eu descobri no meio das arvores secas da Langley Road. Qualquer coisa acontece quando voce se vence, meu bem. Qualquer coisa aconteceu. Quando eu cheguei eu disse para mim: agora e so voce contra voce mesma. E foi. Eu deixei Newton com saudade, mesmo que saudade nao exista em Newton. Go away, little girl, o mundo so comecou.

Um beijo de amor.

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