terça-feira, 20 de novembro de 2012

céu abaixo

A primeira vez foi assustadora. Parecia um filme de terror de cores vivas, uma piada de mau gosto, um pesadelo. Agora eu já estou acostumada. Vermelho, a minha cor preferida na privada. Tô mijando sangue. Tudo faz parte de um costume, um pouco de anestesia e do tempo. A primeira vez foi assustadora, eu tive um grito engolido calado engasgado na garganta. Um pavor todinho me tomou o corpo, fiquei bamba, eu tinha sangue vivo no vaso onde eu acabara de urinar, quente e casual. Agora eu já me acostumei, foi assim que aconteceu também com a dor. Antes as dores vinham e me alucinavam, eu urrava de dor, eu gritava, eu socava a cama, o travesseiro, eu me socava. Não havia posição e a cada hora eu entendia de uma forma meu corpo. Quando a dor ia embora eu ficava drogada, caía lânguida em um sono profundo e, quando não acordava com a volta dela, acordava com medo de me mexer e a dor voltar. Fico me perguntando se a dor diminuiu depois de todo este tempo, ou se fui eu quem se acostumou com ela. Eu me habituei em ter crise renal, em expelir uma pedra pontuda pelo canal da uretra. Eu sou como qualquer outra pessoa, que se acostuma com a dor da vida e segue anestesiado, confundindo ser e sentir. Hoje em dia quando a dor surge, eu tomo o remédio, recosto-me na cama e ela não passa não, mas eu fico ali distraída com ela. A dor me faz companhia e eu fico observando cada passe dela, seu ir e vir, suas nuances pelo meu corpo, aumentando e diminuindo. A dor da crise renal me distrai da dor da vida, esta que eu sinto toda na alma, esta não há aspirina que faça passar. Agora vem o mijo. Eu levei susto a primeira vez que fiz xixi de sangue. Hoje em dia eu apenas vejo. Meu mijo quente me escorre e depois eu o olho ainda fresco. Vejo o vermelho se dissolvendo na água da privada. O vermelho se espalha como nuvem, como um pincel sujo de tinta guache que busca a limpeza no copo d'água enquanto espera. O meu sangue se dissolve pelo vaso e eu penso na morte. Tudo parece um céu, a maneira como se espalha, em nuvem. Meu céu é vermelho.

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