domingo, 26 de dezembro de 2010

a Lapa do homem de Marília.

Eu era um homem recém feito quando Marília me tomou pela mão e foi me mostrar a Lapa. Menino meio abobado que era, me via nos braços de uma mulher pela primeira vez, e eu ainda me via meio zonzo sem entender coisa com gesto.
Entendi a vida quando Marília meio de brincadeira me colocou dependurado no bonde de Santa Teresa.E eu daquele jeito de menino tonto, que vinha do interior.
Entendi a vida quando o bonde passou por de cima da Lapa.
Vi as casas e dentro delas : as pretas, os peitos, as crianças, as cores. Entendi gente.
Dava pra sentir o cheiro do perfume da mulher na janela da criança que deixava por escorrer um catarro do nariz ali embaixo da marquise pra quem quer deitar.
Ouvi cada chiado de rádio dentro da janela do homem que fumava lentamente enquanto suavam as bicas dos seus poros muito dilatados.Mas pude ouvir o arranhar dos saltos de quem andava na calçada lá embaixo e o tilintar de qualquer coisa feito chave ou feito moeda no bolso do rapaz trabalhador. Senti cheiro de sexo e cheiro de pudor.
Foi ali que vi a vida pela primeira vez , crua.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010




Por vezes fico possuída de uma tristeza.
Uma tristeza que seria quase bonita, se tristeza não fosse.
Entender o mundo me dói.
Me sinto abatida por essa tristeza quando, não sei de que modo,
essa tristeza de mundo me toma.
Entendo a existência até as vísceras e isso me complica. Percebo a gente que vive e a gente que existe, percebo e sinto e quase choro.
Quando sinto a vida, e quando entendo a vida, sinto uma dor todinha por dentro.
Viver dói.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

profissão poetIsa

O que eu gosto é de ordenar as palavras (que moram soltas entre as nuvens)
em versos que fazem sorriso e pensamento.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Eu ainda não sei.
Talvez eu devesse estar mais disposta, mais ativa, com mais vontade, com mais vontade boa e do coração.
Acho que eu deveria estar buscando qualquer coisa que se busca.Qualquer coisa que vejo todo o mundo buscar.Qualquer coisa que se fala que se deve buscar.
Eu deveria estar mais encantada e querendo mais. Eu deveria parar de falar e mais, eu deveria parar de escrever tanto que deveria.
Deveria atuar de uma vez.Atuar no sentido mais amplo de qualquer ação que não seja a de pensar e desenhar esses pensamentos em palavras.
Mas eu poderia dizer que estou cansada, que estou...
Mas não há nada.
Eu apenas estou esperando. Não sei o que espero e talvez eu espere apenas saber o que espero de tudo isso.Estou parada e pregada, sempre imersa em mil pensamentos que nem sempre fazem sentido, e que na maioria das vezes não faz.Estou aqui e escrevo coisas que não vão mudar nada, que não vão atuar no mundo inteiro e nem no meu e nem no de ninguém. Estou aqui inutilmente e escrevo sem saber a razão.Eu ainda não sei.Espero que não haja mal em não se saber ser.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Eu era um homem casado, sério e funcionário público quando conheci Dora.
Sempre que entro em uma crise profunda, vejo que dou pra entrar em lugares sem sentido, o que me constrange muito quando me vejo em alguma loja que não sei como entrei e, enfim, um vendedor vem me atender,e eu sempre tenho que inventar coisa.
Foi em uma dessas crises que conheci Dora.
Dora mora, não sei desde quando, perto da minha casa aqui no Rio de Janeiro, e eu estava voltando do trabalho quando a vi.
Desde que vi aquela mulher de olhos meio marejados de quem está sempre esperando, cabelos meio desalinhados e um rosto que não tem porquê,comecei a desviar a minha crise para aquele pingente de coração que ela carregava.
No trabalho, pegava-me com os olhos em uma loja longe em Copacabana, onde via Dora.Ninguém questionava minha distração momentânea que já era habitual.
Em casa, a mulher deu pra falar que não agüenta mais essa minha mania de dar crise de identidade e sair do mundo.Ameaçou separação, levar os filhos, voltar pra casa da mãe, e eu até ouvia mas,sinceramente, não conseguia reagir.Um dia cheguei em casa e não tinha mais ninguém.Talvez fosse a hora de trazer Dora pra junto de mim, pra ver se calava essa agonia de quem chega do trabalho de funcionário público.
Quando cheguei ao antiquário que havia conhecido Dora,ela não estava mais pendurada na parede.Ainda perguntei ao vendedor onde estava aquele quadro de pintura artística de uma mulher de olhos meio marejados de quem está sempre esperando, cabelos meio desalinhados e um rosto que não tem porquê, aquele quadro que fica perto do móvel provençal...
Vendido.
Eu deveria ter levado antes,mostrado à mulher, às crianças...
Mas como um homem casado, sério e funcionário público poderia levar Dora, uma pintura artística pela qual tinha se apaixonado pra casa?
Desde então vivo só.

domingo, 21 de novembro de 2010

Impressões

Eu vi uma mulher trocadora de ônibus com cara de que sorria pra sempre,
ainda mais quando dizia “Guanabara” de si para ela mesma.

Eu vi um homem no elevador que tinha cara de máquina,
ele parecia ter memória de tudo no mundo.

Eu vi uma mulher no vagão. Tão bonita, tão bonita e tão preta, que me deu vontade de ser preta também, que é pra poder me lamber e ver se tenho gosto, nas noites de solidão.

sábado, 20 de novembro de 2010

Um filme

E num futuro,eu poderei dizer que nos amávamos.E nos amávamos muito, com sede de orgasmos e saliva.

domingo, 7 de novembro de 2010

Já faz um ano.Não, faz mais de um.
Há um ano achei que minha vida começaria.De fato, começou, mas não como eu imaginava. Sustentada por alguma razão mais sólida que me levava a sair de casa pela segunda vez, achei que finalmente usaria dessa razão para buscar a outra:aquela pela qual sempre vivi e a única paixão que já senti no fazer da vida.Quando cheguei ao Rio de Janeiro, percebi.Não percebi, mas achei, me achei
velha demais, desabida demais para.O sonho acabou.Hoje não tenho mais paixão de fazer na vida,mas ainda procuro por.
Vivo de uma frustração de quem não sabe com o que se frustrar na vida,que tomou outro rumo, em uma vida sem rumo.Busco por um.

sábado, 6 de novembro de 2010

Meus planos

Virarei de leve meu rosto, de modo que eu fique ligeiramente de perfil para seus olhos, meu lado direito. Darei então um sorriso que mostre apenas a parte superior dos dentes e então olharei pra baixo, como que sem graça, e depois pra você, com um sorriso um pouco maior, torcendo assim o pescoço, como quem fica sem jeito. Tocará Dream a little Dream of me, e eu estarei com um vestido branco que faz roda depois da cintura e um coque na cabeça.
Desde já peço perdão por cada gesto meu meticulosamente calculado para atingir em cheio qualquer parte do seu cérebro nas imediações do amor.Trate isso como uma pequena travessura de uma menina que de tanto sonhar, gosta de nuvens.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

E no meio de tanta coisa que acontece, meu maior medo tem sido o de perder a inspiração.
Poderia,por isso,sentir latejando um egoísmo que,por assim chamar,seria todo meu.Mas não sinto.

domingo, 24 de outubro de 2010

Volto como quem busca sua essência. Volto para procurar uma menina.
Não sei bem o que quero, em todos os sentidos que compreende o querer.E talvez o que eu queira seja voltar ao útero.Encontrar-me nadando na posição fetal seria a melhor forma de me encontrar.Há qualquer confusão sobre paz e alegria em mim, como se, havendo paz, a alegria não se suportasse vívida.

No mais, essa semana quero comprar margaridas brancas para enfeitar meu apartamento.

Here comes the sun!

sábado, 2 de outubro de 2010

Às 03:00h

Alzhaimer é uma doença sem coração,
afeta o cérebro.
Que saudade dos meus avós,
que estão vivos e moram ao lado.

domingo, 26 de setembro de 2010

Às vezes dá doença do coração.
Doença de peito apertado, ou doença de amor não é tanta besteira como se diz.
Eu também já achei, em outro tempo, que era doença que dava em cabeça vazia, em gente abobada e de coração fraco.Mas hoje não.Doença de peito apertado vem que deixa a gente sem prumo.O estômago ouve o coração e fica sem fome.A gente fica meio tonta como se tivesse levado um sacode.O corpo fica meio molenga e com vontade de nada.O olho vai pra longe e a gente sente o coração bem fraquinho.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

E depois daquela briga, eu o vi na minha cozinha.
Vi duas crianças e vi que chegavam amigos, apesar de ser um dia comum,
em nossa casa que era arejada e entrava sol.
E depois daquela briga, eu vi que eu nos imaginava em um pra sempre.
Não sei se nosso pra sempre será de 8 meses, 2 anos, 7 anos ou 54,
mas foi bom vê-lo ali, progetado no pra sempre que criei pra mim.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Acredito na declaração como a materialização do sentimento.
Quem se declara, é porque chega a um ponto em que o sentimento começa a incomodar, pois chega a não caber mais tanto amor nem no cantinho no dedinho mindinho do pé.Quando o amor começa a afogar, é então que há de se declarar:
-amo você.

quem não se declara, não tem tanto amor assim pra se afogar.

sábado, 18 de setembro de 2010

memória

Há qualquer coisa que acontece a quem se perde.Sinto que caminho para um esconderijo em mim, sinto que perco qualquer coisa do corpo, qualquer coisa que se nota falta e que não é um fio de cabelo.Poderia ser um dedo, mas também acho que seja pouco.Caminho para uma mutilação e luto.Luto vítima de uma alegria difícil.Há qualquer coisa que acontece a quem se perde e eu perco.Não sei quando se deu,mas me encontro na esteira da mutilação que se aproxima.Eu me vejo indo aos poucos e isso tem doído fundo.É que se eu simplesmente não enfrentasse a fila para ser mutilada, e se perdesse assim, um braço,por acidente,em um de repente,acho mesmo que seria mais fácil de lidar.Mas vejo meu caminho.Escondo-me em mim como um bicho,como um mimetismo covarde.Mas luto.Tenho lutado, mas minha luta parece ser filha de uma alegria falsa.Estou emprenhada, estou grávida de uma tristeza e não quero que minha alegria vire lembrança.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010




E quando o mundo parece insistir em se mostrar nublado para mim,
umas lágrimas escorrem em silêncio
e moon river vem como me dá um beijo:
sou romântica.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

sábado amarelo

-Que dia é hoje?
-...
-Não! Não olha no celular, não. Hoje é de 68.hoje é... dia 20 de fevereiro! 20 de fevereiro de 1968, bota aí.

(...)

E dia 20 de fevereiro de 1968, em pleno 2010,
ela me disse que estava dando pra perceber, no ultimamente, que todas as pessoas que ela gostava, elas as via vermelhas.Que ela me via vermelha.Mas eu sou verde, vejo-me verde:

-Essa coisa de cor...É que todas as pessoas que eu gosto,tenho percebido:
eu as vejo vermelha.

-mas eu sou verde.

-ele, o moço,...ele também se disse verde...

-Então você é daltônica, meu bem.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Agosto

E desde então, todos os outros meses foram Agosto.
Quando ele a deixou e ela não sabia de todo sentimento que guardava em si,
quando ele a deixou, ela esperou por Agosto, quando ainda era Junho.
Ela passou a crer como quem passa a crer em Deus, que em Agosto, ele voltaria para ela.
Como quem entende, ela entendeu por assim querer entender, que ele a havia deixado por ela não morar ali ainda em Junho.Mas em Agosto, ela moraria, ele voltaria.
Agosto de quem chega, Agosto chegou.
Ela chegou, ele estava, eles não estavam.E já era Agosto.
E como quem crê em Deus, ela acreditava em Agosto, portanto, para ela,
desde então, todos os outros meses foram Agosto: o primeiro mês que ele voltará para ela, embora já estejamos em fevereiro.

domingo, 29 de agosto de 2010

Vivo de sentir saudade.
saudade da infância:
Vila Déa, colégio, pular elástico.
saudade de ontem:
risadas, bar.
Sinto saudade da Rural(muita),
de quem já se foi(saudade do bolinho de chuva da Vó Edith, das canções da Beta),
saudade de uma roda de violão na época de colégio,
saudade de uma paisagem de janela decorada,

saudade de um sonho
ou saudade de ter um sonho.

