quarta-feira, 10 de outubro de 2012

On the road

Existe algo místico entre mim e a estrada. Ou talvez não sejam as estradas, mas as janelas. Eu gosto de janela ou da sensação de estar com os cotovelos apoiados para ver o mundo passar. Existe algo místico entre mim e a estrada, em especial à noite. De primeiro ainda adolescente, nas idas e vindas das férias de verão no Espírito Santo. Viagem de noite inteira. De dia eu sou capaz de entrar em cada apartamento do aterro do Flamengo ao ir para o trabalho, lembro-me também de ser capaz de entrar em cada quarto da Lapa quando passei pela primeira vez por cima dos arcos, no velho bonde amarelo de Santa Teresa. Parece até que sinto o cheiro dos quartos: a bebida, o sexo, o creme de cabelo das moças. Mas à noite, sinto plenitude na estrada. De quando adolescente, indo e voltando das férias de verão no Espírito Santo, bastava uma música no meu discman para que eu começasse o ritual místico, eu já disse, sagrado. Entre o reflexo do meu rosto no vidro, o céu inteiramente negro, talvez alguma estrela, mato, morro, vivo, grama. Tudo se confundindo em minha visão do vidro. Eu era capaz, eu sou capaz de sentir uma plenitude exata. Era comum chorar naquele tempo, ainda o é. É comum chorar quando se sente a plenitude e quando algo de misterioso como seu reflexo no meio da noite, do mato, da estrada e do nada, aparece. É estar no nada. É ser muito pequena na visualização da imensidão e ser muito. No meio deste misticismo existia algo doce. Era entre mim e a ponte Rio-Niterói. Desde criança nas idas e vindas das férias de verão em Cabo Frio, carro sem ar-condicionado na década de 90 em que, pelo menos no interior, ar-condicionado era luxo. Eu sempre precisava parar a cabeça na ponte Rio-Niterói. Sossegar a cabeça e não ouvir meus irmãos brigando, minha mãe contando uma história pro meu pai, ou a cadeira de praia que batia na minha nuca no movimentar do carro. Existia algo ali, de dia ou à noite. Eu precisava parar e sonhar. Eu tinha todo o sonho do mundo e, ainda hoje, ao lembrar da sensação que eu sentia, eu chego a me emocionar. Eu era uma menina pequena de dez, no máximo, que via a capital pela tevê e pelo passar na ponte Rio-Niterói. E foi ali que sonhei, foi ali que construí o que vim parar aqui em Copacabana, o resto, eu deixo para pensar nas estradas, nas janelas dos ônibus Cidade do Aço em um trânsito de sexta às seis.

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