sábado, 8 de dezembro de 2012

nada

Fazia parte do cansaço, mas eu tinha alguma coisa estranha. Fiquei sozinha no vagão, observei as pessoas, coloquei músicas, tentava fazer um nexo de causalidade entre elas e o som. Depois observei as luzes que corriam refletidas no vidro escuro do espaço subterrâneo do metrô até chegar naquela estação. Tocou uma música no aparelho que eu ouvia, e eu já saía do vagão. De repente parecia mesmo que eu tinha encontrado enfim a sintonia entre a música do mundo externo com o mundo que eu acabara de criar. O mundo momentâneo das pessoas que saíam do trem junto comigo. Como em um clipe, um filme, um período de graça. Alguma coisa me levava pela mão, acho que era a música. Eu sentia que estava transcendendo e não queria pensar muito nisso, apenas sentir este pedaço de existência suprema. Quando vi, estava chorando parada em um degrau da escada que rolava. Mudei o caminho da volta para aproveitar mais tempo aquilo e quando a música acabou, desliguei no ato o aparelho. Não queria ser contaminada por nenhuma outra energia. Comecei a prestar a atenção nos sons que a rua me passava, como quem sai do útero materno para os primeiros sons da vida. Eu chorei sem motivo ou ideia, chorei porque havia música e minha saída do vagão casava com o som dela. Houve uma faísca de alegria que me tomou o corpo todo: apesar de qualquer coisa, eu ainda era capaz de me emocionar com o nada.

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