Vivo de sentir saudade, saudade de quando faz tempo
e saudade de quando escrevi esse primeiro verso.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Destino,Barra Mansa.

Rio, 24 de Agosto de 2010

Querido O,

Confesso que estou muito feliz por você estar feliz.Por você estar sendo correspondido por alguém de alma bonita, mas, principalmente, por você estar vendo o mundo colorido, que é o mais importante:
Isso é uma coisa de felicidade que é sua, só sua e só você consegue entender...
acho que chama amor.

Beijos de uma saudade louca,

Isa.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Displicência

Quando a vi se chamar por Teresa, parecia haver uma visão de coisa fora do mundo.
Quando a vi assim, de outono, como quem chega de cambaleio (coisa de quem se perde),
vi que precisava escrever.

É preciso escrever alguma coisa sobre pele.
Sobre qualquer coisa como uma displicência no jeito que gera uma beleza.
Eu não sei sobre esses dias que se dá na mulher
Essa coisa da fêmea de ficar meio tom pastel.
É preciso escrever alguma coisa sobre um jeito de andar meio lunático
Meio absorto em qualquer coisa que transcende, meio nuvem.
É preciso que se tenha uma beleza meio fora, meio ausente, meio
De quem se evapora
Estou vendo muita beleza nessa coisa toda de quem é.
Há de se escrever alguma coisa sobre displicência.

Teresa bonita, antes ligada, intensa, cheia de coisa com cor, alguma coisa a ver com sol e malemolência. De repente, Teresa meio pálida, meio displicente. Uma Teresa bonita, meio avulsa, meio volúvel, meio efêmera. Como se tivesse de pegar Teresa pela mão, se não pega, ela voa. Teresa pode me escapar toda, meio névoa.

Há de se ter essa beleza. Uma beleza de Teresa, uma beleza meio reticências, meio olhos no céu, meio displicente. Uma beleza meio erguida na melancolia. Qualquer coisa de triste.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Domingo

E então eu, uma menina de uma família de cinco, que tem três sendo homens viciados em futebol, reservei-me a missão de odiá-lo, visto que ele estava o tempo todo na família na casa na rua na chuva ou na fazenda.O futebol sempre foi o meu “barulho de domingo”.Eu associei, por muito tempo e talvez ainda, o domingo ao futebol, ou melhor, ao barulho, ao ruído, ao chiado insuportável de.
Apesar de tudo isso, sempre cultivei a vontade de ir ao maracanã. Eu falava que queria ver a energia, a muvuca, o tumulto, os gritos, as paixões tão solidificadas como parecia ser.
Foi então que como uma experiência antropológica, eu fui.
Além de achar bonito e emocionante, desde a entrada, até quando vai subindo pra arquibancada e se vê de fora aquela pontinha de um mundo de gramado, além de, há algo que preciso muito falar.
Estava eu no jogo, tentando entender o jogo pelas cores das camisas e tentando descobrir sozinha onde o time tinha que fazer gol, quando aconteceu.
O gol.
Eu não estava ali por um time, assim, de verdade...
Eu sempre falo que sou botafoguense para tentar suprir o trauma do meu pai em ter um filho flamenguista e outro tricolor. Mas a verdade é que eu nunca assumi um time, nunca amei um time, etc.
Eu estava na torcida (linda- desculpa, pai)do fluminense e, dessa forma, mesmo que eu não torcesse, eu tinha que fingir que.
Mas eu não fingi, eu torci (desculpa, pai).
Enfim, sem mais digressões: Eu tava ali no maraca, na torcida do Fluzão, vendo o jogo e saiu um gol.
Quando eu vi, eu tava gritando e comemorando. Acontece que eu senti.
Eu senti uma coisa muito delícia, não sei o que. Eu só sei que foi assim que eu entendi a paixão que as pessoas tem pelo futebol, pelo seu time, etc.É que a partir daquilo, eu passei o resto do jogo todo sofrendo e lutando muito pra sentir aquilo de novo.Eu só queria um gol, só isso.
Eu não sei por que eu queria um gol, não sei qual o fundamento filosófico ou social de um gol. Sei que um gol não vai diminuir a fome na África, nem vai ajudar na análise sobre os meninos de rua, nem vai fundar uma teoria sobre sobre sobre nada. Eu sei que eu não via função social no gol,nem nenhuma função de coisa nenhuma, mas eu o queria. Eu o desejava de uma forma mais intensa, como se tudo que eu quisesse naquele momento fosse só isso: um gol.
Era um desejo cru,e eu acabava achando isso muito bonito em mim.
A conclusão é que eu não sei se foi só uma experiência antropológica válida, se eu tô me rendendo ao futebol (droga, não quero!), ou se eu sei lá.
Eu só sei que ontem eu fui ao maracanã de novo, pra sentir de novo o que eu senti. E o flu fez três, e eu fiquei feliz.

sábado, 14 de agosto de 2010

Ana K.

Era uma vez uma menina que chamava Ana Karolina com K e por ser assim vivia de não gostar desse K desse nome que ganhou e que podia ser bonito com C: Carolina.
Apesar de ter esse mal de mágoa com o mundo, Ana Karolina não deixava de preencher meu coração com pequeninas alegrias em doses diárias.E como homeopatia, Ana K, foi me levando a um tratamento até que eu gostei dela por completo.
Hoje Ana K faz parte do meu pedaço no mundo.Hoje a batizei de Ana K.
Quem sabe ela gosta?

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Mas hoje me permito sofrer por amor, mesmo sabendo que há fome na África.

Quando meus pés cruzaram a portaria foram os mesmos que desceram o elevador e abotoei o último botão esquecido da blusa na hora que cruzei a porta, batendo-a devagar pra não acordar ninguém do apartamento que eu saí me despedindo com os olhos da telelista que fica em cima do guarda roupa e do livro TRO PI CÁ LIA que está em cima dos seus vinis.Porque foi antes do meus pés cruzarem a portaria que eu comecei a sentir a dor.
Foi quando ele começou a falar e não consegui mais me mexer.
Falência múltipla dos órgãos esclerose múltipla acelerada instantânea paralisia facial corporal.
Eu sabia que a dor era mental. Eu sabia que era psicológica.Cabeça. Cerebral.
Mas continuei ali,sentindo a dor. Eu queria sentir a dor como quem se pune. Opus dei de mim.Eu queria sentir toda a dor. Penitência física. Mortificação corporal.
De repente, o que era mental ficou tangível demais e eu já o sentia no meu corpo.
Ainda estava paralisada.
Eu não sabia onde doía. A dor produzida pela cabeça tinha sofrido metástase e eu não conseguia saber onde doía.Não tinha modo de estancar o sangue.Não tinha sangue. Era dor interna.E continuava paralisada.
Foi quando ele começou a falar que começou a dor e que não consegui mais me mexer.
Depois os olhos começaram a passear e eu comecei a decorar o apartamento, paralisada, para poder guardá-lo pra mim.
Eu decorei aquelas falhas na parede que tem ao lado da cama e também como o fio da luz vem do teto e chega ao interruptor por uma espécie de caixinha branca que deve ter por função social esconder fios.Eu decorei o apartamento e vi que no dia que comecei a sentir a dor, antes dos meus pés cruzarem a portaria, havia dois copos esquecidos sujos na mesa do computador.
Como quem se despede do apartamento.Como quem chora.
Eu não sei que dor é essa.Eu sei.

Eu sempre bati pé que problema na vida era morte ou doença.
Mas hoje me permito sofrer por amor, mesmo sabendo que há fome na África.
E dói.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Pão e renda

Quinco vivia de fazer pão.
Quinco acordava ainda de noite pra fazer pão.
Quinco não sabia que na vida poderia fazer outra coisa que não fazer pão que Quinco aprendeu de ofício com o avô que ensinou o pai e foi ensinado pelo bisavô e que foi ensinado pelo tataravô de Quinco.
Mas na vida, Quinco gostava de fazer pão.
Um dia, Quinco conheceu Julieta.
Julieta moça rendeira que de tanto fazer renda tinha os olhos bem miúdos pra modo de enxergar cada caminho que a agulha vinha de fazer dançar a linha no pano.
Julieta fazia renda a tarde inteira.
Julieta não sabia que poderia fazer outra coisa que não fazer renda que Julieta aprendeu com a avó que ensinou a mãe que não fez renda e por não fazer renda se perdeu no mundo como mulher que se perde mas que tinha sido ensinada pela bisavó que foi ensinada pela tataravó de Julieta.
Julieta, na vida, gostava de fazer renda.
Um dia, a avó de Julieta pediu a ela que parasse a renda, embora ainda fosse de tarde, pra modo de comprar pão pro café.
Julieta de olhos bem miúdos de tanto fazer renda, que gostava na vida, foi à padaria que trabalha Quinco, embora não fosse tão manhã que fosse noite.Era de tarde.
E Quinco conheceu Julieta
E Julieta conheceu Quinco.
E depois desse dia,
Quinco que vivia de fazer pão, passou a fazer pão pensando em Julieta.
Com a massa de pão ainda tão cedo que parecia até noite, Quinco imaginava Julieta.
Quinco amassava a massa com um amor conjugal que nutria pela moça. Um carinho no fazer pão no dobrar a massa no jogar farinha e alisar e no cortar delicadamente na tentativa de não ferir.Quinco sentia Julieta na massa.
E depois desse dia,
Julieta que vivia de fazer renda, passou a fazer rendas pensando em Quinco.
O jeito delicado de trançar a linha pelo pano. Via um beijo no encontro da ponta da agulha no tecido.Julieta passava a ver a cara de Quinco nos entremeios de renda, nas flores dos bordados. Julieta passava a rendar seu amor na tentativa de exteriorizar o sentimento que nutria. Julieta sentia Quinco nas rendas.

Julieta e Quinco nunca se falaram.
Mas depois daquele dia, a cidade passou a ter melhores pães e mais bonitas rendas.
De repente parece que tudo faz sentido.
Parece que tudo está no lugar que foi meticulosamente planejado para estar em algum lugar de um tempo que passou.
Parece que o universo agora se encaixa e começa a fazer sentido.
E assim sobre o sentido, digo que sinto os meus passos mais compassados e doces
em uma leveza que parece conduzir a um luxo radioso de sensações.
Sensações doces.
De repente parece que tudo ficou mais brando
suavemente a vida passa a se fazer sentir mais calma.
Se eu me permitisse descrever, tentando materializar, ainda que em palavras, essa sensação,eu diria estar envolvida por uma nuvem.
Uma nuvem com entremeios de uma transparência fina e delicada.
Uma sensação meio flor, meio gente. Meio nuvem,meio passarinho.
Meio grama, meio cheiro de grama. Meio corrida descalça na grama.
Acho que de tanto tentar descrever,encontrei a palavra para o que de repente sinto:

Harmonia.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

a sinceridade

Há dias em que a existência se torna insuportável,assim como a possibilidade de inexistência de mim, que se torna angustiante.
Há pessoas que.Há dias em que há pessoas que não suportam o ser.
Não sei se é coisa minha.Seria eu a única no mundo que, por vezes, não suporta o peso de ser? Há um quando em que não suporto o peso de me ser, ou de não me ser,visto que não peso. Convivo com essa falta de existência que, por existir, já me mata.
Nesses dias, enjôo de meus pensamentos,tenho náuseas secas com meu jeito, irrito-me com meus modos naturais.

E há dias em que eu, que costumo ver o mundo em flores, ou flores no mundo, canso-me de tudo isso.E mais, crio uma antipatia, talvez uma ojeriza pelo meu próprio mim.

