quinta-feira, 2 de maio de 2013

Paladar

Quando eu te mandei ir embora, enlouqueci. Deite-me perto da janela, sentada na cadeira e com os pés por cima da mesa. As nuvens pareciam correr naquele instante, elas andavam muito mais velozes que minha cuca. Eu estava meio anestesiada ao som de Ney Matogrosso. Vi uns restos de cigarro que você tinha largado no parapeito da janela e peguei um. Eu não sabia de quando eram, talvez de sábado, ou semana passada. Eram velhos e já tinham tomado a fumaça da rua. Foda-se. Não queria sair do quarto pra buscar fogo, estava quase bem naquela posição nova descoberta. Era como um refúgio do trânsito alucinado de Copacabana: chegar à janela e olhar para o céu, melhor: deitar na janela. Tinha uma caixa de fósforos na gaveta da mesinha. Acendi o que restava de um cigarro, o filtro. Eu não sei fumar, você sabe, nunca soube. Fiquei ali engolindo fumaça, soltando fumaça, olhando as nuvens galopantes. Depois cheirei minha mão: tinha o cheiro das suas. Lembrei-me de uma outra vez que você foi embora para sempre e deixou um cigarro semi-aceso no parapeito da janela de um outro apartamento meu, eu também o peguei, mas na ocasião não fumei, só o apertei bem forte na palma pra sentir teu cheiro. Desta vez fui mais longe, senti também seu gosto.

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