quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Ausente


Era uma dessas noites quentes de Copacabana quando eu percebi que você realmente tinha ido embora.

Eu havia bebido demais no dia anterior para ter noção disso antes. Acordara cedo e ainda meio tonta para perceber. O dia havia acabado e você realmente não tinha voltado pra casa.

Era novembro e começava a ventar quente junto com toda a energia que o Rio começa a ter nesta época do ano. Ainda na janela, antes de me deitar sozinha, percebi a maior aflição nisso tudo: um dia eu iria esquecer.

Eu tenho um medo danado de esquecer as coisas, porque eu as guardo tanto, faço tanta força pra guardar e pra lembrar que de tanto encher a cabeça, há um dia em que algumas vão embora. Deve vir disso essa mania de escrever. É a falsa sensação de que conseguirei registrar tudo no mundo. no meu mundo.
Mas foi na janela e no vento quente que sempre vem que me dei conta. Eu ia esquecer.

Eu já havia mexido em algumas fotos outro dia e já havia percebido que não me lembrava de muita coisa. boa.

É um pavor terrível esquecer, sobretudo quando acaba e não se tem mais companhia pra reconstruir as lembranças.

A verdade é que eu sempre soube que ia acabar me esquecendo de tudo isso, tanto que tentei decorar as pintas, o jeito da barba fazer curva, a canaleta que carrega os fios pelo apartamento, o jeito falhado que a pintura nova tomou na quina da parede.

Na verdade acho que eu já até escrevi sobre isso uma outra vez, mas esqueci uma parte e acho que a parede não havia sido pintada ainda, então é memória nova.

O Rio está o mesmo de todo verão, naquela movimentação de sempre, de querer viver tudo ao mesmo tempo e com todo mundo e junto. Copacabana também, inclusive na Siqueira Campos, a rua do mundo. O verão continua, menos eu.

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