A verdade é que há dias em que me acho insuportavelmente chata.

sábado, 10 de julho de 2010

Valsinha

Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

(Chico Buarque)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

eles



Nunca consegui falar de vocês sem que o texto se tomasse de sentimentalismo, pieguice e nunca consegui falar bem de vocês, no sentido de me expressar bem pra conseguir letrar essa coisa que sinto.
E agora sinto que vocês já vão embora e já sinto saudades. Agora sinto que vocês parecem, quase sempre, não estarem mais aqui.
Sinto um olhar vago, uma pele marcada,uma voz carregada e passos mais compassados.
De repente,parece que enquanto com vocês, meu mundo passa a girar mais devagar,no ritmo que a vida de vocês agora leva.Sinto saudade de vocês.Do vocês de ontem.Sinto saudade mesmo,e por sentir tanto sentimento assim,de medo,de um futuro sem vocês e de já sentir vocês ausentes de alma, e presentes só de corpo, é que sinto e sinto tanto e sinto muito.Eu achei que já havia me acostumado com a nova e pouca fala, com olhar parado,com as poucas perguntas, e com a vaguidade que tomou conta de vocês. E eu achei que havia me habituado e me contentado em dar um beijo, sorrir, falar uma palavra de carinho e ir embora. Mas não. Eu ainda não me contento e eu ainda não me habituei e eu ainda não aceito e eu ainda não suporto a idéia desses novos vocês, desses novos meus.
Eu sinto que não posso segurar vocês. Vocês são intangíveis.Vocês me escapam pela mão e vão embora pela vida ou pelo contrário dela.
Vocês estão indo e eu sinto.E eu sinto tanto que não consigo mais nada que não seja sentir.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

E, enquanto você falava, percebi que no seu braço esquerdo moravam cinco pintas pequenas dispostas em posições aleatórias e, aos poucos, percebi que elas formavam exatamente dois triângulos quase do mesmo tamanho.E eu, que nunca gostei de matemática, comecei a desenhar triângulos em você, enquanto você falava.Sei que seria mais bonito se eu desenhasse sorrisos, ou flores,mas talvez por falta de poesia eu só visse triângulos.Primeiramente, eu só havia visto quatro, e fiquei desenhando apenas um, com a quase triste sobra de uma pinta.Depois, por conta de você se virar rapidamente ou se mexer, eu vi que havia mais uma e, apesar de você estar brigando comigo, fiquei um pouco feliz, ou não diria feliz mas, sei lá, com uma sensação de enigma realizado.Agora, eu conseguia desenhar dois triângulos enquanto você falava.Foi assim que percebi que vivemos como em um filme.Em minhas lentes cinematográficas cor de marrom dos meus olhos, eu gravo cada detalhe.É como se a todo momento em que ali estou, eu estivesse decorando cada palavra, gesto, riso e cheiro,ou linhas e pintas do seu braço esquerdo.Decorando para visitar mais tarde, um dia, nos meus pensamentos.
...E assim vou vivendo,a te desenhar triângulos pelo corpo,enquanto você fala.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Mulher

Ele chegou sem perguntar meu nome.Apertou meu braço, me apertou toda. Não perguntou meu nome, nem função, nem nada.Ele chegou e resmungou sede e fome, bateu na mesa, pediu engrossado e comeu tudo ali na minha frente.Comeu como quem desbrava terra,abrindo, matando.Ele chegou sem perguntar meu nome e,na primeira noite, deitou ao meu lado.Ele chegou, me apertou, não perguntou minha função, resmungou e na quarta noite eu já dormia no chão e ele na cama.Ele chegou e me fez três filhos, bateu na minha mesa e pediu a janta, chegou tonto de botequim.Ele fede a cachaça cigarro mulher obra caminhão estrada suor.Não tirou retrato,não deu função aos meninos, não me acompanhou na missa nem na procissão.Ele chegou tomou minha cama, minha casa me fez três filhos ficou velho saiu voltou e ainda não perguntou meu nome minha função, nem nada.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sinto-me poluída. Suja de tudo que já li ouvi senti vi aprendi.
Estou exausta de tantas teorias teses doutrinas histórias análises.
Gostaria de me descolorir, de me deixar
branca.Pura.
Ou preta.Pura.
Estou exausta.
Preciso urgentemente me esvaziar me cegar me ensurdecer
Preciso desaprender escapar
Emburrecer
Preciso atingir uma linha paralela flutuante que me escape os pés do mundo e mais
Que me escape a cabeça do mundo.
Estou exausta.
Preciso virar um feto.
Um vazio.
Preciso virar um corpo mudo.
Uma pureza.
Preciso de um único som uterino.Preciso de uma placenta.
Estou exausta.

Esquece tudo isso,
a verdade é que estou com saudade de casa.

domingo, 13 de junho de 2010

E, ao te conhecer,
eu que era poesia,
fiquei toda prosa!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Uma menina de olhos livres

Hoje eu a vi lendo um livro.
Eu havia me oferecido para carregar a mochila dela.Ela não aceitou e, logo depois, vagando lugar, sentou-se bem na minha frente. Eu vi quando ela abriu a mochila e pegou o livro. Também já tinha visto seu colete, seu tennis e sua calça com cara de velha. Ela leu um pouco e eu vi que ela sorria enquanto lia.Depois, ela fechou o livro e, juro, ela falou umas três frases sozinha, fazendo caras e bocas. Eu notei também que ela tinha os olhos meio afastados um do outro, ou era o fato dela ser meio estrábica que me dava essa sensação.Eu vi que os olhos dela não iam os dois para o mesmo lugar e comecei a me questionar que tipo de força levava os dois olhos,de todas as pessoas do mundo que não ela,sempre para a mesma direção.
Enquanto eu vigiava os outros olhos do metrô, ela abriu um pote verde redondo, desses que a minha mãe guarda resto de comida,e tirou de lá uns biscoitos. Eu vi o jeito que ela comia. Ela comia muito feiamente.Seu jeito de mastigar não me deixava prestar atenção em mais nada naquele vagão.Comia com uma boca meio mole, parecia que a boca toda ia se desfazer, ia derreter com aqueles biscoitos.Voltando aos olhos,eles iam juntos,ou melhor, não juntos,mas iam se revirando descordenados sem ter a força comum dos outros olhos do vagão, buscando se coordenar com o derretimento da boca, ou não sei.

...Foi quando ela resolveu descer do metrô,e eu decidi que não havia mais ninguém para observar aquele dia, e preferi dormir até chegar na Central.

Mas os olhos, esses continuaram ali, no vagão.Enquanto ela foi embora,eles permaneceram ali,a desfrutar de toda uma liberdade vagabunda que os demais não têm.Eles continuaram ali no sonho de quem dorme com destino.
Olhos livres, libertinos.Cada um pra um lado, com seu destino, com sua vontade e com sua lei.
Livre-arbítrio.

E agora eu confesso,eu invejei os olhos dela.Olhos sem regras.Pareciam se comprazer no fato de serem diferentes, de não terem força alguma agindo sobre eles.Pareciam esnobar e rir ironicamente do resto dos olhos do mundo, todos cartesianos, resignados, andando juntos, quase marchando.

domingo, 23 de maio de 2010

Saudade,apesar de Saudade ser só o nome de um bairro de Barra Mansa.

Eu ainda prefiro ver Barra Mansa assim.
Como quem chega de ônibus virando ali na praça da Liberdade.
Naquele momento, eu vejo que tudo ainda continua intacto.
Como quem passa no corredor de vento que surge próximo a Igreja Matriz, mas antes de ali chegar, do outro lado da calçada, sente o cheiro de amendoim doce torrado. Como quem desce pela rua do lazer e,assim, como quem passa pela antiga Estação,e acha bonito de ver essa parte.Como quem desce, atravessando a linha do trem para chegar até o Parque Centenário e suas árvores e suas capivaras e seu lago e seu chafariz, mas não entra. Como quem olha de fora e é como quem decide se segue reto para tomar o melhor açaí ou se, após passar pela Biblioteca Municipal, pára e toma um café com as melhores carolinas de doce de leite na Palatos.
Se ainda não me canso,vou como quem estende a caminhada para atravessar a ponte dos arcos que me leva ao Sesc e aí,tudo se faz completo.

Eu vejo, sinto e sento.Vejo Barra Mansa. E sinto.
Sinto que eu ainda prefiro ver Barra Mansa assim.

Como o lugar que, mesmo que o mundo desabe atrás de mim, ao chegar, eu encontro um refujo.Um esconderijo. Eu vejo e sinto que mesmo que o mundo desabe, ela continuará ali, aqui.
O Chico Revolucionário continuará vendendo seus poemas na praça e só eu comprando, e a pipoca da Matriz sempre será a melhor, com ou sem queijo.Um pequeno mundo que se repete charmosamente.Uma vida que parece alheia não se importar com o os desabamentos da minha consciência. E que não importa o que acontecer, ela continuará ali,aqui.

Com o cheiro de amendoim, com a Estação, com as preguiças, com o sorvete de pistache da Mário Ramos e com a minha enorme Saudade,apesar de Saudade ser só o nome de um bairro de Barra Mansa.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

café.

E ela acordou para tomar o mundo feito um breakfast at tiffany's
e sabia que assim o faria:abrindo as janelas, sorrindo
e ouvindo moon river.
lento.
partindo de toda uma delicadeza compassada em forma de uma coreografia colorida de sonhos.
lenta.

"There's such a lot of world to see
We're after that same rainbow's end, waiting, round
the bend "

muito mundo pra ver,o mesmo arco-íris.
Eu não queria ser uma lembrança. Mas eu queria ser lembrada.
Eu queria ser lembrada, ser lembrança de cabeça de ponta da língua.
Eu queria sinapse na sua cabeça. Sinapse falando de mim.
Eu queria ser falada lembrada lembrança de Amélie de Isabelle de uma flor de unhas vermelhas de maionese de soja de soja com maionese de um filme de uma cor de um sorriso de uma palavra de uma mania de um jeito de uma história de um personagem de um gosto de uma cara. Eu queria ser lembrada. Por associação. Eu queria ser associada a imagens na sua cabeça. Na sua cuca.


Eu queria ser uma imagem pra você.Não só uma imagem,uma vitrine um símbolo, mas uma imagem.Eu queria ser uma imagem que se ligasse a algum conceito bonito. Inteligência dedicação essa tem um belo futuro na profissão beleza simpatia. Inteligência. Beleza.Inteligência.Beleza.

Eu queria ter sentido. Fazer sentido. Fazer. Ser. Ter.
Ser sólida.
Pra você.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

eight o'clock

Introdução: Praia Nublado Gringo Calçadão Caminhada Manhã

...E ela respondeu no seu inglês de curso:
-I've been walking here every morning at eight o'clock.
E ele disse:
-Oh!At eight, I have portuguese class... (em um tom meio vago de quem se lamenta)
E ela sorriu um sorriso amarelo de quem não se importa muito e foi...
Ele sorriu seu maior sorriso e decidiu que aprenderia português com ela.E nos dias que se seguiram, ele faltou para esperar ela passar.E esperou naquele banco naquele posto naquela praia naquele horário.
Mas naquela semana, um dia ela foi caminhar mais tarde e no outro dia choveu e no outro dia teve que levar o cachorro ao veterinário e no outro tinha que estudar e no outro teve preguiça e no outro, e no outro,e no outro dia também não foi.

Mas ele continuou ali, eight o'clock, todas as manhãs, porque era britânico.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Parece óbvio, mas não é:

Eu só posso ser aquilo que eu sou.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A viagem.

Eu vi um corpo.
Eu vinha em pé e eu não veria o corpo.Minhas costas veriam o corpo, mas um lugar vagou, e eu sentei e, sem saber, preparei-me para no futuro ver o corpo.
Vínhamos e olhamos como quem olha qualquer batida-acidente-obra que engarrafa e pára o fluxo dos automóveis tão cedo ainda para ter trânsito, e ao lado ele disse o trânsito daqui já está parecendo com o de São Paulo,e quando passamos e olhamos, eu vi.
Eu vi o corpo e ao lado ele disse tá embrulhado, e estava.Mas eu não pude deixar de ver os sapatos do corpo.Eu vi o corpo como quem vê uma maçã.
E depois, quando o corpo já se tornara passado, pelo trânsito e pela morte,eu ainda pensava.
Pensei no corpo que pela manhã calçou-amarrou-olhou aqueles sapatos.Pensei que eu poderia estar na van, pensei que eu poderia estar no táxi, pensei que eu poderia estar no corpo.Mas o corpo não mexeu comigo.O corpo não pode mais se mexer. O corpo está morto.
E o corpo que agora já não era mais alguém.Era um corpo, era embrulhado, tinha sapatos.Sapatos que eu vi.
Eu vi um corpo.
Eu acho que tenho vivido como um corpo, sem ser alguém, pois sendo corpo.

"Morreu na contramão atrapalhando o trânsito"

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Eu queria mesmo era ser artista
sem nem saber o porquê sou.

domingo, 25 de abril de 2010

E os dias passaram a se passar assim.Preocupava-se em desarrumar a cama para ter que arrumá-la.Comer para abrir o apetite e ter que gastar tempo com a louça.(Por vezes, até chegou a lavar a louça mais de uma vez, na cisma de achar que havia uma mancha, gordura grudada, cheiro estranho.)
Dormia para ter que acordar
e gastar um tempo de reconhecimento da casa.Móveis cheiros lugares.
Ia à cozinha, virava a jarra d’água em um copo.Tomava.Sentava para tomar.Quem senta sozinha em sua própria cozinha para beber apenas um copo d’água? Mas tudo fazia parte da espera.Depois gastava um tempo com o banho, arrumava-se.
A espera:
(Desde que havia discutido e se privado do contato com os vizinhos, além da caixa de supermercado – trinta reais, senhora. Aquele era o contato mais próximo com a função de receptora da linguagem.)
Ela não sabe quando essa espera começou mas, sem sentir, por causa dela, passou a jantar mais cedo.Assim, dava tempo de lavar a louça, ajeitar a manta no sofá e, finalmente, ouvir:
-Boa noite!
Ao ligar a tevê, no jornal.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Alô?
Oi, sou eu.Eu não sei porque tô te ligando.Eu acho que.É que. Já era pra eu ter te ligado há tanto...Eu ando aqui à toa, tenho lembrado de você.Queria saber se está tudo bem, se sua filha continua morando em Portugal e se você continua com aquela saudade toda pela sua neta.Não sei.Acho que queria saber também se você ainda tá trabalhando, se está no mesmo lugar.Talvez eu te faça uma visita.Eu deveria ter feito essa visita há um ano, pra contar as novidades. Eu já mudei e já mudei de novo.De cidade, de faculdade.Não, de curso não.Você nunca me aconselhou no curso, talvez eu devesse ter perguntado.Alô?Você ta aí ainda? É. Queria saber se você ainda compra aqueles saquinhos de amendoim, não pra comer, mas pra ouvir o barulho e lembrar da sua amiga que morreu. Desculpa, mas é que eu nunca consegui esquecer dessa sua história.Ainda lembro dos seus olhos atrás da mesa, contando.Então, eu tô bem.É. Acho que tô sim.Então, vou desligar. Só queria dar um “alô” mesmo. Sei lá. Um oi. Saber se você tava bem e como vai a sua vida.É. Acho que vou desligar então.Beijo, Tcha.Ah, eu queria dizer que você. Você. Que eu gosto de você. Sempre gostei.Acho que.Deve.Deve ser por isso que senti vontade de ligar.Eu acho.É.Então.Então tá.Beijo,tchau!

domingo, 11 de abril de 2010

"os seres humanos me assombram"

A verdade é que há momentos de exaustão.
Surge em mim um cansaço muito grande provocado por sucessivos desapontamentos com a raça humana.
Raça essa, que não deixa de ser bonita, viva, colorida, ativa, interessante. Mas hoje, hoje não.
Hoje estou ainda um pouco intimidada por pessoas. Sinto-me acuada em uma redoma de razão, de várias razões e conceitos rígidos que criei para um abrigo todo meu.
Um abrigo que hipoteticamente me conforta.Não, não conforta.
Estou nutrindo um certo desdém por ser gente.
Por ser. Pelo ser. Pelo humano. Pelo pessoa.
Acho que vivendo, deve ser uma das piores sensações.
Nutrir desdém pela raça humana e ser humana é nutrir desdém por si,
é um soco no espelho.
Mas reconheço que cada decepção tem uma carga de culpa pessoal.Sendo humana, faz-se normal acreditar nos outros, confiar, dar a mão e, dentro disso, cria-se uma expectativa de correspondência sentimental.
Mas sentimento não se mede. Nunca se sabe se as paixões e os amores se equivalem ou,pelo menos, aproximam-se.Nunca vai saber.
Coisas que não existem de forma tangível como o sentimento, ou como a dor não entram em escala de medida.
Cada dor é única, cada sentimento é inédito no mundo metafísico das dores, ou dos sentimentos.
A verdade é que há momentos de exaustão.E esse é o meu.
Assombrada pelo humano, surge em mim um sentimento de me animalizar, de me zoomorfizar.
Trancada em minha mente, esquecer o código da linguagem. Parar de falar, de pensar, de escrever.Viver instintivamente. Sem hipocrisias, sem tentativas de sorriso,
sem ser gente.Ser bicho.

Março

Acho que por conta de estarmos nos falando e nos vendo menos.Acho que por conta da saudade. Acho que por conta da minha falta do que fazer em pleno mês de março.Mas eu não sei mesmo se por conta de tudo isso, porque foi algo que eu sempre gostei de fazer, independente de nossa freqüência, da saudade ou do mês de março.Talvez fosse um modo de eu sentir de forma concreta a força que as coisas tem pra acontecer, quando elas têm que acontecer.Gosto de lembrar a forma que se deu de nos conhecermos e traçar todos os caminhos paralelos, os possíveis caminhos que poderíamos ter feito para não nos encontrarmos naquela rua. Havia tanta coisa pra se fazer naquele dia e, se fôssemos exatamente pro mesmo lugar, não nos conheceríamos.Acho bonita essa coisa de traçar os fios, lembrar as histórias, as falas, as sensações. Eu sou tão repetitiva. Eu não sei por conta de quê caí nesses pensamentos. Eu tava lendo um conto bonito, que achei bonito e que me lembrou você.Não tinha nada a ver com você, mas me lembrou você. Acho que por conta de estarmos nos falando e nos vendo menos.Acho que por conta da saudade. Acho que por conta da minha falta do que fazer em pleno mês de março.Mas eu não sei mesmo se por conta de tudo isso, porque foi algo que eu sempre gostei de fazer, independente de nossa freqüência, da saudade ou do mês de março.

Volta às aulas

Morar sozinha é descobrir que o leite não nasce na geladeira.
Na verdade, ele nem nasce.
Morando sozinha, descobre-se que o leite, na verdade, vem da vaca, que mora em um lugar distante, bem distante da cidade grande,onde predomina o verde, a chamada fazenda.
Na fazenda, há profissionais encarregados de tirar o leite que não é para alimentar os bezerros, mas nós. O leite é tratado com os devidos processos (desconhecidos por mim) para torná-lo "industrializado" e, depois de embalados em saquinhos, caixinhas, latinhas, ele é levado por um caminhão aos supermercados. Lá nos supermercados, eles ficam nas prateleiras para as pessoas que moram sozinhas comprarem, ou os papais, vovós e titias de quem não mora sozinho os encontra e troca pela moeda corrente local. Eles levam o leite para casa e o colocam na geladeira, onde as pessoas que não moram sozinhas vão achar que ele nasce.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

pretérito imperfeito

Com os olhos que se olhou no espelho, sentiu o perfume que borrifava em si.Olhou suas mãos magras e brancas de quem já perdeu o colorido do sol.Sentindo um cansaço ainda de quem fica na cama depois das dez, saiu.
Olhando o sinal que fechava o carro que passava o moço que vestia azul a gravata que combinava a velhinha que atravessava o garoto que pedia esmola (em pleno cartão postal) a mulher que corria o homem que bebia o sol que tostava o garoto que roubava (em pleno cartão postal) a grávida que sorria o corpo que se despia a criança que pulava a onda que batia a mãe que gritava o caminhão que freava o ônibus que atendia.Sentia.Amava.

sábado, 27 de março de 2010

Poesia marginal

Era uma vez o Hiato Criativo.
-Eis aqui um espaço em branco:








.melhor representado pelo meu cérebro.

sábado, 13 de março de 2010

Morna

Às vezes sinto que não vivo. Queria tanto viver...
Queria viver muito, o tempo todo. Queria me manter viva, estar viva.
Eu queria ser intensa, entregue na vida. Eu queria
ser
o tempo todo.
Eu queria ser excessiva.Cansar de mim.Eu queria ser toda excessos.
Eu queria ser profunda, intensa.
Queria gritar, ou ficar totalmente muda.
Eu queria amar amar amar amar. Odiar odiar odiar odiar.
Eu queria
estar
quando sou.
Mas eu tenho sempre a impressão de que apenas vagueio. Flutuo.
Eu tenho sempre a impressão de ser transparente.
Volátil, sinto-me um vapor, um gás,
no qual ninguém consegue tocar, pegar, com quem ninguém consegue estar.
Sinto ser em todos os lugares e não estar nunca.
Sinto estar em todos os lugares e não ser nunca.
Sinto estar diante de uma vitrine de mim.

terça-feira, 9 de março de 2010

Mas não tem jeito, meu bem.Chega uma hora na vida em que a gente tem que ser feliz, é inevitável.

Angústias compõem a vida. Não existe vida sem angústia e, quando há fases sem elas, é necessário tirarmos das mangas de camisa algo que nos angustie, nos questione, nos inquiete. Eu, pelo menos, sou assim. Pode ser algo como uma patologia, um masoquismo na alma, um nó na cabeça, mas eu sou assim. Guardo dentro de mim o que chamo de “conflitos-chave”, algo como questões fabulosas para eu me torturar, questionando, quando minha vida estiver em boa maré.
Naqueles momentos em que tudo estiver dando certo, tudo se arranjando e, então,bater aquele medo de,de repente,acontecer algo muito ruim, uma grande tragédia,enfim, nessas horas então eu vou e me consolo.Consolo-me justificando que ainda tenho muitas angústias na vida, muitas dificuldades. Vou lá e puxo os tais conflitos, para passar dias pensando, dias sofrendo, até aparecer algo maior e eu guardá-los.São questões que talvez eu saiba que eu nunca vou definir, nunca vou resolver. O tempo talvez vá passar e talvez elas se resolvam por si,tomem outro rumo, aí então,eu as buscarei pra sofrer do arrependimento. Mas o fato é esse : não sei se baseada em mim, mas eu creio que o ser humano tem essa necessidade de sofrer, nem que seja em pequenas doses de angústia própria, sofrimento mental, situações hipotéticas. Quando não se sofre “de verdade”, ou seja, passa-se fome, tem doença, morte de alguém amado, entre outros, cria-se.
Cria-se dor pra alimentar o viver.

...Mas não tem jeito, meu bem, chega uma hora na vida em que a gente tem que ser feliz, é inevitável.
E olhou pela janela
E percebeu que havia conquistado

tudo

o que queria:
letra, par, música, domingo,lugar, sorriso.

O que querer depois do tudo?

quinta-feira, 4 de março de 2010

o segredo

Possuía-se de uma alegria filha única, uma felicidade que morava toda em seu peito de uma forma ímpar. Ia andando como se cada passo fosse conduzir ao próximo segundo de êxtase da sensação. Não sabia de onde vinha, mas o riso a tinha toda por dentro.Seu corpo detinha uma radiosa energia luxuosa no meio da rua, o que provocava ser quase pedante a situação: Como poderia uma garota ali, sozinha, no meio da rua, sem motivo,ser dona daquele sentimento todo ?
Ao cruzar a esquina, viu-se mal iluminada na rua que ficava deserta ao passar das sete e um pouco depois de sair da sombra da árvore, em um trecho mal pegado pelos postes, ela não resistiu.
Ali sozinha, vendo ninguém, ela sorriu.
Como se sorrir sozinha, no meio da rua, fosse um ato clandestino. Como se a fossem julgar louca ou doente. Ela sorriu como quem cometia um crime, como quem amava em segredo, como quem abafa um suspiro.
Sorriu pra sentir.
Sorriu pra denunciar toda essa felicidade.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Por alguns dias perdera o viço.Empalidecera assim de cara. Meio amarela. O corpo não obedecia com tanta destreza, pesado.
Os peitos pareciam carregar duas pedras.A barriga, uma.
Pesada.Mole.De repente, veio uma dor meio funda contornando toda a região abdominal, e ela se contorceu na areia.Sentiu entre as pernas,um líquido quente.Passou a mão, era sangue.Julieta criada sem mãe e sem avó achou que iria morrer.Ainda sem agüentar muito o próprio corpo correu até uma antiga venda abandonada e se deitou.Deitou e esperou a morte.Sangrou, sangrou, sangrou. Por três ou quatro dias ficou ali. Parada. Deitada, sangrando e esperando a morte chegar. Sozinha. Sem mãe, sem avó. Mas Julieta não morreu, e depois parou de sangrar, voltou à lida.



Há algum tempo se sentia meio estranha. Mas Julieta não se preocupava muito em sentir.Ela não sabia muito bem o que era sentir.Mas naquele dia começou a sentir uma dor muito forte.Dor, Julieta sabia o que era, e que sentia. Por alguns dias perdera o viço. Empalidecera assim de cara. Meio amarela. O corpo não obedecia com tanta destreza, pesado.
Os peitos pareciam carregar duas pedras. A barriga, uma.
Pesada.Mole.De repente, veio uma dor meio funda contornando toda a região abdominal, e ela se contorceu na areia.Sentiu entre as pernas,uma coisa.Fazendo força, urrando, suando, sentindo, sentindo, Julieta sentia.E de dentro de Julieta, saiu uma pessoa, uma criança nascida.Sozinha.Sem mãe, sem avó.Julieta sentiu, e depois parou de sentir, voltou à lida.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Branco

Adoro ficar parada ouvindo o som do silêncio.
E os sons que rasgam o ar.
Como uma única mosca que sozinha está a 1 km de mim.
Como o ar sendo empurrado por um ventilador distante (De onde vem o vento?)
Como o som da minha voz sussurrada que cutuca o ar e rasga o silêncio.
Adoro ver o silêncio.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sobre dois

(para Filipe Alves e Jaisah Farah)

De repente, ainda vejo aqueles três jovens ali.
Naquela noite, escolhemos o escuro pra nos despir.
Quando vi, assim , de longe de mim,estávamos nus de alma,sentados, parados, falando.
Ela não parava de fumar, eu de chorar e ele de falar frases alternadas com risadas nervosas.
De repente, falamos tudo. Tudo o que nos continha.
O que nos continha,nos freava.
O que nos continha, o que tínhamos dentro de nós.
Três costas olhando pro nada.Não lembro se tinha lua, mas era noite.
Hoje eu sinto muita falta de vocês.Às vezes me pego achando que vocês foram duas das maiores razões por eu ter parado naquele lugar assim, pela vida.
Hoje vejo cada um indo pra um rumo diferente,
mas ainda os vejo ali, os três
parados
chorando,fumando, falando
e amando.


Amo vocês,
beijos, da Isa mongol.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

15 de fevereiro





Segunda-feira de carnaval.
Ainda a imagino assim. Linda.
A mãe,uma personagem cigana, no meio dos foliões, sente a contração.
Pára.E Pari.
Pára ali e nasce ela.
Eu ainda a imagino assim. A mãe estirada no chão, com
uma languidez de quem traz gente ao mundo.
E ela,
saída de uma vida, para outra.
Entre confetes, entre serpetinas.
O mundo que resolveu fazer para ela uma festa.O carnaval.
O mundo que criou música digna dessa festa. O samba.
O mundo que há anos e mais anos
festeja muito mesmo antes de ela nascer.
Pode ficar bonito se pensarmos que
o mundo faz essa festa há muito esperando o dia em que nasça dela, Ela.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

De fevereiro

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

(Carlos Drummond de Andrade)



Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim.

(Chico Buarque)




Quando eu nasci, não veio anjo nenhum.
Era fevereiro e
tavam todos pulando carnaval.

(Karol)

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Peixe

Silenciosamente e devagar escrevo
pra ouvir o som da caneta (preta) riscando o papel (branco). Dessa vez, escrevo.
Ainda não lembrava do prazer que as fitas me traziam.
Foi portando meu malabares laranja laranja que subi ao céu.Meu céu.Meu céu com chão cimentado.O telhado do meu quarto, o princípio dos meus sonhos.

(Calma!Escreva mais devagar para que eu possa notar as curvas dessas letras femininas e a sonoridade da caneta que risca.)

Lá fiquei. Fiquei até que a próxima música que tocasse,aleatoriamente, decidisse meu próximo destino.
Lá fiquei até que aparecesse, ou até que eu visse, a primeira estrela daquela tarde.
E foi bom perceber que em mim ainda mora uma menina doce, que olha estrela e chora, abaixando a cabeça assim de lado, sorrindo chorando.
-Au revoir! - disse a menina, que mora em mim, às nuvens.
E mais tarde foi ver o corpo colando molhado no azulejo.
E mais tarde o caetano cantando sobre samba, sobre amor e sobre até mais tarde.
E então caiu de cansaço, sorriu, e dormiu.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

hoje, sem poesia

Eu queria nunca ter ido pra Rural, assim eu não sofreria tudo que eu sofro com a falta dela.
E abdicar de todos os prazeres que me foram dados lá?E abdicar de tudo e todos que conheci e das experiências que tive?

Eu não sei, merda, eu não sei.
Eu não sei e estou cansada de minhas próprias perguntas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O corpo mudo.

"Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu." Nelson Rodrigues.

-Sabe, eu ouvi uma frase do Nelson Rodrigues esses dias que me fez pensar uma coisa...
-Qual?
-Não lembro, mas era alguma coisa como o rosto é indecente, o corpo não é...
Eu tava até conversando com o Filipe depois, quando ouvi isso.Eu acho isso muito verdade.O rosto tem muito mais chance de variação do que o corpo.O corpo tá ali. Tirando as variações dos dois sexos, só muda a cor e se é mais cheio ou menos cheio.
-Claro que não, Isabela. O corpo pode variar muito também. Tem gente que tem mais peito, menos peito, quadril maior, barriga caída, perna grossa...
-Eu acho, portanto, que seria válido usarmos miniburcas, assim, de forma que só cobrisse o rosto. Como se a roupa ao invés de ser no corpo, fosse no rosto. E andaríamos nus...
-Nossa, que cena linda, heinh?
-Não, não. Eu acho que teríamos que usar cueca e calcinha também, por uma questão de higiene.Afinal,ninguém fica esfregando o rosto em cadeira, né?
-Hahahahaha. Que idéia louca! Eu ainda acho que o corpo varia...
-Tá, pode variar. Mas o corpo não seduz. O corpo não é nada. O corpo fica ali parado, sem identidade. O corpo é só instumento. Ele não fala, ele não envolve. Ele é cru.Ele é morto.
-É...Tem gente que fala com os olhos, né?Em compensação, tem gente que não fala nem com o rosto.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

"-Apenas não se esqueça do que aconteceu ao homem que conseguiu ter tudo o que desejava...
- o que aconteceu?
-ele viveu feliz para sempre."

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sem

Hoje eu não quero discutir política,
não pretendo saber sobre as desigualdades sociais,
nem se quero ter alguma atividade missionária de preservação das aldeias do Xingu nos próximos 5 anos.
Hoje não tô no clima de tentar entender Foucault,
e só por hoje não me importo se os responsáveis pelo vazamento de óleo na Baía de Guanabara não foram punidos. Hoje eu nem sei mais se crime ambiental prescreve ou não.
Acordei sem vontade de me culpar por não ter posição política definida
e evito saber tanto da grande enchente de Barra Mansa ou dos desastres no Haiti.
Hoje não vou chamar a humanidade toda de hipócrita e não vou condenar o cinismo.
Não vou procurar saber se o Joel Santana vai dar conta do Botafogo, mesmo com o time tão ruim.
Não tô com saco pra ser politicamente correta e talvez eu até jogue lixo no chão.
Não quero nem saber se o aquecimento global existe ou é uma teoria da conspiração e se o homem pisou na lua.
Não vou crucificar a Jovem Guarda nem nenhuma outra música da década de 60 e 70 que não tenha conteúdo político.

Hoje vou sentar aqui, tomar uma cerveja e ouvir um samba, ou até mesmo ouvir o Roberto.Porque hoje, nem odiar o Roberto eu vou.

sábado, 30 de janeiro de 2010

O pedido.

Adoro quando ela chega assim de manhã.
Uma morenice lavada de cara e de corpo. Um cheiro de banho, os cabelos molhados de uma água fria.
Adoro quando ela chega assim, com roupa de casa, ainda de chinelas. O cabelo meio sem jeito, a cara meio de sono.
Chega, aperta os olhos, às vezes torce a boca como que fazendo movimentos pra lembrar o pedido que me faz todos os dias igual:

-três pães, por favor.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Eu estou mesmo mobilizada por uma tristeza única, de música suave.

Escrevo agora pela angústia que me toma o peito.
Ainda me preocupo muito com o envelhecimento dos meus óvulos enquanto o mundo gira.
Uma mulher que sonha ser mãe e sonha mais.Sonha um mundo.
Enquanto eu fico sonhando, espero a hora de partir. Enquanto eu fico fantasiando coisas que só existem para mim, o mundo continua existindo e eu não me dou conta.
Vivo encenando uma vida só minha, sem público, sem platéia. É triste. Choro. Escrevo para me desafogar. Não sei quem lê. Só sei dessa minha angústia em querer assistir o mundo de fora.Só sei desse meu medo de viver e, ao mesmo tempo, essa vontade louca de tê-lo todo sobre meu domínio.Desvendar cada canto dele,só,sozinha, e acompanhada.Não sei bem do que falo e, nesse momento, as coisas se confundem. Os papéis, os idiomas, as cenas. Acho que hoje não é um dia bom para mim. É dia de fazer o carro morrer.Não são os hormônios.
Eu estou mesmo mobilizada por uma tristeza única, de música suave.
Ouço uma menina chorando de soluçar dentro de mim e não a consigo encontrar.O choro me persegue e eu preciso achar esse fio de choro pra entrar nesse ritmo e me desafogar, junto com a menininha.

Vim parar no mundo sendo menina com um olhar triste.
Desde menina, um olhar triste.
Com o tempo fui aprendendo. Aprendi a me fantasiar.
Então foi assim. Aprendi a acordar e vestir a fantasia como fosse mesmo um personagem.Assim, dia por dia, vestindo uma fantasia pra viver cada vida.
O colorido e as flores vem como uma forma de desviar a atenção de quem vê aqueles olhos que são tristes. Aí vem o cabelo comprido que enlaça, embaraça pra distrair e dar a intenção de leveza. Tudo calculado para parecer e disfarçar os olhos.
Os olhos. O olhar triste.
...Mas há dias em que a fantasia não cabe.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Amarelo

Como quem bebe um aguado suco de caju precisa lembrar que a água suja que bebe é caju, eu precisava sorver aquele dia, imaginando que era um dia bom.
Fingindo.
Mas eu tô cansada demais de colocar a jarra de suco de caju desbotado em uma parede branca para ver que ele é amarelo,que é de caju, e não é uma água suja apenas.
Beber pensando que bebe caju. Cansada.
Eu quero o amarelo manga, mesmo odiando manga.Porque se,ao menos, o suco fosse de manga, ele seria algo no meu mundo. Ele seria algo para eu odiar. Se aquele dia não fosse tão desbotado, e fosse manga, eu seria capaz de sentir algo por ele.
Mesmo que fosse o ódio que sinto pelo gosto da manga, mas não por seu amarelo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010


No meu dicionário, a fotografia é o método de eternizar sorrisos.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

le petit prince




-Por favor...cativa-me! disse ela.
-Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo.Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
-A gente só conhece bem as coisas que cativou,disse a raposa(...)
-Que é preciso fazer?perguntou o principezinho.
-É preciso ser paciente, respondeu a raposa.Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim,na relva.Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada.A linguagem é a fonte de mal-entendidos.Mas, cada dia,te sentarás mais perto...

No dia seguinte o principezinho voltou.
-Teria sido melhor voltares à mesma hora,disse a raposa.Se tu vens,por exemplo,às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz(...)

domingo, 17 de janeiro de 2010

Ressaca.

Por que você teima em ser assim, garota?Por que você é teimosa em se evitar?Você, que parece viver em uma redoma como a Rosa de Bela.Nascida incompleta parece viver e tendendo a nunca se completar.Uma incompletude completa para sempre será?Menina bonita que se evita, por que chora?Você não tem o direito de chorar, porque não se dá o direito de sofrer por amor.Se esquiva, arisca.Foge, some,escorrega.Vai viver triste. Teimosa teima em traçar destino futuro criança cachorro sotaque.Uma coisa que acontece na cabeça e desce pro peito,pressionando o coração que não sente, em sua função única de pulsar o sangue.Uma angústia que mata o peito da menina que sofre por não conseguir sofrer de amor.Que será feito dela então?Singularmente uma fria carinhosa que passa pela vida e não a entende. Quer um par e não consegue se entregar. O que a trava? O que a faz chorar tanto sem saber, coberta de uma tristeza bonita de músicas de lamentos de peitos de frases...Por que ela teima em procurar pra não achar?Por que ela não sente, mas procura tanto a solidão? Que medo há?Que arte há nisso? Tão calma cansada de calma.Ela se acha atriz, uma estrangeira fazendo seu papel na própria vida.
O filme é triste.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Tempo de Alice.

Alice aos três já mostra espírito aventureiro quando
solta da minha mão para descer as escadas
sozinha
Alice tem o cabelo amarelo e os olhos pretos de cílios
gigantes parecendo um bicho
mas em Alice fica lindo.
Alice fala paia, porque não fala r ainda,
mas fala em alemão quando nervosa.
Ela tem um peixe laranja e escolheu dar de presente ao padrinho
um carro ou um interruptor.
Quando apertada, faz xixi de cadeirinha no meio da rua
e depois me pergunta por que é que o menino que dorme na rua está sem chinelos.
Eu e Alice sentadas tomamos picolé no sol.
Alice disse:
-É tão bom que até dá vontade de sorrir, né tia Isabela?

domingo, 10 de janeiro de 2010

Recado

Ela lhe deixou um recado pregado pelo canto na ponta do papel na cortiça.
Eu li e senti. Assim dizia:

"Saudade enorme de conversar com você.Conversa do tipo
fiada, afiada ou sem fio.
Às vezes parece que a linguagem do mundo tá escrita em Mandarim ou
sou ruim de ler."

Ele disse..."poética", sem nem pedir licença.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Patuá

Eu que não creio em astrologia,
combinação de estrela
e acho que planeta não tem casa.
Eu que não acredito em horóscopo,
bruxaria, magia, psicologia, homeopatia,
subversão.
Eu que não faço pedido a santo, não faço promessa,
não deixo trabalho em encruzilhada, não peço,
não rogo, não ajoelho, não faço mandinga.
Eu que não faço figa, não uso patuá, não entendo mapa astral, não vejo aura.
Eu que acho que energia, só elétrica.
Eu que não pulo sete ondinhas,passo debaixo de escada, tenho em casa gato preto
e saio pra dançar em sexta-feira 13.
Eu que tudo isso que sou,
de repente, fiz pedido à estrela que me desse você,
e pulei onda, e rezei bem forte, e coloquei flor pra Iemanjá, e comprei pimenta,e pedi 7 vezes:
você você você você você você você.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Uma ponta de nó de céu


Do Drummond pra Fabi, da Fabi para mim, de mim para você, com beijos:

"ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com
margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado,
saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem
passe debaixo de sua janela.
Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse
repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a
dizer frases sutis e palavras de galantearia."

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O Natal de Dois Mil e Nove.

E foi com uma trança de Dorothy que passei minha manhã de Natal. Após ela me trançar toda os cabelos, foi colocada uma fita verde no fim, como para combinar com o vestido.Achei bonito ficar assim.Foi como se eu fosse uma história.
E foi esperando e falando de Ana que passei meu Natal.
E, após tanta melancolia que a data me trouxe,
foi com votos de pessoas que aparentemente parecem que se perderam de mim, mas que aparecem para parecer que jamais se perderão, que fiquei bem, em paz.
Eu, minha trança e meu laço verde.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Falso Leblon, Big Brother, tô fora do ar.

Eu tô no meio do espaço. Eu tô em lugar nenhum.Eu tô em um ponto no meio.Eu tô em um lugar que não existe, onde nada existe. Nem a minha dor, nem a minha alegria. É tudo beirando o transparente. E eu ali, flutuando no ponto que não existe no meio.Eu não existo?eu existo.Eu sou transparente?eu sou transparente.E eu tô parada, tentando existir. Mas só meus pensamentos parecem existir para me atormentar no meio do não existe.Mas se nem a minha cabeça existe,de onde eles saem, pra onde eles vão?E de onde saem essas minhas tantas perguntas aqui?
Aqui . (No ponto) . Parece que só existem meus pensamentos tortuosos e transviados e o Caetano. O Caetano nunca mais parou de cantar no lugar que não existe.Canta também uma dor que não existe mas que, no meio do nada, enche meu peito de angústia.
Todo mundo foi embora e eu fiquei aqui. Em um lugar que não existe, no meio, em um ponto.flutuando,
mas nada disso existe.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

F o i...




Foi Caetano, foi Rio, foi lago, foi Lapa, foi Rural, foi um amor por Barra Mansa, foi mãe,foi amizade, foi saudade, foi Largo,foi criança, foi paixão, foi Mutantes, foi floresta, foi capitu,foi esfiha com açaí,foi figueira,foi piano, foi fugir de casa, foi retiro espiritual,foi Vassouras,foi Antropologia,foi descoberta,foi pedra, foi dor,foi Morada Universitária, foi biologia, foi ciências sociais,foi linha amarela, foi medo,foi angústia, foi desejo,foi negro,foi sonho, foi filtro dos sonhos,foi mato cachorro e gato, foi falta d’água,foi vinil, foi ônibus, foi ônibus, foi ônibus,foi óculos vermelho, foi rosto vermelho, foi unha vermelha, foi vermelho, foi vermelho,foi pérola, foi banheira,foi Rocinha,foi presente,foi pai,foi louça,foi crise de identidade, foi sem razão, foi excesso de emoção,foi mangueira de gás,foi palavra, foi letra, foi cor, foi cor,foi literatura francesa,foi bolinha de queijo grudada na parede,foi Direito ou foi justiça?, foi Wilson Simonal,foi cerveja, foi cerveja, foi encontro, foi desencontro, foi Cinelândia, foi Santa Teresa, foi bonde,foi você, você, e você, foi ou não. Obrigada.

Foi o meu mil novecentos e sessenta e oito no ano dois mil e nove.
Foi o meu ano que não terminou, e nunca mais vai terminar.
Esse foi o meu ano da revolução. Das loucuras. Dos delírios. Das cores. Dos berros. Dos nervos.Das recompensas.Das manias. Das noites.
Esse foi o ano de me (re)conhecer. De me perder e de me achar. De partir e de ficar.
Esse foi o ano de ficar normal, ou anormal.
Esse foi o ano de
ser
(tudo)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Novos Baianos Velhos




"Mais perto do seu som. No seu mundo sobreterrâneo.
À beira do abismo. Por fora de "ismos". Na porta. Varrendo o terreiro. Lavando os pratos como quem faz música. Sem prantos, na fonte, na boca da criação.
Na terra, moramos num sítio.O cantinho do vovô. Tudo como no sonho do meu avô. O sonho do homem - baiano 100%: a casa cobre da chuva, na rua me faço, me vivo e levo você. Na rua me mato tranqüilo, porque não sou menino. A bola já está comigo e os dois beques colados às minhas costas me obrigando ao drible. Eu vivo disso, sou garrincha por convicção. Sou Tostão pra não me machucar. Não há filosofia além disso, só o novo. O criado em cada minuto. E não tem dois tempos pra quem anda. A dúvida tem só a direção de um lance. Ser junto, ser mais de dois (o sonho dourado da família). Encontro constante e continuado com o fiozinho de nada que é você. E chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar o seu valor.

Viemos de uma geração velha, cansada de guerra. E crescemos sob os fluidos da brincadeira de bandido e artista, tela e palco. Somos de depois da guerra. Nem a soma nem a diferença. Somos depois de todos os papos alguém no meio da rua. "Eu peço a palavra". Alguém no meio da rua, sem autorização nenhuma, cumprindo a sua. Resolvendo ao seu redor e por dentro. Tinindo e Trincando. Alguém tem que segurar a barra. Agora mesmo eu não sei se despejo a casa dos marimbondos da minha casa.
Ontem, uma muriçoca me mordeu no braço e com o outro ia matando-a, mas o consciente me disse: num é nem defesa própria. Mesmo assim matei, sem ódio, por medo. Com os marimbondos, vou experimentar diferente. Vou ser brasileiro. Só vou fechar depois de roubado. Ou baiano passando pelo buraco do ladrão na maior.

Bom é acordar com o som dos passarinhos e depois o violão. Olhe a batida de Moraes Moreira, que não é de limão...

...Nos dizemos as coisas pra nós mesmos e vamos nos dizendo até não nos lembrarmos mais. Só sabermos.”

domingo, 13 de dezembro de 2009

O que eu mais queria na vida era ser dessas moça que se embola no lençol no ar.
Que lindeza que eu acho desde menina, quando o circo dava em aparecer na cidade e já vinha só aquela moça.
Tudo bem que o circo trazia beleza por demais, mas o que me prendia a vista mesmo era a mulher no pano.
Dia de circo, eu ia pra modo de ver a festa toda que tinha.Via palhaço e cuspidor de fogo e, nesse dia, aparecia até retratista!... Mas eu queria mesmo era ver a moça do tecido de cor.
Ela chegava com um sorriso que parecia até modo de ter sido pintado na cara feito aquela pintura todo nos ólho. Sorriso mais lindo, sorriso que gente daqui nunca haverá de ter. A moça chegava mesmo desse jeito do feitio de bailarina,mas sem ser. Umas roupa também de cor e de brilho. Ela vinha de um jeito meio que leve na ponta do pé que não cai.
E depois de tanta forma delicada, era de um jeito violento que eu nem achava que havia de caber naquele corpo, que ela pegava o tecido. Ia se trançando toda e nadando pra cima se embolando se abraçando e quando eu dava por mim a moça já tava lá no topo. E quando eu via, ela ficava no ar feito borboleta mesmo.
Borboleta-gente. Borboleta-moça.
Lá ela se revirava toda em sorriso. Não sei o que dava. Por vezes,ela parava em pose de bailarina no ar, ou era fada que se confundia com flor. Mas a moça fazia tanta cor, mas tanta cor,
que eu nem sei mais se no céu era balão ou moça-borboleta.
Mas então, o momento que eu mais gostava mesmo, e por conta disso que fui querer ser moça de tecido do circo, era quando ela trançava as perna e se punha a girar no ar, presa nos pano, como de modo que parecia que tudo ia soltar e ela ainda sim continuaria girando, feito um prego colorido.Nem dava pra ver a cabeça da moça,
ela desvirava de ser gente ali.
Desvirava pra viver de ser prego.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Para quem sai de casa.

-Maneira a sua pulseira!

-Comprei em Ilha Grande. Essa e uma outra, mas aí, a outra arrebentou e, como moro sozinho, não tenho ninguém para amarrar de novo para mim...

-Esse é o cúmulo da solidão, cara.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Felicidade Clandestina

Descobri que preciso ficar sozinha.Sozinha mesmo, de verdade.
Sem as mulheres do vagão das mulheres.Sem alguém em casa.
Sem pensamentos na cabeça pra colocar no papel.Sem estudos.
Sem os velhinhos do jardim do museu.
Sem os floristas do Largo do Machado.
Só-zinha. Só-eu. Eu e eu. Só.
Sem imagens.Sem conversar com cores.
Quero o branco, o vazio, o nu.

Quero ficar cega, surda e muda para poder ficar sozinha.

Sem cérebro, para poder ficar sozinha.

Não é nada questão de tristeza, muito pelo contrário.
É pra poder dividir com menos gente essa alegria que sinto.
Só dividir comigo. De Isabela para Isabela. E só. Sozinha.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Janela

Às vezes, a única coisa que quero na vida
é um lugar para apoiar os cotovelos
enquanto vejo o mundo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Melinda e Melinda

Eu já não tinha mais quatro anos de idade quando experimentei o que experimentei.
Eu, uma mulher casada,42 anos, mãe de dois filhos.
Estava cansada e o dia havia sido cheio de fumaça demais.Eu estava cheirando a envelope de papel pardo e minha cara era uma repartição pública quando vi o pote bonito na bancada do banheiro de Iolanda.
Meu rosto suado,meu corpo melado de uma umidade relativa do ar e minha pele já amarelada demais de uma maquiagem das seis da manhã derretida.
Sentei no vaso e urinei uma urina quente enquanto meus olhos não se importavam com o calor do meu próprio excremento e se preocupavam em olhar o pote que não parava de me olhar também, desde que entrei no banheiro.
O pote era de vidro com umas formas meio quadradas e as arestas grossas davam um tom esverdeado quando se encontravam.Dentro: a delícia.O sabonete líquido era de um branco perolado que dava umas nuances em lilás,tão leves, como que pinceladas ao redor do líquido cremoso.Era uma forma tão cremosa que dava a idéia de uma profundeza,como quando se abre e fecha a boca sem deixar que se toquem os dentes.A verdade é que aquela cor cremosa havia me envolvido.
A cena talvez não tenha acontecido assim,mas para mim foi em câmera lenta.Levantei-me e ainda mijada pelas pernas, fui com o dedo indicador buscando o pote sem minha cabeça mandar e meu dedo apertou o botão do pote.Eu vi meu dedo apertar quando eu ainda não pensava em fazer isso.Era como se uma Melinda tivesse saído da Melinda que eu sou para me ver ali, apertando o botão.
Foi o creme, o sabonete líquido que eu vi escorrer em meu dedo indicador depois.A outra Melinda, a que eu via fazendo as ações para a Melinda que eu sou, foi levando o dedo a boca e aconteceu.As duas mulheres que eu sou se encontraram no momento em que veio o gosto a boca.O gosto do sabonete líquido.Um gosto amargo envolveu a minha boca, e o gosto era tão amargo que eu não posso mais descrevê-lo de outra forma a não ser amargo,ou porque o amargo gosto pode ter arrancado minhas palavras da superfície da língua ou, apenas, as emudeceu.
Bebi, comi, senti sim o sabonete em minha língua, e meio tonta e transtornada,sentindo-me louca fui já completa por duas Melindas, enfiando água goela abaixo, desesperadamente, como que para apagar aquela loucura.
E bebi uma água toda da torneira,bebendo como se tivesse sede de sanidade.Tanta água que meu estômago doendo me fez escorregar na parede, buscando sentar no chão.
Arrotei. Arrotei ali sentada no chão do banheiro de Iolanda.Arrotei um arroto amargo do sabonete, e da minha boca começaram a sair bolhas de sabonete líquido peroladas como ele, lilás como ele.
E eu ali, sentada no chão, via o pote, via a bolha nadando no ar.
Via a minha vida.A vida de quem vive mesmo em bolha.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

-Esse fumo é levinho,né..?
-Não sei.Eu não tenho como saber se é leve se eu não conheço o pesado.
A gente só conhece algo, se conhecer seu oposto.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Romance.

Às vezes, tenho em mim
uma vontade de ter um amor de tarde,cor de laranja.
Quando acordo à tardinha,e meu pé nu encontra a réstia de sol que entra pelo vão da persiana de palha.
Quando vejo um vestido de algodão branco bonito pendurado e me dizendo que quer sair pra passear.tomar sorvete de pistache. de mãos dadas.
E aí, é quando tenho em mim assim, essa vontade de ter um amor de tarde,
da cor de laranja.

domingo, 15 de novembro de 2009

Carta ao leitor

Querido José,

Acabo de chegar em casa e já te escrevo ainda com fome, visto que já passa do meio-dia.Escrevo-te como que pra me desafogar do que passei ainda pouco. Venho de uma ciranda linda de teatro que aconteceu ainda ali, na praça da minha cidade.Fomos em procissão,saindo da Igreja Matriz, passando pela antiga Estação e saindo no Parque Centenário, a Floresta Amazônica da pequenina Barra Mansa.Escrevo pra te escrever o que foi que vi. Lindo.Gente cheia de panos, cheia de cores.Havia tambor e batuque, havia caboclo, havia tipo capoeira, havia Santa Luzia, havia sangue,
havia tanta vida, José, que eu nem sei mais se vivo de verdade.
Chorei naquele começo, quando eles falavam do jagunço, da gente que nasce da poeira, de Canudos.
Canudos não se rendeu,José, não se rendeu.
Chorei porque foi Euclides da Cunha,porque foi uma criança,órfão sobrevivente do sangue,
Chorei porque era voz de um jaguncinho. Foi muita cor, Zé, muita cor.
Chorei porque parece que perdi muito tempo enquanto eu podia estar ali um dia também, não fosse o passado e a pior dor é a do arrependimento.
É chegada a hora, José. Eu preciso partir.Foi por isso que fui pra capital e larguei aquele antigo sonho do qual você ainda faz parte.É chegada a hora. Eu preciso me render a essa coisa que me faz chorar e ficar do jeito que fico, sem conseguir apagar o riso.Não, não penso em largar as leis. Gosto delas, até posso dizer que estou me apaixonando por elas.Elas também já me fizeram chorar de beleza.Elas são meio pálidas, eu sei,ou melhor, elas são cinzas, não, elas são preto e branco. Não têm cor, mas eu gosto delas.Não penso em largá-las, mas preciso viver isso que digo, a cor, o som, e aquele cheiro que sinto desde pequena desse lugar.
Desde pequena...

Obrigada por me ouvir, José.
Um beijo,

Isabela

meu verso de domingo

...E em uma linda manhã de sol
nasceram Bianca, Karolina e Jaisinha
Apesar dos meios tecnológicos,eu,
pouco convencional,
não sabia que tinha no ventre:
três pedrinhas!

sábado, 14 de novembro de 2009

çar



..çar.

A desculpa: porque a minha saudade desse lugar ultrapassa o enquadramento da foto.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pedra que pariu, que dor!
A dor vinha me consumindo de tal modo que, se me perguntassem se ela havia passado, eu não saberia responder.Eu não sei mais se sinto dor,porque acabo achando que sempre fui assim:eu e ela, mas nem mesmo separadas, então, só eu.e ela dentro, fazendo parte de mim, do eu.Ela.É que a dor já tinha tomado conta de mim, ela agora era uma Isabela também, ou um pedaço, uma isabelinha.A dor era como um órgão novo meu.A dor havia se alojado ali de tal forma que eu não conseguia entender como era a vida sem ela.Era como se eu não conseguisse imaginar o que era viver sem dor,fazer coisas se sentindo sem a dor.E, assim, na minha cabeça, ela parecia que nunca mais iria passar, porque eu não conhecia mais uma vida sem aquela dor.A dor estava ali, como se eu não a tivesse mais, porque eu havia me habituado a ela, talvez até tomado afeição a ela, como uma filha no meu ventre.A dor agora era uma coisa minha, como uma coceira momentânea, uma mania de piscar os olhos. A dor fazia parte de mim.

domingo, 1 de novembro de 2009

O presente

Segundos fiquei, parada.anestesiada.prestando toda a minha atenção no forte cheiro de cigarro que parecia sair de cada poro daquele corpo velho.O cheiro parecia ser de cigarro velho e novo,misturado, amanhecido, um em cima do outro como que pra suprir uma necessidade.Com ou sem café,não sei.Não sei,porque o cheiro forte do cigarro me deixava meio sonâmbula ao meio-dia. Mas era forte e parecia ser tão dominador e extravagante que tinha assim,uma necessidade de sair em odor.Como que transbordando,como se cada poro fosse, para o cigarro, sua válvula de escape naquele imenso container chamado de corpo velho do homem.Mas o cheiro não me incomodava, apenas prendia a minha atenção, com ou sem vento.
O vento que veio, veio do nada e derrubou os livros nas nossas caras, mas isso foi antes de eu vê-lo, e ver o cheiro de cigarro forte que já citei.
Houve uma discussão, eu lembro que houve. Entre mim e ele. Mas eu não sei dizer o que eu disse direito, nem o que ele disse. Algo como Claricenãoépiegas.Nuncaliliteraturafrancesa.leiomaisliteraturabrasileira. Como?
Assim mesmo, com o cheiro ainda tentando me impregnar os cabelos, eu vi a cena. Quando falei de literatura brasileira, ele fez um misto de arrepio, uma ojeriza interessante de se ver, um jeito de se arrepolhar os lábios e apertar os olhos quase como meu irmão quando come maionese.
Eu não sei o que se deu. Agora, relembrando pra poder contar, é como se eu tivesse ficado surda e perdido todos os sentidos quando bateu aquele cheiro. O forte.O do cigarro. Eu só sei que o que se deu foi ele me entregando a sacola verde com os três livros de literatura francesa que eu não havia pagado. As minhas mãos se esticando em um gesto reprovativo ao gesto dele e seu caminho ido. Foi.
E eu ali, no meio do Largo, cheia de razão e meio surda, sonâmbula.Impregnada por uma fumaça de cigarro que nunca se levantou. Eu fiquei parada. Eu e três livros de literatura francesa.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Oi Madalena,
Hi Madeleine.
I see you and eu vi você e quero que seja minha doninha.
te quiero.
para ser minha mon petit. pequena doninha. doninha do meu cuore.
ser assim, minha de cor.
mas Madô,
Je ne comprends pas francais, nem nenhuma outra língua.
Você terá que falar comigo de outra forma...

domingo, 25 de outubro de 2009

A queda

Foi com os olhos que eles se despiram.
A roupa que se tira com os olhos. os beijos que se dá com os olhos.
Porque eram compromissados e porque eram felizes em seus compromissos de amor, que não deveriam se chamar compromissos, por serem de amor.
Não tinham porquê, porque pra essas coisas não tem que haver porquê. Eram felizes lá, mas eram felizes também aqui enquanto se devoravam com os olhos e só com os olhos pra não consumar. E enquanto traíam com os olhos. Na confusão das palavras tiradas, linhas retas que fincavam, na doce implicância que se alimentava em uns abraços mais apertados que o normal pra tentar matar o desejo que não se supria com o olhar. O olhar que despia, o olhar que beijava loucamente e dizia pra dizer frases que cortassem com a doce e amável implicância que nutriam.

sábado, 24 de outubro de 2009

24 de outubro de 2004.

Cinco anos de Cinema.Transcendental.
Transcendental.
Caetano só viria depois. Ele e a queixa.
Um amor assim delicado.
Não há culpados.
Foi pecado apostar na alegria?
Cinco anos de Cinema mudo.
eu mudo.ele muda.(quase)tudo muda.
é contínuo.
Caetano:
-tempo, vou te fazer um pedido!...

domingo, 18 de outubro de 2009

Romance

" - Esse é o problema com o amor... ou ele vira cobrança e ninguém tem mais paz, ou então ele vira rotina e as pessoas morrem de tédio.

- Se você quer amar alguém por muito tempo tem que aprender a gostar da rotina.

- O casamento é o túmulo do amor. Foi inventado para os seres humanos medianos, que não são aptos nem para o grande amor, nem para a grande amizade, portanto para a maioria. Nietzsche.

- Você não quer casar porque é um ser superior, é isso?

- Não, eu não quero casar porque casamento é chato. Porque casamento é uma coisa, amor é outra. As pessoas se casam por amor e depois terminam se estapeando por causa de uma infiltração na cozinha.

- Eu não posso acreditar que você não vai mais me namorar por causa disso. Por causa de uma frase do Nietzsche e uma infiltração na cozinha.

- Eu prefiro a aventura à rotina.

-Eu prefiro os dois. Criar um filho, por exemplo, é uma aventura e é rotina ao mesmo tempo.

- Eu não quero ter filhos... quero fazer teatro. Ou filhos ou livros.

-Nietzsche de novo.Pois eu quero casar, ter filhos e fazer teatro. Mas não com você! "

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Por um lamento

Hoje é o dia mais triste da minha vida.
Hoje morre um pouco de Isabela nesse mundo.
Hoje, um pedaço de Isabela vai embora pra nunca mais voltar.
E Isabela nunca mais será a mesma, porque há pedaços que não se regeneram, passe mil anos.
Talvez seja como o tempo. E eu nunca mais voltarei a ser o que era nunca.
Devia ter me aproveitado mais de mim.
Hoje é o dia mais triste da minha vida.
Faço o enterro dos meus pedaços.
Não tenho vergonha de dizer que morro.

Elegia à embriaguês

Se alguém agora
Lá fora passa
E de soslaio olha
E vê tanta alegria

Comenta a um amigo
Também fora do palco
Aquilo,companheiro, é fruto do álcool

E diz a um vizinho
cheio de intriga
Aquilo, meu amigo, é fruto da bebida.

Mas, se na peça da nossa embriaguês,
Um ato é de amor e o próximo de alegria
Se, ao cair o pano,caem as desavenças
E, pelos próprios desafetos, somos com amor tratado!

Por que razão, amigos, o mundo não é assim?
Por que todos, sem exceção, não vivem embriagados?

(Roberto Lando)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Eu não quero sorte pra ter amor. E não quero tranquilo.
Mas quero paixão e sabor e fruta mordida
Quero rede, cabelos e sede que se mata na saliva.
Depois vou querer amor sim,
mas todo ele, todo o que houver nessa vida. Sem trocado, sem garantia.
Quero viver a poesia, mas sem rima.
Quero te alcançar em cheio o mel e a ferida e o corpo inteiro feito um furacão
boca. nuca. mão
e a sua mente sim. A sua mente toda
transtornada e bêbada. Embriagada, embriagada de mim.

Créditos: Todo amor que houver nessa vida - Cazuza.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O coração apenas pulsa. O coração apenas bombeia.
O coração apenas bate.
tum tum tum
O coração é racional. O coração tem seu ritmo e o respeita porque tem
a única função
de bombear o sangue. M a i s n a d a !
Tum.
Quem sente é a cabeça. Quem sofre é a cabeça. Quem chora é a cabeça.
Quem ama é a cabeça.
Quem se apaixona é a cabeça.
Quem ri é a cabeça.
A cabeça é emoção. O cérebro é sensível e emocional.
Deitei na sua cama e ainda senti aquele cheiro só seu só seu.
Deitei na sua cama e ainda me lembrei quando eu tinha pézinhos e mãozinhas que cabiam assim, no meio, meiozinho de vocês dois. Quando eu ia escalando entre lençóis, no meio da noite, fugindo dos monstros que me perseguiam no meu quarto...

...Me deu uma saudade do presente, porque parece mesmo que eu já estou sentindo saudade de hoje.
Já estou com saudade dessas histórias loucas que tenho vivido, dos amigos que tenho pra ligar hoje e já estou chorando pela falta do segundo que viverei amanhã.

sábado, 3 de outubro de 2009

Largo das Neves.

Eu quero uma casa verde em Santa Teresa com uma nêga de gesso apoiando a cabeça nos braços gordos e pretos e sorrindo na janela.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa e subir pro Largo das Neves pra odiar os pombos enquanto leio jornal e as bandeirinhas que balançam e as bandeirinhas são de outras Juninas.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa.
Casa antiga e larga, pé direito alto e bem arejada de varanda eu vou ver a vista.
Quando tiver tempo vou descer de bonde. Eu sempre tenho tempo e o bonde é amarelo. O Largo dos Guimarães é uma beleza e aquele povo todo que saiu de outra década vem morar perto de mim.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa e enquanto o bonde passar por de cima dos arcos da Lapa eu vou ver por cada fresta de janela desse Rio de Janeiro a casa de cor do pobre do Centro.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa que é pra enquanto o bonde passar por de cima dos arcos da Lapa, eu vou rezar por cada menino magro de fome e barriga de verme que se torce na camisa e cheira cola pra se alimentar eu vou rezar.
Eu quero uma casa verde em Santa Teresa com árvore de fruta e um cachorro chamado Fubá.

Yo quiero ser una chica almodovar

Yo quiero ser una chica almodovar
Como la maura, como victoria abril
Un poco lista, un poquitín boba,
Ir con madonna en una limousine.

Yo quiero ser una chica almodovar
Como bibí, como miguel bosé
Pasar de todo y no pasar de moda,
Bailar contigo el último cuplé.

Y no parar de viajar del invierno al verano,
De madrid a new york, del abrazo al olvido,
Dejarte entre tinieblas escuchando un ruido
De tacones lejanos.

Encontrar la salida de este gris laberinto,
Sin pasión ni pecado, ni locura ni incesto,
Tener en cada puerto un amante distinto
No gritar ¡que he echo yo, para merecer esto!

Yo quiero ser una chica almodovar
Como pepi, como luci como bom
Venderle al garbo mis secretos de alcoba,
Ponerme luto por un matador.

Yo quiero ser una chica almodovar
Que a su chico le suplique ¡atame!
No dar el alma sino a quien me la roba,
Desayunar en tifanis con él.

Y no permitir que me coman el coco
Esas chungas movidas de croatas y serbios
Ir por la vida al borde de un ataque de nervios,
Con faldas y a lo loco.

Encontrar la salida de este gris laberinto,
Sin pasión ni pecado, ni locura ni incesto,
Tener en cada puerto un amante distinto
No gritar ¡que he echo yo, para merecer esto!

Como patidifusa escribir mis memorias,
Apuntarme a cualquier tipo de bombardeo
No tener otra fe que la piel,
Ni más ley que la ley del deseo.

Encontrar la salida de este gris laberinto,
Sin pasión ni pecado, ni locura ni incesto,
Tener en cada puerto un amante distinto
No gritar ¡que he echo yo, para merecer esto!


(Joaquin Sabina )


" encontrar a saída deste labirinto cinzento
sem paixão, nem pecado, nem loucura nem incesto
ter em cada porto um amante diferente
não gritar:
- o que que eu fiz, para merecer isto "

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Muitas questões povoam a minha mente.
A do ovo e da galinha é a mais conflituosa delas.
O ovo é o disfarce da galinha ou a galinha é, simplesmente, a mãe do ovo?
...Enquanto isso eu não sei o que vou ser,

porque ser é algo que dá muito trabalho,
precisa de um esforço braçal no mental

...mas essa é só mais uma pequena questão das muitas que povoam a minha mente,
onde a do ovo e da galinha é a mais conflituosa delas.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Eu tinha 19 anos e uma cabeleira aloirada de chá de Marcela quando vi uma realidade se tornar sonho.É extremamente estranho quando a realidade vira sonho e, mais estranho ainda é quando, após virar sonho, não se poder mais vivê-lo. É estranho isso, ou não. Mas é que sonho não nasceu pra ser vivido e, quando isso acontece, alguma coisa se sucede no tempo para mudar, porque a vida, companheiro, não é sonho não.Eu tinha 19 anos e uma cabeleira aloirada de chá de Marcela quando deixei o lugar. Eu, que nasci com a tendência à incompletude, via-me a mais completa das criaturas.Mesmo assim, deixei o lugar, com os olhos empapuçados do choro da noite anterior e uma cabeleira aloirada de chá de Marcela que eu tinha aos 19.E nesse dia, eu que sempre quis ser e tão incomum, entrei pro clã dos comuns que vêem sonhos se tornarem realidade, e não realidades se tornarem sonhos.

domingo, 27 de setembro de 2009

Porque eu tenho essa necessidade de ser assim meio contra a corrente. Mas não um contra polêmico, que bate na mesa e fala alto, porque assim também seria muito óbvio e previsível. Um contra que fala baixinho, virando a cabeça pro lado e rindo no final. Porque eu tenho essa necessidade de ser imprevisível e diferente de tudo que possam esperar de mim. Cara de que faz algo muito diferente, mas, no final, se entrega ao banal e ao mais comum. Um rótulo, uns títulos e essa delícia em surpreender,em deixar boquiaberto, em fazer o nada a ver, ou melhor, o que parece ser nada a ver.
O fugir assim, à francesa, pela tangente, de mansinho, de andar lentinho e com charme daquilo tudo que esperam de nós é fantástico.
Ser surfista com cara de surfista não tem graça. O interessante está em descasar as palavras e atos com a imagem e, se não for assim, não há porque rir.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Desde aquela hora com vontade de comer bis branco que não passa. Eu vejo poesia onde não tem, mas se vejo é porque há e ela me puxa pelos cabelos e me gira e me gira e me gira no ar. A menina caminha solta o corpo fecha os olhos no túnel de metal e se liberta em sonhos porque fecha os olhos que levam segundos de vida que passam e que passam pelo túnel de metal e ela sobe. Sobe, tá chovendo. Vê um abraço e deseja encontrar. Na chuva.Na certa daria um beijo longo na boca quando as línguas dançam e dançam, e depois olharia a cara dele de sono que tem na chuva, no largo.E anda e o guarda-chuva dobra e o vento e o vento e o sinal que pisca e já passa das onze e o casal que namora na porta, no prédio, no escuro. Casal que se beija e faz quem não beija ter vontade de beijar também. Sumi sim e gosto de sumir quando ainda não sumi de mim mas, ao final do dia, tudo o que eu queria mesmo era matar essa vontade de comer bis branco que não passa.
Chovia uma chuva de dar dó.
Cinza e caras cinza.
Nublado. Preto. Branco.
No meio da praça um homem preto.
Negro como Bob. Cabelos como os de Bob cantava
lindamente
como Bob.
O dia era cinza.
Sem sol porque
naquele dia cinza, o sol amarelo havia escolhido aquele homem preto pra morar.
E a chuva.E a chuva que caía do céu só pra lavar seu rosto, homem.
E cantava e cantava porque balançava um balanço de Bob e os dreadlocks que pulavam pra comemorar a chuva que cantava pro homem.
E o sorriso. O sorriso do Bob do Largo do Machado que fazia
o dia ter o sol iluminado mais preto que já vi.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Receita de bolo

Se quiser que uma paixão dure,jamais a corresponda.

domingo, 13 de setembro de 2009

Lili inventa o mundo

Lili tinha 5 anos e umas balas no bolso quando ganhou um caleidoscópio.
Botou o buraco dentro dos olhos e viu o mundo se mexer colorido.
Lindo.
O mundo que Lili via por aquele único olho do tubo era Lindo.
E Lili decidiu que, a partir de então, mesmo sem o tubo, ela veria o mundo sempre daquele jeito. Miçangas e paêtes e estrelinhas coloridas nadando pelos ares e cores e cores.E, assim, Lili se tornou a famosa garota dos olhos de caleidoscópio.
Quando Lili passava por momentos tristes, as cores ficavam mais escuras no caleidoscópio do mundo, mas ela girava e tudo voltava a ter cor e nadar e nadar e nadar em colorido.
Um dia,Lili achou que não sabia mais que cor estava. Estava tão confusa, havia cor por todo lado. Por vezes, ela queria ser amarelo-laranja-vermelho, por outras, ela queria ser lilás-rosa-verde clarinho. Lili caiu em pensamento. Pela primeira vez na vida não sabia de que cor estava seu mundo. Estranho.
Foi quando chegou no parapeito da janela, e o verão chegava também. Lili arregalou os olhos já não pequenos, e gritou sozinha no quarto:

-Azul!

Azul Azul Azul.
Blue Blue Blue .
Blues. Azuis.
Blue Blues Azul tudo todo mundo nu céu celeste celestial de um azul tudo mas sem você eu fico blue blues azuis azul blue.

Bilhete

A vida aos 20 e poucos anos se resume em apenas alguns conselhos (pelo menos para três garotas sonhadoras):

"Cuidem bem da Filó , deixem a geladeira viver até quando ela agüentar e tampem bem os pregos quando a próxima gaveta cair.Cuidem bem da Luana, ela é uma extensão da nossa casa! Vejam esse negócio do disjuntor com a Adriana pra não ter que ficar descendo pra ligar, cuidado com o pai da Adriana, eu o acho tão estranho.Bianca, confira o gás e a porta toda noite, mesmo que já tenha ido deitar. Tentem fazer mais amizades no condomínio, pois eu acho que somos muito excluídas aqui, ou então mudem, mudem pra uma casa com jardim."

Seguidores